Chris Pizzello/AP
Chris Pizzello/AP

Novo romance de Colson Whitehead retrata crime no Harlem

'Harlem Shuffle' reúne a eloquência característica do autor a seus temas de estratificação racial

Janet Maslin, The New York Times

23 de setembro de 2021 | 10h00

“Às vezes ele escorregava e sua mente ia longe”, Colson Whitehead escreve sobre Ray Carney, o vendedor de móveis no Harlem que convive com o crime e está no centro de seu novo romance, Harlem Shuffle. A própria mente de Whitehead é famosa por ter ido longe por outros nove livros que não se parecem muito uns com os outros, mas agora ele encontrou uma configuração que pretende explorar. Ele disse que Ray deve ir para outro livro, e não vai demorar muito para você saber o porquê.

Harlem Shuffle traz a eloquência inabalável de Whitehead - em determinado ponto ele descreve o trânsito como “melaços buzinando” - para uma mistura da história de Nova York, encontros em nichos, estratificação racial, esperanças em alta e indivíduos em baixa. Tudo isso é trabalhado, de certa forma, em um livro rico e selvagem que poderia ser classificado como ficção de gênero. É muito mais, mas o valor de entretenimento por si só deve assegurar-lhe o mesmo tipo de sucesso popular que beneficiou seus dois últimos romances, The Underground Railroad e O Reformatório Nickel. O autor parece ter gostado muito de escrever o livro.

A narrativa acontece na metade do século 20, e o enredo central envolve um assalto no Hotel Theresa (A resposta do Harlem ao Hotel Pierre no centro da cidade, que de fato foi roubado em 1972). O Theresa era tão glamoroso, um ímã para a realeza negra, que violá-lo era “como dar a Jackie Robinson um Mickey na noite anterior à World Series”, Whitehead escreve. O roubo oferece a Whitehead muito material para trabalhar do ponto de vista da trama, e faz com que evoque um arrebatador marco perdido neste processo.

Conheça a galeria de malandros que Whitehead inventou: Miami Joe, o idiota de terno lilás que planeja o roubo; Chink Montague, o gângster hospedado no hotel com uma atriz iniciante e que está irritado porque o colar dela desapareceu do cofre; Chet the Vet e Yea Big, os capangas de Montague; e o primo Freddie, que nunca soube de um crime de que não gostasse. E há Ray, que inevitavelmente é envolvido em tudo isso. Ray administra a Carney’s Furniture, mas também participa de roubos de joias ocasionalmente. É do mundo da contravenção.

Há três seções no livro e Whitehead chama a segunda de “Dorvay”. De uma forma confusa, a palavra significa divisão - vem de uma escuta mal interpretada da palavra em Francês “dorveille”, que se refere a um período de vigília no meio da noite - e resume um grande tema em jogo no romance. Não se trata apenas do fato de Ray ter dois negócios ou ser tanto um pai de família como um vigarista iniciante; é que quase todo lugar e toda pessoa em Harlem Shuffle pode ir para um lado ou para outro, dependendo da circunstância. O autor cria uma agitação constante de eventos cheios de suspense que quase forçam seus personagens a fazerem o que fazem. A escolha final é deles, claro.

Mas apenas alguns têm a sorte de saber disso. Ray sabe.

A ambição de Ray impulsiona a história. Assim como sua silenciosa vingança. Ele tem sogros de pele mais clara que criaram sua filha em Strivers’ Row e o veem como alguém sem valor. Há um policial branco que precisa ser subornado se Ray quiser continuar no negócio.  Ele tem a possibilidade de ascensão oferecida por um prestigiado clube, embora ser aceito dependa dele ser mais escuro que um saco de papel - esse critério notável - e definitivamente vai lhe custar dinheiro. A forma elaborada com que Whitehead lida com essa trama é razão suficiente para ler o livro.

E há a loja de móveis, onde Ray conta lorotas para jovens casais ingênuos, como por exemplo que eles estão diante de um sofá que esteve no The Donna Reed Show e outras vezes fazendo o necessário para manter o negócio funcionando. O livro abrange o período de 1959 a 1964, e alegremente vai fundo para exibir o conhecimento enciclopédico de Ray sobre os avanços do mundo dos móveis nessa época. Ele sabe em quais tecidos se pode derramar sangue.

Quando os protestos de 64 no Harlem estão a caminho, Ray recebe a visita de um representante da empresa à qual queria se filiar. É um cara branco do Meio Oeste. Whitehead o retrata com sardas, um corte militar e um pouco de tecido seersucker. E, por um momento, os protestos parecem mais engraçados do que deveriam.

Embora Ray seja um aventureiro, indo de Washington Heights ao local do futuro World Trade Center para tratar de suas atividades variadas, o coração do livro é no Harlem. A única viagem maior para outro local é bem deliberada. A exposição Futurama na Feira Mundial de 1964, no Queens, é mostrada como se fosse parte de outro mundo, porque Ray sente-se assim quando a visita.

“Claro, Carney cavou tudo que pôde na Futurama”, escreve Whitehead, mas se “ele caminhasse cinco minutos em qualquer direção, casas imaculadas de uma geração eram as galerias de tiro da próxima, blocos de favela formavam um coro de negligência, além de empresas devastadas e demolidas após noites de protestos violentos. O que havia começado a bagunça dessa semana? Um policial branco atirou em um menino negro três vezes e o matou. O velho know-how americano exposto: Fazemos maravilhas, fazemos injustiças, e nossas mãos estiveram sempre ocupadas”. Detalhes pitorescos à parte, essa não é uma história de época.

Embora o começo seja um pouco lento, Harlem Shuffle tem diálogos que estalam, um final que quase explode, encontros convidativos mesmo que sejam no Chock Full o’Nuts e personagens que você não vai esquecer mesmo que eles só apareçam em poucas páginas. Como Julius, o menino viciado em heroína que Ray e seu mentor urbano, Peeper, encontram desmaiado entre agulhas escuras em um bordel que já havia sido popular.

Pepper: “Sua mãe administrava um lugar bom”

Julius: “Eu deveria ter entrado na Marinha”.

/TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES.

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