Fred Thonrhill/Reuters
Fred Thonrhill/Reuters

Novo romance de Rachel Cusk parte da relação de uma escritora com um pintor

Autora da trilogia 'Esboço' se aventura no universo das artes visuais com 'Segunda Casa'

Mateus Baldi, Especial para o Estadão

07 de maio de 2022 | 16h00

M, escritora de meia-idade, constrói com Tony, seu marido, uma espécie de cabana em sua propriedade às margens de um pântano. Com o tempo, o lugar acaba virando uma residência artística e passa a receber pessoas que possam aproveitar o espaço para criar suas obras. Quando um pintor chamado L se hospeda na tal segunda casa, a vida de M entra em combustão. Recorrendo a diversas metáforas relacionadas ao fogo, em um longo relato dirigido a um certo Jeffers, M escrutina todas as suas escolhas afetivas e profissionais, acabando por se enredar uma espiral de obsessões.

É este o enredo do primeiro romance de Rachel Cusk após o fenômeno da trilogia Esboço. Segunda Casa foi finalista do International Booker Prize e chega ao Brasil em tradução de Mariana Delfini. Em entrevista realizada por e-mail, a autora canadense radicada na Inglaterra conta que queria representar “a sensação de perplexidade ou desorientação” que acomete as mulheres após o que ela define como “fases grandiosas de encenação e criação femininas”.

Ao longo do livro, fica claro que M está atormentada de modo generalizado. Não apenas o passado é colocado em xeque, mas o presente – envolvendo sua filha e o namorado com pretensões literárias – e, acima de tudo, o futuro. A dinâmica tensionada entre M e L soma-se a um mergulho profundo, permeado por temas como maternidade e a independência das mulheres. Para Rachel Cusk, Segunda Casa é o resultado de uma tentativa de mapeamento do que lhe “parecia ser um terreno muito indefinido, que é a experiência de viver no despertar ou no ‘depois’ da feminilidade ativa”.

A escritora conta um pouco mais dessas cartografias, comenta a relação que serviu de inspiração para Segunda Casa e responde à inevitável comparação entre M e Faye, protagonista da famosa trilogia Esboço que muito ouvia e pouco falava.

M, de Segunda Casa, expressa sua complicada vida interior, cheia de dilemas, enquanto Faye, a protagonista da trilogia Esboço, era quase um fantasma para o leitor, vista pelas frestas. Como M surgiu? Foi mais fácil escrevê-la?

Acho que usei Faye para definir pela ausência determinados aspectos das adversidades femininas: sua exclusão ou exílio do papel ou espaço femininos permitia questionar que espaço é esse. O que Faye não faria seria “contar”, e contar é um aspecto fundamental da voz feminina. A trilogia é construída ao redor de pessoas contando em vez de narrar, e em relação a M, usei um método semelhante.

A trilogia Esboço discutia o papel da arte através da literatura e o ato de escrever. O que te fez mudar para a pintura e as artes visuais para continuar essa investigação?

Eu queria expressar aspectos da meia-idade que parecem avançar para além da narração, que impelem a um mistério mais profundo que, na minha cabeça, parecia mais próximo do silêncio e do mistério da imagem. Uma coisa é ver como a literatura e a escrita ampliam e às vezes até deslocam ou convocam nosso senso de realidade, mas o fascínio da imagem e sua relação com o eu é mais complexo.

Em Segunda Casa você escreve que “o medo é um hábito como qualquer outro, e os hábitos matam o que é essencial em nós”. Essa frase, de certa forma, encontra eco no que Brett, a acompanhante de L, diz após ver a cabana na mata – “daquelas das histórias de terror”. O próprio caminho do romance nos conduz por uma atmosfera sufocante. Como você pensou essas questões ao longo da escrita, e em que sentido as obsessões de M se relacionam com esse clima?

Há um aspecto de drama ou fábula no romance que está relacionado à questão da realidade pessoal na meia-idade, na qual aumenta a sensação de dar vida às coisas, fazer as coisas acontecerem, com as próprias mãos. Então a relação com a realidade objetiva muda, de certa forma de um modo perverso, na medida em que existe um novo sentimento de impotência em relação a acontecimentos e às ações dos outros. Eu queria representar a sensação de perplexidade ou desorientação femininos no que vem “depois” das fases grandiosas de encenação e criação femininas.

Ao final da edição original de Segunda Casa, você agradece a “Lorenzo in Taos”, as memórias de Mabel Dodge Luhan, publicadas em 1932, sobre o tempo em que o escritor D.H. Lawrence ficou com ela no Novo México, e você diz que em seu romance a figura de Lawrence é um pintor, não um escritor. Como você conheceu esse livro e como percebeu que era um caminho para um novo trabalho? Na edição brasileira você pediu para o agradecimento ser removido. Por quê?

Eu temia que os leitores não tivessem ferramentas suficientes para percorrer o livro se não entendessem sua origem – mas os escritores muitas vezes temem que seus livros não sejam entendidos e pensam que eles precisam ser explicados, e tentar isso é geralmente um erro! Eu estava muito atraída pela ideia de usar as memórias de Mabel Dodge Luhan como um veículo para o que eu queria dizer. Quando deparei com elas, foi muito forte minha sensação de que elas tinham sido descartadas.

M batalha com a maternidade e o fato de ser uma mãe com sua própria vida e desejos – assuntos que estão forjando o debate hoje em dia. Que preocupações você teve, em relação a esses temas, quando estava escrevendo M?

Eu queria tentar mapear o que me parecia ser um terreno muito indefinido, que é a experiência de viver no despertar ou no “depois” da feminilidade ativa. Me parecia que nessa fase da vida havia grandes revelações, que tinham a ver com o uso biológico que foi feito das mulheres, o que pode dar origem a uma reconsideração fundamental de tudo que já aconteceu e a novos desejos e exigências do futuro.

Segunda Casa evoca o tipo de estilo de descrição que fez o leitor quase flutuar na trilogia Esboço – mas aqui você não parece descrever movimentos, e sim pinturas. Que papel a descrição desempenha na sua escrita, e como você aprimorou essa habilidade de modo que fosse quase um personagem dos seus romances?

Tenho tentado me aproximar da pintura e da imagem através da linguagem, e o lugar mais óbvio para começar tem sido interrogar a natureza da descrição. Há também questões muito interessantes em relação a como o tempo funciona diferente na pintura, na comparação com a linguagem. Mas também encontrei uma espécie de alívio moral em descrever a natureza, coisas que são não humanas e não relacionais. É difícil, como romancista, encontrar algum acesso ao sublime, por serem tão inquietantes as políticas de ser humano, mas é uma direção que estou determinada a seguir.

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