O ano que (ainda) não terminou

Com mais duas mortes de negros pela polícia, e a retaliação contra policiais brancos, a tensão racial nos Estados Unidos atingiu picos que não se viam desde 1968, ano do assassinato de Martin Luther King

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

16 Julho 2016 | 16h00

As mortes inexplicáveis de mais dois negros norte-americanos abordados por policiais, em Baton Rouge e Saint Paul, na primeira semana de julho, foi repetição de uma rotina que não parecia ter fim à vista. Mas a execução fria de cinco policiais em Dallas, durante um protesto pacífico contra as duas mortes, espalhou uma onda de alarme racial como não se via desde 1968, ano do assassinato de Martin Luther King e do candidato a presidente Robert Kennedy.

O fato de que o atirador Micah Johnson, um veterano do Afeganistão com problemas mentais, não tinha conexão com movimentos de direitos civis como Black Lives Matter (Vidas dos Negros São Importantes) passou batido na cacofonia populista amplificada em debates da TV a cabo.

Mas é possível que haja uma mudança em curso. O contraponto à ressurreição de incendiários como Rudolph Giuliani, o ex-prefeito de Nova York hoje transformado em caricatura racista, foi simbolizado pelo austero e sofrido chefe de polícia de Dallas, o afro-americano David Brown, um homem admirado por reformas bem sucedidas especialmente na relação de seu departamento com minorias. O filho de Brown matou um policial e outro homem foi morto em confronto com a polícia. Seu irmão foi assassinado por traficantes.

 

Mais uma vez, o presidente Barack Obama se colocou no papel que os norte-americanos chamam de Chefe Consolador (uma referência ao fato de que quem ocupa a presidência é chefe das Forças Armadas). A oratória de Obama não deixa nada a dever à de antecessores como John Kennedy, mas o fato de ser o primeiro presidente negro da história é um fardo e uma exigência simbólica.

Num discurso extraordinariamente pessoal em Dallas, na terça-feira, durante o serviço fúnebre para os policiais mortos, Obama tentou encontrar equilíbrio entre a falsa oposição dos que, como Donald Trump, acham que compreender a indignação de grupos como o Black Lives Matter é virar a cara para mais de 700 mil policiais no país. Obama argumenta que o país não está tão dividido quanto sugerem os preguiçosos talk shows e o extremismo da rede social.

Na última semana, pipocaram na mídia manifestações espontâneas pelo diálogo, como minorias relatando sua interação com a polícia e policiais brancos mostrando como fazem patrulha comunitária. Obama se reuniu, na quarta, com comandantes de polícias de todo o país. Hillary Clinton propõe reformas para combater o sistema de encarceramento em massa e o chamado “racial profiling”, as ações policiais concentradas em minorias.

O Centro pelos Direitos Constitucionais, com sede em Nova York, se dedica a prestar assistência em casos de violações de direitos garantidos pela Constituição dos Estados Unidos. O Centro esteve em evidência, nos últimos anos, por duas ações que moveu em Nova York. Na primeira, obteve uma vitória contra a prática de “stop and frisk” (parar e revistar) que explodiu nos anos de Mike Bloomberg e penalizava desproporcionalmente minorias, aumentando as chances de desfecho violento.

No primeiro semestre deste ano, lembra o prefeito Bill de Blasio, 8 mil nova-iorquinos foram parados, em comparação à alta de quase 700 mil em 2011. E o crime continua a cair na cidade. A segunda ação judicial, ainda em curso, é sobre a vigilância e escuta de muçulmanos na cidade, implementada nos anos Bloomberg, após o 11 de Setembro. O Aliás conversou com o diretor do Centro, Vincent Warren.

Mais uma vez, Obama se dirigiu ao país num momento de tensão racial. O que achou do discurso?

Eu me senti encorajado pelo que ele disse. Ele falou verdades da vida dos afro-americanos que todos nós conhecemos e nem sempre são destacadas. Um presidente tem o poder de dar o tom do diálogo. Um ponto importante foi ele colocar em perspectiva o fato de que o protesto, a dissidência, fazem parte da nossa tradição histórica. Por outro lado, sabemos que a posição dele é delicada porque há esta demagogia sobre tomar partido: ou você está do lado da ideia do movimento Black Lives Matter ou você está do lado da polícia. 

Mas este não é o primeiro discurso de Obama sobre a ferida racial. Há quem diga que houve ingenuidade na expectativa criada com a eleição de Obama.

Acho que, cada vez que ele fala, move o diálogo. Mas nenhum discurso apaga o pecado original do racismo. Obama não veio para salvar o país de si mesmo. A questão é se ele teve e tem o poder de avançar a discussão sobre como o país trata uma parte de sua população. Vejo similaridades com o tenso ano de 1968 em dois aspectos: há mais jovens nas ruas protestando. E há uma clara resistência branca e conservadora contra essas manifestações. Estamos revivendo um tipo de retórica extremista de direita, caracterizando quem protesta de criminoso ou terrorista. Em 1968, tínhamos as mangueiras de água contra os manifestantes. Hoje, temos bombas de gás lacrimogêneo.

Alguns políticos e chefes de polícia começaram a acusar o Black Lives Matter de incitar violência contra a polícia. Mas as estatísticas mostram que o número de policiais mortos intencionalmente vem caindo desde o governo Reagan, nos anos 1980.

