Catarina Bessel
Catarina Bessel

Nu frontal

O psicanalista inglês Philip Carr-Gomm não mandou um nude. Mandou um livro inteiro sobre nudez, ainda inédito no Brasil, no qual analisa a contradição de a gente se mostrar como veio ao mundo

Entrevista com

Philip Carr-Gomm

Vitor Hugo Brandalise, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2016 | 16h00

Hoje se pode surfar pelado, lutar boxe pelado, saltar de bungee jump pelado, casar pelado, cantar karaokê pelado, meditar, malhar, esquiar, pular de paraquedas – apesar do risco de congelar as partes –, tudo pelado. Tem linha aérea alemã em que só voam peladonas e religião que prega a aproximação com o sagrado pela nudez. Deu até vontade de escrever essa reportagem pelado. Já no carnaval do Brasil, essa festa família, se ficar pelado, dá ruim.

Foi assim com a socialite Ju Isen, a musa do impeachment, que tentou tirar a roupa no desfile da Unidos do Peruche – chegou até os seios – e acabou escorraçada da avenida, sob empurrões e pontapés. Nas palavras dos organizadores, houve “desrespeito” à imagem do carnaval. Enquanto ela deixava a pista com um corte na perna, três musas topless já balançavam um carro da Acadêmicos do Tucuruvi. Mais tarde, uma princesa perdeu o tapa-sexo (4 cm) na avenida. Aí pode – não foi por querer.

Nudez humana é contradição, diz o psicanalista inglês Philip Carr-Gomm, autor de A Brief History of Nakedness (“uma breve história da nudez”, inédito em português, que inclui referências de atividades para nudistas como as que abrem este texto). Assim como atrai e excita, a nudez revolta na mesma medida. “Fazemos uma ligação direta entre nudez e sexualidade e, como a maneira de lidar com o sexo varia muito, as reações à nudez também. É um campo contraditório e fértil.” Em casos de agressão, explica, o que há é medo. “A questão de fundo é o desconforto com sua própria pele.”

Na pesquisa para o livro, Carr-Gomm viveu numa colônia naturista perto de Londres, posou sem roupas e frequentou cultos que celebram o corpo nu. Boa parte da obra investiga a relação entre nudez e religião. “Até o cristianismo tem forte ligação com o nu. É o contrário do que se pensa: na religião cristã nudez não é só vergonha.”

Em tempos de retorno da Playboy ao Brasil e do anúncio de que a revista não pagará pelos ensaios, o psicanalista analisou a questão em termos práticos. “A nudez nesses casos é transformada em produto e, assim, tem de ter um preço”, critica. Carr-Gomm ainda questiona um detalhe que passa batido quando se fala em corpos descobertos: estar pelado é o mesmo que estar nu? Para ele, não é. “Você fica pelado no banheiro. Quando se despe para outro ver, fica nu. Por influência do nu artístico, a objetificação contida na palavra nu é maior.” Não à toa, a expressão que pegou por aqui foi o “Manda nude”. Fora da avenida, no celular, somos bem mais liberais.

Por que a nudez tem esse poder de atrair as pessoas e revoltá-las, quase na mesma intensidade?

A história da nudez é uma história da contradição. Ela pode simbolizar poder e também fragilidade, pode ser um ideal para alguns povos, como na Grécia antiga, e uma vergonha a ser escondida, como em culturas mais recentes. As contradições surgem da íntima ligação com a sexualidade, que, da mesma forma, nos traz tantas alegrias e tantos problemas. Ao tirar a roupa, revelamos de pronto o que vemos durante o sexo: o peito, o genital. A ligação é direta. Mas onde há contradição há fertilidade, e aí reside a beleza da relação humana com a nudez. Por que complicamos o fato de estarmos em nosso estado natural, o mais simples possível? Foi o que motivou minha pesquisa. Um dia, eu caminhava nas montanhas, perto de Londres, e ficou muito quente. Não havia ninguém perto, tirei a roupa para me refrescar. Então me perguntei se eu estaria quebrando alguma lei. Era ilegal o que eu fazia? E pensei em como é estranho estar ilegal apenas por ser você mesmo. É assim, como nossa relação com a sexualidade é complexa, a nudez acaba sendo também.

