21th Century Fox
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'Nunca antes uma invasão como essa foi realizada', diz historiador sobre o Dia D

Antony Beevor relança livro que conta a história do desembarque das tropas aliadas na Normandia

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2019 | 16h00

O relançamento, no Brasil, do livro O Dia D, do historiador britânico Antony Beevor, é uma oportunidade para voltar a este que é o mais eletrizante relato sobre a operação que libertou a França da ocupação nazista e acelerou o final da 2.ª Guerra Mundial. Usando sua experiência prévia como romancista, Beevor não se limita a retratar em detalhes o cenário político e militar em que a difícil decisão de desembarcar na Normandia, em 6 de junho de 1944, foi tomada. É claro que há imensa curiosidade em saber, por exemplo, como se comportaram os chefes militares ao saberem que a previsão meteorológica para a operação era a pior possível – e Beevor não decepciona, ao mostrar o sangue frio do general norte-americano Dwight Eisenhower, comandante supremo das forças Aliadas, antes de dar o sinal verde para a invasão. Mas o trunfo do livro é o recurso às vozes dos soldados, e isso é possível porque Beevor leu suas cartas e registros, além de documentos inéditos encontrados em arquivos no Reino Unido e na Alemanha, entre outros. Esse tesouro historiográfico coloca o leitor praticamente dentro do campo de batalha.

E que batalha. Na véspera do Dia D, como relata Beevor, o primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, mandou uma mensagem para o ditador soviético Josef Stalin, dizendo pressentir que a “dívida de sangue” que os Aliados ocidentais tinham para com o povo soviético – que aguentou a invasão nazista enquanto o front ocidental permanecia sob controle de Hitler – estava começando a ser paga. Em entrevista ao Estado, Beevor comenta a guerra de egos entre os comandantes militares das forças Aliadas naqueles momentos decisivos, explica o papel da propaganda para estimular os soldados a odiar os inimigos e fala da controvertida decisão do presidente americano, Franklin Roosevelt, de mandar bombardear áreas civis – parte de uma guerra tão marcada pelas atrocidades contra inocentes. 

Em seu livro, o senhor diz que, no Dia D, “quase todos, em todos os níveis, estavam fortemente conscientes de que estavam participando de um grande evento histórico”. Ao mesmo tempo, seu livro mostra que os soldados não viam a guerra como transcendental. Qual foi a motivação dos soldados que participaram do desembarque no Dia D? Terminar a guerra e ir para casa ou lutar pelo “mundo livre”?

O retorno dos Aliados à França e ao norte da Europa foi um acontecimento da maior importância e emoção. O tamanho das preparações foi completamente sem precedentes. Nunca antes na História uma invasão como essa foi realizada. Quando os soldados embarcaram e partiram para o Canal da Mancha, a visão de todos aqueles navios foi surpreendente. Os pilotos das milhares de aeronaves sobrecarregadas mal podiam acreditar em seus olhos. Mas, é claro, os sentimentos variavam enormemente, às vezes dentro do mesmo indivíduo. Havia aqueles que se inspiravam em tais visões e na ideia de libertar a Europa do domínio nazista, mas ao mesmo tempo também ansiavam que a guerra terminasse o mais rápido possível para que pudessem voltar para casa. Pesquisas britânicas, alemãs e americanas demonstraram uma notável semelhança. Dentro de um pelotão de cerca de 30 homens, um grupo consistia de combatentes reais, outro seria de homens que fariam tudo o que pudessem para evitar a batalha, e havia os que seguiriam o comando se as coisas corressem bem, mas tratariam de dar no pé se corressem mal. 

Em seu perfil psicológico dos soldados da Waffen-SS, fica claro que, na sua opinião, eles eram combatentes instigados pela propaganda nazista, que os ensinava a odiar o inimigo. Mas os Aliados também cometeram atrocidades, talvez motivadas por propaganda. Quanto a propaganda contribuiu para a ferocidade sem precedentes dessa guerra?

O gênio diabólico de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda do Terceiro Reich, foi reconhecer que o ódio, por si só, não é suficiente. Para alcançar o máximo de violência, você precisa combinar o ódio com o medo. As tropas mais agressivas na Normandia eram de fato as da Waffen-SS, cujos integrantes haviam sido informados de que somente se destruíssem os Aliados ali seriam capazes de salvar suas famílias e casas. Já os paraquedistas americanos também haviam sido treinados para um ataque de agressão, mas sem esse limite de medo característico da doutrinação alemã, e mataram prisioneiros alemães desde o momento do desembarque. A Waffen-SS, acostumada a matar prisioneiros na Frente Oriental, levou os canadenses, britânicos e americanos a realizar suas próprias represálias.

Seu livro mostra que a guerra de egos dentro do comando militar Aliado quase comprometeu a vitória do Dia D. Na sua opinião, qual comandante militar foi o mais importante para o sucesso da operação e qual, entre eles, causou mais problemas?

O general americano Dwight Eisenhower, o supremo comandante dos Aliados, tinha um trabalho difícil ao lidar com os egos de seus generais. O general britânico Bernard Montgomery era claramente o mais difícil e autocentrado. Ele nunca poderia admitir qualquer erro. O general americano George Patton também era egoísta e difícil de controlar, e até mesmo seu colega general Omar Bradley podia ser um tanto desajeitado, especialmente algum tempo depois, quando as coisas deram errado para os Aliados na contraofensiva alemã nas Ardenas (Bélgica), entre dezembro de 1944 e janeiro de 1945. 

O sr. diz que o presidente americano Franklin Roosevelt considerava o bombardeio em áreas civis uma “necessidade operacional”. Como essa visão foi recebida pelos outros líderes políticos?

O general Eisenhower e os planejadores da invasão sabiam que a maior vulnerabilidade para os Exércitos Aliados viria logo depois de desembarcarem, porque os alemães reforçariam suas tropas com divisões Panzer o mais rápido possível. Eles, portanto, propuseram o Plano de Transporte, um plano para isolar a área de invasão bombardeando as pontes ao longo do Loire ao sul e ao longo do Sena a leste, mas também destruindo cidades e vilarejos franceses que levavam às praias do interior. Os americanos chamaram essa tática de bombardeio de bloquear rotas com os escombros das casas “colocando a cidade na rua”. O primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, ficou horrorizado e implorou a Roosevelt que concordasse com o limite de 10 mil mortes de civis franceses, mas ele se recusou e insistiu que Eisenhower deveria ter permissão para decidir. Naquele evento, cerca de 15 mil civis franceses foram mortos na fase preparatória e outros 20 mil durante os combates na Normandia, de 6 de junho a meados de agosto. Mais de 100 mil ficaram feridos ou incapacitados.

Era possível evitar tais bombardeios?

Em alguns lugares, especialmente em Caen, o bombardeio da cidade não era apenas evitável, era até contraproducente, porque atrasava o avanço dos Aliados sem prejudicar os alemães. Em outros, a destruição certamente desacelerou os reforços e suprimentos alemães. Mas toda essa questão traz um paradoxo importante. Os Exércitos de países democráticos provavelmente matarão mais civis em ataques desse tipo simplesmente porque seus comandantes estão sob tanta pressão da imprensa e do Parlamento em seus países para reduzir as baixas de seus próprios soldados que acabam recorrendo ao uso excessivo de bombardeios.

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