O alcance limitado dos rugidos

Segundo analista Parag Khanna, a Rússia tem influência regional, mas suas ações não reverberam mais no mundo

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2008 | 23h17

Mesmo com sua agressividade, ainda que domine a Geórgia e deponha seu presidente, a Rússia do primeiro-ministro Vladimir Putin não se tornará uma potência mundial. Por definição, superpotências influem em todo o mundo. Se a China muda sua política comercial, os EUA invadem um país do Oriente Médio ou a União Européia transforma sua base energética, as repercussões políticas e econômicas atravessam todo o globo. A Rússia não tem mais esse poder. A invasão da Geórgia não afeta a África, não abate a Austrália, nem sequer é sentida no Brasil.A avaliação é do indiano Parag Khanna, pesquisador da New American Foundation e autor de The Second World (O Segundo Mundo), que saiu no início do ano nos EUA. Aos 31 anos, Khanna já se destaca como um dos principais analistas de geopolítica do mundo. Trabalhou no prestigioso Instituto Brookins e no tradicional Council of Foreign Relations, de Nova York. Foi o principal consultor de geopolítica estratégica das Forças Armadas dos EUA em 2007, quando o Iraque começou a ser estabilizado. Fala inglês sem sotaque e seu hindi nativo, além de alemão, francês, espanhol e algum árabe. Sua compreensão do mundo não vem dos livros ou simpósios: estudou em campo, viajando por mais de cem países para compreender a relação entre eles.Para Khanna, a Rússia põe em prática um plano antigo. Antes, não tinha condições de reafirmar seu controle sobre a área da antiga União Soviética. Agora tem. O país não se opõe aos que gravitam em sua esfera de influência de entrar na União Européia. Com a Organização do Tratado do Atlântico Norte, é diferente. A Otan é vista como uma aliança dos países anti-Rússia. Eles que não ousem, sugere Putin com sua ação contra a Geórgia. O que a Rússia quer?A Rússia quer controle sobre o Cáucaso, a Ásia Central e os Bálcãs. Quer isso faz 15 anos. No período após a dissolução da União Soviética, os russos não tiveram condições de exercer esse controle. Em alguns momentos, faltou vontade política. Em outros, poderio militar. Não tiveram também condições diplomáticas, pois faltou pretexto para que pudessem ameaçar depor o presidente de um país vizinho conforme sua vontade. Após a invasão do Iraque pelos EUA, isso foi facilitado. O que mudou é que, após 15 anos, agora isso é possível. Putin tem vontade política e poder militar. Os russos querem impor sua autoridade sobre aquilo que chamam de exterior próximo, os antigos Estados soviéticos.A intenção russa é controlar o oleoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan, que vai do Azerbaijão à Turquia para fornecer petróleo à Europa? Essa é uma ?guerra do oleoduto??Não acho que o objetivo russo seja o controle do fluxo de petróleo para a Europa. A Europa já depende da Rússia para obter sua energia. Os russos querem influência territorial. É uma guerra política, cujo objetivo é deixar claro na região e no mundo quem manda ali.A Rússia deve se movimentar agressivamente contra algum outro país vizinho?A Rússia costuma ter boas relações com os vizinhos desde que eles não pareçam estar totalmente dedicados a uma aliança anti-Rússia com o Ocidente. Veja o exemplo da Ucrânia. Houve tensões, a Rússia aumentou o preço do gás que exporta para o país, deu apoio financeiro a partidos políticos ucranianos de oposição, mas, mesmo assim, tem permitido que a Ucrânia se mova lentamente em direção à Europa do ponto de vista econômico. A própria Rússia está já se acomodando com a Europa sem sentir-se inferior.Mas e se a aproximação for maior? Geórgia e Ucrânia desejam fazer parte da União Européia. Isso não provocaria uma reação agressiva?Fazer parte da União Européia não é algo que