Novos templos

Enquanto a recém-inaugurada igreja de Edir Macedo prospera, a vizinha São João Batista luta pela vida

Taisa Sganzerla, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2014 | 16h00

 Em meio ao barulho da movimentada Avenida Celso Garcia, ouve-se o tilintar do molho de chaves do padre Marcelo Monge, que procura aquela que dá acesso às escadarias do campanário da Paróquia São João Batista do Brás. A porta de madeira range ao abrir e entramos em uma pequena sala, onde se amontoam sacolas de roupas e cobertores pelo chão. Uma escada em espiral, muito estreita e íngreme, leva a um segundo andar vazio e empoeirado. Entre as treliças da janela, o padre observa a avenida em frente: “Ainda não dá pra ver nada. Acho que vamos ter que subir até o último andar”. Mais dois lances de escada, de degraus enferrujados que gemem a cada pisada, levam ao topo da torre, onde estão os sinos – no piso de cimento finíssimo, buracos permitem que se veja o vão lá embaixo. Monge desemperra a portinhola da treliça e abre a janela. Agora sim, se vê com clareza: o suntuoso Templo de Salomão está do outro lado da rua.

Desde que foi inaugurado, em 31 de julho, o templo da Igreja Universal do Reino de Deus apequenou o centenário edifício católico em frente. Ocupando uma área dez vezes maior que a da igreja, a construção faraônica de Edir Macedo tem capacidade para 10 mil pessoas sentadas, ante as 500 da igreja do Brás. Enquanto uma custou R$ 685 milhões, a outra dispõe de apenas R$ 100 mil para fazer a manutenção e sanar os problemas estruturais mais evidentes – infiltrações no átrio, genuflexórios rasgados e pintura interna que precisa ser refeita.

Mas só a restauração de sua maior relíquia, um órgão de tubos fabricado na Alemanha sob medida para a igreja, custaria R$ 150 mil – mesmo valor que Edir Macedo arrecadou entre os fiéis para consertar parte da entrada do Templo de Salomão atingida por um ônibus na semana retrasada. Como a torre sineira, o órgão permanece há anos empoeirado e sem uso.

“Mas esse espaço aqui, para mim, só precisa de limpeza. É mais racional gastar dinheiro comprando cestas básicas”, diz Monge, referindo-se à torre. Há sete anos à frente da igreja do Brás, Marcelo Monge tem agido como uma espécie de antagonista da teologia da prosperidade da Universal desde que a inauguração do Templo de Salomão foi anunciada, descartando reformas que considera supérfluas, inclusive a restauração do órgão. Para ele, que não quer foto para a reportagem por medo de retaliações, a Celso Garcia se tornou um “mercado da fé” e tem no templo da Universal seu mais luxuoso shopping center.

A igreja de paredes amarelas do Brás já teve seus tempos áureos, no entanto. Foi inaugurada em 1908, a primeira depois de a Diocese de São Paulo ter sido alçada a arquidiocese. Foi altamente frequentada por imigrantes italianos católicos que habitavam o Brás no início do século e era responsável pelo ensino religioso em todas as escolas do bairro. Segundo o padre, há nos registros que em determinado ano da década de 1930 a catequese chegou a ter 1.500 crianças matriculadas.

Em 1979, seu salão paroquial serviu de sala de reuniões do sindicato dos motoristas de ônibus de São Paulo, que, em maio daquele ano fez paralisações na cidade. Já em 1998, com a Catedral da Sé, a igreja do Brás causou polêmica ao gradear o edifício “a pedido da comunidade”, segundo o pároco da época em entrevista ao <CF735>Estado</CF>. Lê-se na linha fina da matéria: “Para padre, grade não é exclusão social”. Um leitor raivoso enviou uma carta ao jornal no dia seguinte, discordando, a sua maneira, da atitude da paróquia: “Fosse propriedade de terceiro, com toda certeza se juntariam aos sem-teto para obrigar os infelizes proprietários a aceitar a invasão”.

Vinte anos depois, do outro lado da rua, Edir Macedo “resolveria”, em São Paulo, uma das questões mais complexas da Bíblia. A obra é uma réplica do Templo de Salomão, destruído duas vezes em Jerusalém, primeiro pelos babilônios, em 6 a.C. e depois pelos romanos, em 70 d.C. Há mais de dois milênios os judeus aguardam a concretização das visões de Ezequiel, que profetizou a construção do Terceiro Templo quando o messias retornasse à Terra. O Monte do Templo, local original dos dois primeiros edifícios e onde se daria a reconstrução, hoje abriga o Domo da Rocha e a Mesquita de Al-Aqsa, lugares sagrados para o Islã.

Enquanto isso, a Paróquia São João Batista do Brás vem sofrendo com a diminuição da frequência. Segundo o padre, em sete anos não celebrou nenhum casamento na igreja. Mas, para ele, fenômeno precede a instalação do Templo do Salomão e de outros templos evangélicos na mesma região e se deve, principalmente, à mudança de perfil do bairro, cujas residências têm dado lugar a cada vez mais estabelecimentos comerciais. “As pessoas costumam frequentar as paróquias próximas a suas casas. À medida que o bairro perde moradores, a paróquia também perde fiéis.”

O fato é que os evangélicos foram o segmento religioso que mais cresceu no Brasil na última década. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre os censos de 2000 e 2010 os evangélicos passaram de 15,4% da população para 22,2%, enquanto a população católica diminuiu em 12,2%. 

Restou à paróquia adaptar-se aos novos tempos. Passou, por exemplo, a realizar missas em espanhol uma vez por semana, de forma a atender à crescente população de imigrantes bolivianos que reside no bairro ou trabalha em suas muitas confecções de roupas.

Da janela da torre, vê-se um grupo de mulheres que se reveza do outro lado da rua para tirar fotos em frente ao Templo de Salomão. Um transeunte para e também saca o celular do bolso – rapidamente faz uma selfie. O verniz de atração turística do templo remete à polêmica de 1923, quando igrejas evangélicas se puseram contra a colocação do Cristo Redentor no Morro do Corcovado, no Rio, alegando que o ato representaria uma “idolatria à Igreja de Roma”. Muda o tempo, mudam os templos.

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