Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Novo romance de Antonio Xerxenesky investiga nossos tempos por meio da depressão

'Uma Tristeza Infinita' retrata um psiquiatra tratando dos traumas do pós-guerra europeu

Mateus Baldi*, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2021 | 15h00

Nos anos 1940, enquanto a França é dominada por nazistas, o jovem psiquiatra Nicolas estabelece seu consultório em Vichy, onde convive com a realidade em que “judeus eram denunciados e deportados, ao passo que ele praticava uma psiquiatria distanciada e alheia a questões políticas e históricas”. Na década seguinte, quando o encontramos pela primeira vez, julgando-se “ridículo e medroso”, Nicolas está em um pequeno vilarejo suíço tratando pacientes de todo o mundo que têm traumas de guerra – cheio de questões políticas e históricas.

A cena de abertura de Uma Tristeza Infinita, novo romance de Antônio Xerxenesky, ajuda a dar o tom das quase 250 páginas seguintes: o psiquiatra, há menos de um mês morando no cantão de Vaud, caminha “por dentro de uma nuvem”. Ao chegar em casa, encontra a esposa, Anna, que acabou de voltar de Genebra, onde assistiu a um filme “divertido”. O casamento não vai muito bem, e logo descobriremos que ela estava infeliz em Vichy como na Suíça. Essa neblina inicial, por sua vez, age como um alerta, permanecendo até o fim e mantendo a narrativa longe do chão e dentro do pensamento – aqui focado em três pacientes-chave, Mary, Lee e Emil. Se a primeira rói as unhas até a carne, o brutamontes Lee mal consegue se comunicar. Por sua vez, Emil não tem sintomas aparentes e não vê motivos para estar ali. Ver, aliás, é justamente o motivo que o mantém no Centro: Emil enxerga uma figura que afirma ser Satã.

A melancolia à qual se referem os pacientes, uma tristeza “cósmica, uma tristeza do tamanho do universo ou do espaço vazio dentro do átomo”, é a mesma que envolve Nicolas. Através das rachaduras no trauma – que obviamente o aflige –, Xerxenesky nos conduz por um ensaio sobre o vácuo como método de preenchimento. Numa época em que a depressão ainda não era conhecida e tratada como hoje, o psiquiatra rejeita terapias agressivas, como o eletrochoque, e investe no “poder da fala”, travando diálogos sobre a guerra, a bomba atômica e toda sorte de filosofia que se esconde nas frestas.

É a chegada de uma nova droga, opondo inconsciente e praticidade, o que irá incendiar de vez sua delicada luta: equilibrar o tratamento individual e as profundas memórias coletivas do passado recente. Afinal, nos tempos de Vichy, ele viu a porta dos vizinhos aberta com “todos os móveis no chão, papéis por toda parte, uma casa devassada, joias e objetos valiosos roubados, nem sinal dos antigos moradores, levados sabe-se lá para onde”.

O jogo de forças entre tensão e distensão, Eros e Tânatos, Jekyll e Hyde, presente em seus livros anteriores, atinge aqui seu ponto mais sofisticado: Xerxenesky dosa os antídotos na mesma medida em que administra o veneno, construindo uma passagem sutil entre um e outro, cuja menor dose pode ser fatal. A cena da criança na floresta é emblemática nesse sentido, uma experiência sensorial que deve muito à atmosfera de livros como F e As Perguntas, nos quais os deslocamentos da realidade eram constantemente manipulados para submergir o leitor no labirinto. Nesta elaboração da tristeza, saem de cena Orson Welles e São Paulo para a entrada angustiante do elemento mais óbvio possível, e por isso mesmo excelente: a superfície. O tempo todo Xerxenesky nos mantém presos à gravidade de um plano imediato. É como se, numa torção, nadássemos em mar aberto usando um colete salva-vidas de chumbo; não afundamos por um milagre paradoxal, e a simples consciência da superficialidade nos é aterrorizante. Porque também essa é a realidade de Nicolas Legrand. Ao tentar salvar vidas traumatizadas pelos diversos matizes da 2ª Guerra, ele precisa lidar com o fato incontornável de estar diante de criaturas muito reais, muito palpáveis.

Há duas grandes belezas neste livro: assim como O Clube dos Jardineiros de fumaça, romance de Carol Bensimon vencedor do prêmio Jabuti, é um acerto enorme transferir a ação para fora do Brasil. Se as curtas referências a essas terras arrasadas poderiam ser suprimidas – bem como alguns diálogos que ficam rapidamente filosóficos demais, ainda que ótimos –, soa melhor falar da sociedade brasileira e do caos recente de forma indireta do que investir em tentativas destrambelhadas de interpretar o que nem se sabe o que é.

Salpicar a narrativa com referências-mil, como é de praxe nos livros de Xerxenesky, também ajuda. O arco de Anna, envolvendo o surgimento do Cern, é ótimo, e a aparição de certo escritor suíço é um dos bons momentos em que o livro se permite extrapolar o cercadinho da ficção. O que conduz à segunda grande beleza: Xerxenesky não querer se camuflar. Desde o início ele está presente como algo a ser explorado junto à melancolia de Nicolas, feito um de seus pacientes. O sobrenome “cheio de consoantes, terminado em y, um sobrenome que denunciava uma origem impura aos olhos alemães”, a estadia num vilarejo suíço que dá lugar a uma investigação da psique: nas mãos erradas — são muitas —, esse tipo de registro transformaria qualquer livro em um amontoado de onanismos pelo qual nenhuma árvore deveria morrer; nas do escritor gaúcho radicado em São Paulo, entretanto, ao se assumir como seu livro mais pessoal, constitui um dos muitos fragmentos cuja massa acaba por moldar a tessitura do romance, colocando-o como um dos ótimos autores contemporâneos que mereciam ser mais lidos – não é todo dia que surge alguém escrevendo romances que misturam Orson Welles, assassinos de aluguel, ocultismo e física sem deixar a peteca do rigor cair.

Assim, ao final de Uma Tristeza Infinita não existe nada pleno de luz para Nicolas, somente os vultos que tentam fugir à palavra proibida. Suas páginas carregam o mesmo signo da Alina de As Perguntas e da Ana, de F: um constante movimento em direção a alguma coisa que quase nunca sabemos o que é, mas que se revela de forma nítida; nada muito distante do que se faz nas igrejas, mesquitas e sinagogas – e para bom entendedor, meia epígrafe basta.

*Mateus Baldi é escritor e jornalista. Mestrando em Letras na PUC-Rio, criou a Resenha de Bolso, voltada para a crítica de literatura contemporânea

 

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