É uma falácia. Há declínio comprovado de crimes e de violência contra policiais nos Estados Unidos, nos últimos 30 anos. Mas a estratégia é ignorar fatos, destacar percepções e criar políticas a partir delas.

Como o centro que dirige presta assistência ao movimento Black Lives Matter?

Nós damos consultoria legal, deslocando advogados para áreas em que manifestantes são alvo de ações arbitrárias. Depois que a polícia matou Alton Sterling, em Baton Rouge, Louisiana, na semana passada, houve várias violações. Uma pessoa ofereceu abrigo para manifestantes em sua casa e a polícia entrou sem mandado de busca. Damos assessoria para comunidades sobre soluções práticas para policiamento. Nosso trabalho é mais importante fora de Nova York. Essa cidade tem uma infraestrutura de justiça social. Mas, quanto menor a cidade, e mais longe de um centro, maiores as chances de violações porque a polícia é menos treinada. Por isso, o que aconteceu em Ferguson, quando Michael Brown foi morto pela polícia em agosto de 2014, dificilmente teria acontecido em Saint Louis, a cidade maior, perto dali. É o mesmo caso da morte de Philando Castile, o motorista (morto por um policial em seu carro, e cuja namorada filmou os momentos seguintes aos tiros e publicou ao vivo no Facebook). Ele estava num subúrbio de Saint Paul, Minnesota.

No caso de Philando Castile, repetiu-se o argumento de que o policial parecia apavorado.

É um argumento racista a ideia de que, se um policial vai parar alguém por um motivo rotineiro, como farol quebrado, ele deve se assustar porque o motorista é negro. A força policial tem que ser treinada. Os policiais tomam decisões com base num julgamento subjetivo. Quantos vídeos já assistimos em que a vítima está desarmada, não oferece resistência, não há motivo para uso de força letal? Se o policial acha que todo negro é potencialmente criminoso, qualquer interação pode se tornar uma tragédia.

O que acha do argumento do chefe da polícia de Dallas, David Brown, sobre o fato de que o país espera demais dos policiais? Agem como assistentes sociais, psiquiatras, moderadores nas comunidades?

 Concordo com ele. A partir dos anos 1970, houve esta narrativa de heroísmo do trabalho policial. Mas o fato é que houve também a negligência com áreas urbanas, com a assistência de saúde mental, falta de investimento em moradia, em emprego geograficamente acessível, e espera-se do policial basicamente um trabalho de contenção, de controle social. O que se descreve como decadência urbana, nos anos 1970, quando aumentou a fuga dos brancos para o subúrbio, não pode ser dissociado de racismo.

O ataque a policiais de Dallas, por um atirador veterano do Afeganistão, chocou o país. Uma primeira reação entre ativistas de direitos civis foi dizer que o Black Lives Matter está condenado.

Não concordo com isso. O Black Lives Matter não depende dos sentimentos da comunidade policial, ou de políticos. A maioria dos norte-americanos sabe que o movimento não tem absolutamente nada a ver com atacar policiais. As comunidades afro-americanas estão mobilizadas em torno da necessidade de se sentir seguras, não de hostilizar. Veja, por exemplo, quantos pais levam seus filhos, crianças, para os protestos. Você acha que eles querem arriscar a vida dos filhos? Eles têm plena consciência da presença de elementos criminosos em certas comunidades. O que aconteceu em Dallas está diretamente ligado à facilidade ao acesso a armas de fogo nos EUA e à questão da saúde mental.

Um acadêmico afro-americano, John McWorther, associado ao centrismo conservador, disse que o medo da violência e da arbitrariedade policial é o grande albatroz nas costas dos afro-americanos. Se isso fosse resolvido, ele acredita, a experiência do racismo seria atenuada, mais semelhante à vivida por outras minorias.

É um grande problema, sim, mas não é o problema maior. O que nós temos que enfrentar é a natureza da visão da comunidade afro-americana pela polícia. Se você suspeita que uma comunidade inteira tem tendências criminosas, vamos colocar de lado os negros. Se há um bairro latino, estão abrigando imigrantes sem documentos que devem ser deportados. Se há um bairro muçulmano, abrigam terroristas. Isso se chama “racial profiling”, compor o perfil coletivo com base em raça. É um enquadramento retórico que não pode dirigir o trabalho da polícia. Então, apenas uma reforma em tática policial não resolve a questão mais ampla do preconceito.

É justo dizer que, por causa da herança da segregação legalizada e de seu reflexo sobre políticas de acesso à moradia, a comunidade afro-americana, mais do que outras minorias, é especialmente punida pelo isolamento que resulta no confronto com a polícia?

Sim. Bairros de minorias de imigrantes tendem a se formar em torno de laços de língua, cultura e família. Mas os bairros dos afro-americanos não foram necessariamente uma escolha. Foram resultado de práticas como a recusa de empréstimos bancários e diversos serviços para vizinhanças de pessoas de cor. Ainda que a discriminação seja ilegal, persiste a noção de que se uma família negra se muda para uma vizinhança branca, vai atrair outras e os preços dos imóveis vão cair. Tivemos casos como supermercados digitais que foram denunciados por não fazer entregas em vizinhanças negras. E sabemos que em serviços como o AirBnb, e até em entregas da Amazon, houve obstáculos para essas vizinhanças. A economia é nova, mas persistem os velhos problemas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.