Nikola Solic/Reuters
Nikola Solic/Reuters

Novos registros sobre neandertais ganham edição em livro

Rebecca Wragg Sykes reúne descobertas recentes feitas por pesquisas arqueológicas

André Caramuru Aubert, Especial para o Estadão

12 de março de 2022 | 16h00

Descobertos acidentalmente em 1856 em uma pedreira do Vale de Neander, na Alemanha, nossos primos neandertais incomodam desde então. No começo, com sua anatomia sugerindo serem antepassados nossos, eles ajudaram a abalar a ideia de Adão e Eva e o criacionismo (A Origem das Espécies, de Darwin, apareceria em 1859). Aliás, aquela famosa charge, sempre repetida em memes, em que aparecem figuras andando da esquerda para a direita, em que a primeira é um chimpanzé e a última um sapiens, sempre reforçou essa ideia, já que a penúltima imagem era a de um neandertal.

Um susto mais intenso viria depois, quando se descobriu que eles não eram nossos antepassados, mas, sim, primos e que, por alguns bons milênios, neandertais e sapiens dividiram o mesmo espaço sobre a Terra (nossas linhagens se separaram há prováveis 700 mil anos). Ou seja, não havia uma única humanidade e, se eles não tivessem desaparecido, isso seria realidade ainda hoje. 

E um choque adicional ocorreu quando a ciência estabeleceu que o sapiens moderno conta, em graus variados, com a presença de genes neandertais (mais presente em povos asiáticos, um pouco menos em europeus e totalmente ausente em africanos subsaarianos, o que prova que o contato entre sapiens e neandertais se deu fora da África). Ou seja, além de primos, houve, em mais de um momento, procriação entre eles e nós. Se foi sexo consentido ou forçado, contudo, nós jamais saberemos.

Nos primeiros 130 anos desde que o primeiro neandertal foi desenterrado, a ciência avançou lentamente, dependendo quase exclusivamente de pesquisas arqueológicas. A última década, porém, com a chegada de novas tecnologias para o estudo de DNA e com datações mais precisas, permitiu um salto nada menos do que gigantesco nas pesquisas e no que passamos a saber sobre eles.

 É a partir desse recente (e impressionante) volume de conhecimentos que a arqueóloga britânica Rebecca Wragg Sykes escreveu Kindred – Neanderthal Life, Love, Death and Art (Parentes – o amor, a morte e a arte neandertal, em tradução livre). Trata-se de um erudito apanhado sobre tudo o que se sabe hoje a respeito de nossos primos. Não é um livro para especialistas, mas um texto de divulgação científica que atinge o melhor equilíbrio possível entre a enorme complexidade do que relata e a capacidade de tradução para o leitor leigo.

É inegável que Wragg Sykes escolhe um lado: entre os que argumentam que neandertais eram broncos que jamais teriam conseguido evoluir culturalmente como nós, e os que defendem que os neandertais eram parecidos conosco, que conheciam profundamente o meio em que viviam, com capacidade de amar, de pensar sobre a morte, de contar histórias em volta da fogueira e de construir ferramentas sofisticadas, ela fica com o segundo grupo. Isso não quer dizer, contudo, que saia defendendo teses só porque sente simpatia por seu objeto de estudo. 

Tudo o que Wragg Sykes diz é solidamente amparado em pesquisas. Aliás, para além dos neandertais, uma das coisas que atraem no livro é a descrição de como a ciência tem avançado e das conclusões a que se pode chegar a partir das menores fontes (como é o caso do fragmento de um dedo e alguns dentes encontrados em uma caverna da Sibéria, cujos exames apontaram para a existência de uma nova espécie humana, até então desconhecida, a do Homo Denisova).

 Sabemos que os neandertais usavam o fogo, mas inicialmente se acreditava que apenas conservavam fogueiras criadas pela natureza, algo que as novas pesquisas consideram improvável. 

Neandertais viveram em cavernas, mas, segundo novas evidências, não “apenas” em cavernas; eles eram mestres em criar artefatos de pedra lascada, mas há até pouco tempo eram vistos como uma espécie que só sabia fazer isso, quando novas pesquisas os mostram trabalhando com ossos, couro, madeira e penas – o que ocorre é que, em um sítio arqueológico de dezenas ou centenas de milhares de anos, o que mais vai conservar-se são, obviamente, os objetos de pedra.

A mais antiga e incômoda das perguntas, no entanto, permanece sem resposta. O que teria causado a extinção do Homo Neanderthalensis? Pelo menos uma das primeiras hipóteses, a de que o fim teria sido provocado por uma violenta invasão de “humanos superiores”, os sapiens, está descartada. O mais provável é que os neandertais tenham desaparecido por uma combinação de fatores, entre eles uma série de mudanças climáticas que teriam dificultado a obtenção de alimentos. 

Como os neandertais consumiam muita caloria (algo entre 3,5 mil e 5 mil por dia, mais do que o dobro do que necessita um sapiens), uma situação de escassez os teria deixado em desvantagem perante os primos sapiens (que, além do mais, eram fisiologicamente superiores para correr). Além disso, não se descarta a combinação dessas dificuldades com a possibilidade de uma epidemia viral ou bacteriana.

Kindred é ao mesmo tempo sobre os neandertais, sobre o estudo sobre os neandertais e, finalmente, sobre como a maneira que os vemos foi mudando ao longo do tempo. Antes de mais nada, é questionada a crença tradicional de que nossos primos foram malsucedidos do ponto de vista da evolução (afinal de contas, eles estão extintos!). 

Quando se olha para a linha do tempo, percebe-se que eles dominaram o que são hoje a Europa e o Oriente Médio por pelo menos 350 mil anos, provavelmente mais. E ainda deixaram marcas genéticas em nós. Quando consideramos antigas as pirâmides do Egito ou dizemos que Cristo nasceu há distantes dois mil anos, estamos falando de unidades de tempo que seriam pouco mais que minúsculos arranhões na longa régua existencial dos neandertais.

Este é um livro fascinante que traduz, para o leitor leigo, tudo o que a ciência sabe (e especula) hoje sobre os neandertais. No fim, entre as muitas dúvidas, ficam pelo menos três certezas: a de que nós não éramos, no começo, os únicos seres humanos por aqui; que, mesmo extintos, uma parte de nossos primos permanece dentro de nós, em nosso DNA; e que eles eram muito mais inteligentes do que por muito tempo se pensou

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