O senhor dedica parte do livro a mostrar a relação da nudez com a religião. Como se aproximam?

Estão mais ligadas do que diz nosso senso comum – desde a antiguidade, pois, antes de existir a psicologia, era por meio da religião que a humanidade articulava as preocupações consigo própria e com sua forma corpórea. Tem a ver com o autoconhecimento. A humanidade está sempre preocupada com ela mesma, somos autorreflexivos, tentamos sempre entender quem somos. A nudez faz parte disso, e aparece logo na história de uma das mais antigas religiões, o jainismo. Uma das principais parábolas dessa religião é sobre um nobre que, depois de um banho, olha seu corpo pelado no espelho e recebe uma iluminação. Ele vê a si próprio como é, tenta se entender como um ser humano completo, sem nada a esconder. Essa é a essência. A nudez na religião é sempre uma forma de se libertar. Ao colocar uma roupa você assume uma identidade. Ao tirá-la, remove simbolicamente sua identidade exterior. Você está nu em frente a Deus. Se apresenta a Ele, ou à natureza, a depender da crença, de uma forma mais próxima a seu eu real, seu eu autêntico. Nesse ponto, creio que a adoração religiosa faz um ótimo par com a nudez. Mas uma grande surpresa para mim foi como o cristianismo é amigável à nudez. Pensei que seria uma religião repressora, mas não é assim. Já começa com a ideia central cristã de que as pessoas são feitas à imagem e semelhança de Deus. Um corpo nu, portanto, não pode ser considerado obsceno por si só. Por isso, há grupos cristãos que defendem que admirar um corpo nu é contemplar Deus. Há muitos exemplos. Nos primeiros 500 anos do cristianismo, as pessoas eram batizadas peladas. Elas se despiam de roupas e joias, para, de forma simbólica, se aproximar de Deus. A ideia da nudez na religião equipara-se à da inocência, há um paralelo com a razão de ser do religioso, que é purificar a si mesmo, livrar-se dos acessórios, disfarces, fingimentos. Não é à toa que, tradicionalmente, um dos principais roteiros de peregrinação cristã, o Caminho de Santiago, termina com o peregrino queimando suas roupas e jogando-se nu no mar.

Em sua pesquisa, o senhor diferencia estar pelado de estar nu. Como é isso?

Estar pelado tem um sentido mais inocente, de ficarmos em nossas próprias peles, sem que nada a cubra. Somos nós mesmos, seres humanos em estado natural. Por outro lado, estar nu adquiriu um sentido que pede a observação do outro, primeiro por causa do chamado nu artístico e depois pelo viés comercial. Ficamos pelados sozinhos no banheiro, mas, quando estamos numa sessão de fotos, estamos nus. Há uma objetificação do nu que não existe com a mesma intensidade quando dizemos que alguém está pelado.

No Brasil pegou a expressão “Manda nude”. Tem relação com essa diferenciação?

Estão usando a palavra “nude”? Não é por acaso. Parece um exemplo do nu como objeto, principalmente das mulheres, alvo principal desses pedidos. A intenção não é “mostre quem você realmente é”, descoberto, pelado, na sua pele. Mas, sim, mande-me uma foto sexy. Não é à toa que se use uma palavra relacionada a posar, à necessidade de exibição. É o que a nudez precisa para se afirmar. Essa onda aumentou com o vazamento de fotos nuas de atrizes, uns anos atrás. Mas a reação das artistas e do público foi desmistificar: não é nada, muitos se fotografam no espelho e hoje é fácil enviar. Só isso. É importante parar de agir na defensiva, ser corajoso e aberto sobre isso. Porque há uma espécie de lei psicológica que diz que o que está escondido tem poder. Se você traz à luz, o poder se esvai. Por isso, as mulheres também devem pedir fotos aos homens. Se o homem se esconde, a mulher é o objeto mais uma vez. Eles têm de participar. Do contrário, são covardes tentando manter seu poder em segredo, ou seja, sua nudez.

