Kate Dehler
Kate Dehler

Novo romance de Jonathan Lethem imagina um apocalipse mais suave e gentil

'The Arrest' subverte as expectativas das obras que narram o fim do mundo por meio da metaficção

Ron Charles, The Washington Post

14 de novembro de 2020 | 16h00

“Alguns dizem que o mundo acabará em fogo”, escreveu Robert Frost. “Outros, em gelo.” Mas nesta época de distopias aterradoras, Jonathan Lethem imagina um apocalipse mais suave, mais gentil: sem pandemias arrasando a humanidade, sem asteroides se espatifando na Terra, sem zumbis nos dilacerando. No novo romance de Lethem, The Arrest [A prisão, em tradução livre], toda a tecnologia simplesmente estacou.

Y2K nos programou para temermos que esta paralisação espalhará o pânico no mundo todo. Afinal, quando o poder acaba no novo romance de Don DeLillo, The Silence, os convidados na festa do Super Bowl, em Manhattan, imediatamente enlouquecem e começam a delirar.

Mas esta catástrofe parece diferente na visão de Lethem. Prevendo o terror da escuridão, descobrimos ao contrário os tons sépia da luz das velas. “O Gmail, os textos e os movimentos dos dedos e o FaceTimes, os tuítes e os ‘curti’ sofreram a síndrome do colapso da colônia”, ele escreveu. Sim, automóveis e armas, os elevadores param de funcionar, mas se há sofrimento geral e fome, deve estar acontecendo longe dali, e sem comunicação eletrônica, quem sabe?

“Todos aqui perderam alguém”, disse um sobrevivente. “Caminhamos todos os dias em um fosso de dor”. Nestas páginas, entretanto, o fosso é surpreendentemente raso. O que soa inicialmente como The Leftovers de Tom Perrotta se dá sem os seus traumas psicológicos persistentes. Separados da família e sem o acesso às conveniências da vida moderna, os personagens de Lethem começam a andar de bicicleta e a criar galinhas – nem tanto uma descida no caos como macramê. Uma comunidade de bandidos vizinha é uma pequena ameaça, mas sem crimes ou crises. The Arrest é o tipo de distopia sem crueldade que você compraria na Whole Foods (de produtos naturais).

A ação – ou melhor, a falta dela – se desenrola em uma pequena comunidade costeira no Maine. Um fenômeno conhecido como a Paralisação ocorreu vários anos atrás, e para estes aldeões e para Lethem permanece totalmente inexplicado. “Uma explosão solar?”, indaga o narrador. “Eco-terror? Terror-terror?”. 

Impossibilitadas de viajar, as pessoas estão presas onde se encontravam quando tudo fechou. Uma delas é o infeliz herói de Lethem, Sandy Duplessis. Anteriormente, ele foi roteirista em Los Angeles, mas quando a Paralisação aconteceu, ele estava visitando a irmã em Maine. Então acabou se fixando aqui, digamos em “férias permanentes”, trabalhando como uma espécie de assistente do açougueiro local. Ele está mais num estado de suspensão do que de felicidade, mora sozinho, é um sujeito amigável, mas sem amigos, aparecendo vez por outra na casa da irmã, produtora de alimentos orgânicos cujo sustento perto da Terra antecipava a Paralisação.

Como protagonista, Sandy é o herói mais brando, “uma pessoa média, um intermediário”, escreve Lethem. “Ele só podia ser um atrapalhado”. Temos todas as razões para esperar que ele consiga erguer-se dessa posição indeterminada para chegar, finalmente, à definição e ao propósito que sempre lhe escaparam. (Não tenha muitas esperanças.)

A pálida vida de Sandy poderia continuar indefinidamente sem qualquer perturbação, mas quando The Arrest começa, uma figura do seu passado aparece na aldeia. É Peter Todbaum, um produtor de Hollywood, extremamente carismático, possivelmente louco, fantasticamente rico. O que mais faz as pessoas pararem, entretanto, é o veículo que Todbaum dirige: o Faixa Azul, uma espécie de veículo da ficção científica retrô, que Flash Gordon poderia pilotar. Sandy pensa: algo como “um motor a jato ou uma bomba de hidrogênio montada sobre um chassi fantástico, e depois cruzada com um animal ou um inseto. E então revirada, pelo menos em parte, de dentro para fora”.

Este veículo faz todo mundo virar a cabeça seja onde for – sua superfície cromada brilha tanto que os admiradores ficam praticamente queimados como pelo sol – mas os moradores desta aldeia primitiva não se alarmam particularmente. Talvez já tenham suportado tantas coisas estranhas, ou talvez tenham lido os primeiros romances de Lethem, de modo que sabiam que meteoros de ficção acabariam caindo sobre suas cabeças. Todbaum estaciona o seu supercarro na praça do lugar, serve café de um lugar especial escondido e todos os dias conta horas a fio uma série interminável de histórias emocionantes sobre a sua viagem pelos Estados Unidos. Sandy observa com inveja e repulsa: “Sua língua parecia ligada a algum tipo de corrente invisível: o que seu público precisava e temia ter falado”.

Depois desta premissa excêntrica, o enredo de The Arrest passa rapidamente e desemboca em uma estranha inércia, sustentada somente pelo humor cerebral da voz de Lethem. Assim, ficamos sabendo que Todbaum e Sandy eram antigamente parceiros roteiristas, que durante anos trabalharam com afinco em um épico intitulado Yet Another World. Todbum imaginou que seria "o Game of Thrones da ficção cientifica” e encorajou Sandy a revisar continuamente o roteiro. Mas Todbaum era o tipo de charlatão que Hollywood costuma premiar ricamente, enquanto Sandy se estabilizava como competente corretor de scripts que nunca vê o próprio nome em alguma coisa. Quando seu velho amigo subiu para a estratosfera do estrelato, Sandy foi ficando mais cético, mas não menos obcecado por Todbaum. Agora, anos mais tarde, o seu antigo ‘amigo-inimigo’ reaparece de repente na sua vida estabelecida e o que será que ele quer?

The Arrest é escrito com o brio estilístico costumeiro de Lethem, mas é muito mais leve do que os volumes de Chronic City e muito menos envolvente do ponto de vista emocional do que o seu clássico Motherless Brooklyn. Ele é sagaz, mas não engraçado; uma sátira que nunca acerta o alvo. E há algo elíptico frustrante no seu enredo, como se algumas páginas possam ter caído no caminho até o encadernador. Fiquei esperando que os pequenos mistérios coincidissem com algo maior, mas os motivos de Todbaum não se tornam mais claros, nem a natureza da cautela de Sandy. Sentimos a tentação de acreditar que Todbaum possa ter usado de maneira errada a irmã de Sandy, mas ela rejeita as tentativas de sondagem do irmão.

No fim, Lethem cria uma enorme engenhoca para levar este enredo apocalíptico a um mini-clímax, mas o que está em jogo continua oblíquo. Então, se você quer uma história pós-apocalíptica que frustra as expectativas do gênero distópico, aqui está – com uma fatia de queijo artesanal.

 O romance acaba desse modo. Não com um estrondo, mas com um gemido. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

The Arrest

por Jonathan Lethem

Ecco. 307 páginas

US$ 27,99

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