provoque hostilidade por parte da Rússia. O que a incomoda é participação na Otan. Os Europeus vêm insistindo num padrão em que os países se juntam primeiro à Otan e, depois, à UE. Isso deve mudar. Os europeus terão de acomodar as antigas repúblicas soviéticas em sua união por causa da sensação de incômodo que a Otan provoca em Moscou. Ainda assim, para a Ucrânia ainda é um projeto de futuro longínquo.Com a invasão da Geórgia, as coisas mudam para a Ucrânia?A Ucrânia tem o próprio caminho. A Geórgia vem dizendo há anos que se vê parecida com a Ucrânia. Como os ucranianos, os georgianos se dizem ocidentais e cristãos pertencentes à Europa. Mas isso não é completamente verdade. A Ucrânia está bem mais avançada em sua perspectiva de se juntar ou à União Européia, ou à Otan, ou a ambas. Para a Geórgia, a situação ficou bastante difícil. Os russos dizem que querem levar paz à região, perturbada por conflitos em duas regiões da Geórgia. Como é o que dizem, talvez permitam tropas de paz da ONU. Seria a melhor esperança para a Geórgia. Mas seu projeto europeu está ainda mais longe do que o ucraniano.O avanço russo sobre a Geórgia traz sua área de influência para bem perto do Irã. Isso dificulta um projeto de invasão do Irã?A Rússia já deixa claras suas preocupações com o Irã há bastante tempo. Se houver uma intervenção militar no Irã por parte dos EUA, não será acompanhada por tropas de ocupação, como aconteceu no Iraque. Os russos não iam gostar.Toda essa movimentação faz da Rússia uma superpotência?Não. Uma superpotência exerce influência global. O que estamos testemunhando é uma briga regional. Se a Rússia muda sua política comercial, por exemplo, o Brasil não é afetado. A Rússia não tem nenhuma influência sobre a África ou sobre a Austrália. Para ser uma superpotência, sua influência tem de ser global. Hoje, temos três superpotências: Estados Unidos, China e União Européia. A Rússia é uma potência regional. Talvez seja a mais importante potência regional. Mas não é global.Se as superpotências são EUA, União Européia e China, qual tem maior influência sobre a Rússia?O maior esforço está sendo feito pela UE. Nicolas Sarkozy está se movimentando e a Itália promete enviar forças de paz para a Geórgia. Os EUA parecem não estar dispostos a fazer mais do que enviar a secretária de Estado, Condoleezza Rice, para ajudar nos esforços europeus.Analistas sugerem que as instituições globais como o Conselho de Segurança da ONU, a OTAN, o Banco Mundial e o FMI perderam sua capacidade de resolver problemas no mundo atual. O senhor concorda?Essas são criações do século 20, não do atual. Não é que elas tenham perdido a capacidade de gerenciar a economia global com suas corporações multinacionais e mercados de capital que se movem instantaneamente, ou um mundo de grupos terroristas e guerras cibernéticas. O fato é que elas jamais tiveram poder sobre essas questões.Temos grandes blocos de nações como a União Européia, mas temos também regiões que buscam a independência na forma de Estados nacionais, à moda dos séculos 18 e 19. Temos até países como a Rússia, que parecem ter desejos imperialistas. Que mundo é esse?Temos grandes impérios em extensão territorial ou influência política, casos da União Européia e da China, temos grandes corporações transnacionais como empresas do petróleo que se esticam por todo globo e quase-Estados como o Curdistão ou o Kosovo. Nossa geopolítica é parecida com o imperialismo do século 19, mas há participação de atores que não são Estados. Nosso mundo atual tem um quê de Idade Média.Dizem que Vladimir Putin pode virar um novo Stalin. Exagero?Uma das cidades que Putin bombardeou na Geórgia foi justamente Gori, cidade natal de Stalin. Deve haver algo de simbólico aí. Mas ele é um nacionalista, não um stalinista.

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