No carnaval em São Paulo, uma mulher foi agredida por ficar pelada. Por que a nudez choca mesmo em um ambiente libertário como esse?

Faz lembrar o caso de Justin Timberlake e Janet Jackson no Super Bowl de 2004. Ele puxou o vestido dela enquanto cantava e revelou um mamilo. Foi menos de um segundo, mas rendeu multa de US$ 550.000 à emissora. As pessoas ficaram chocadas. Enquanto isso, no mesmo ano e país, exibia-se o show Penis Puppeteers (marionetes de pênis), em que os homens fazem coisas engraçadas com seus pênis num musical. Por um lado, tudo bem balançar o pênis num show de uma hora. Mas, se mostrar um mamilo por um segundo, o choque é tremendo. Acontece o mesmo com o tapa-sexo no carnaval. É tão pequeno, quase não se vê. Mas está ali e acalma as pessoas. Tem a ver com a expectativa criada. O que as pessoas esperam no carnaval é a pouca roupa. Mas não a nenhuma roupa. Quando esse equilíbrio muda, as pessoas se perturbam, podem ficar violentas. É um moralismo. E jogar a mulher no chão é um exemplo péssimo, que tem pano de fundo complexo. Mesmo que a agressão tenha sido porque a escola perdeu pontos. As duas coisas, a violência e até o regulamento, se relacionam com repressão sexual. Já que as pessoas projetam seus medos no outro, no fundo, se você está confortável com sua pele e sua sexualidade, ver outra pessoa pelada não vai incomodar. Do contrário, age como um gatilho para seu próprio desconforto. Num espetáculo midiático, vai deixar muita gente desconfortável. Por isso, é proibido, mesmo com essa dose de hipocrisia. É parecido com o que acontece quando alguém se queixa da mãe que amamenta em público. Essencialmente, quem reclama disso só demonstra sua própria fraqueza.

O senhor também analisa a nudez como protesto político. Por que é tão eficaz?

Ao expor seus corpos nus, os manifestantes se mostram como seres humanos destemidos, sem nada a esconder, e assim se afirmam e afirmam seu ponto de vista. Basta ver as mulheres do Femen, agressivas, poderosas. Mas, ao mesmo tempo, parecem completamente vulneráveis, sem proteção. É uma mensagem complexa. Essa mistura de poder e fragilidade é poderosa porque remete à raiz da experiência de ser humano. Na vida, alternamos experiências de poder e de fragilidade. Encarar outro ser humano como ele é, frente a frente, não é um contato fácil, desperta medos para os quais podemos não estar preparados. O manifestante nu representa cruamente os dois extremos do território habitado pelo ser humano. É forte e é vulnerável. Muitos não aguentam encarar isso. Por outro lado, se a nudez pode ser tão eficaz para afirmar uma causa, ela serve para fragilizar e humilhar. Em sessões de tortura, a pessoa é quase sempre despida. E vai enfrentar a absoluta humilhação. Se é sua escolha ficar pelado, você tem poder. Se é imposto, o fragiliza. Tem a ver com autonomia e com o contexto.

Houve uma discussão recente no Brasil, sobre se as mulheres devem receber para posar na Playboy. Como vê a relação entre dinheiro e nudez?

As revistas deveriam pagar sempre a quem posa nu, porque tratam a nudez como produto. E, é lógico, produtos têm preço. O objetivo da revista ao mostrar a foto da mulher nua é comercial, e não divulgar uma ideia, ou mostrar uma pessoa como realmente é, como veio ao mundo.

A tecnologia está banalizando o nu?

Não acredito nisso. Quando perguntam se a nudez perdeu impacto agora que está tão acessível, costumo rebater dizendo para essa pessoa tirar a roupa num lugar público. A vida dela vai mudar. A reação será enorme, todos notarão. Aí está: ainda é um ato radical. A nudez é uma coisa simples e trivial e estamos ainda mais expostos a ela. Mas a onda de impacto que cria continua sendo enorme.

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