O anti-Dunga

A verdade é que Lula amarelou. Tivesse sustentado às vésperas da pelada com a Bolívia as críticas que fez à seleção antes da boa partida contra o Chile, Sua Excelência quebraria seu recorde de popularidade não uma, mas duas vezes esta semana. Nunca na história deste país um presidente foi tão claro na exposição da perplexidade de todo torcedor: por que diabos esses caras perdem inteiramente a vontade de jogar futebol quando reunidos no escrete canarinho? Que indolência é aquela, caramba? Mesmo quem não entende como pode alguém neste mundo achar que o Lula esteja certo em qualquer circunstância, dessa vez foi obrigado a concordar com o presidente. Até quem não gosta de futebol aplaudiu.Como toda unanimidade é burra, Dunga sentiu-se à vontade para dizer aos jogadores que o Palácio do Planalto estava visivelmente duvidando da masculinidade de cobra. Pra quê? O goleiro Júlio César chegou a mandar Lula praquele lugar, a Argentina. Sabe Deus que tipo de psicologia o técnico usou para fustigar a honra de Ronaldinho Gaúcho & cia. na famosa preleção de Santiago. Corre na internet a versão de que teria, entre outras coisas não menos leves, revelado detalhes sobre observações de Lula acerca do tamanho avantajado do "oritimbó" do camisa 10 da Seleção.Deu no que deu: o Brasil entrou em campo contra o Chile para derrotar o Lula. A tática decidida no vestiário era dar um cala-boca no presidente e nos 180 milhões de brasileiros que já não agüentam mais tanta mediocridade representando o que há de melhor no futebol do País. Resultado: há muito tempo não se via motivação igual uniformizada de amarelo, com direito a espetáculo, gols e muita vontade de vencer. Tudo de bom! Saíram de campo com 3 a 0 no placar e, no rosto, aquela expressão de "estão satisfeitos agora, estão?" - era o que saltava a toda hora nas entrelinhas da testa de Dunga na coletiva que se seguiu.Foi aí que Lula meteu o galho dentro, elogiou o espírito de luta dos jogadores, defendeu a permanência do técnico, contemporizou o chute no traseiro que tomou de Júlio César... Não teve coragem de prever - quem poderia imaginar? - que na volta ao Brasil o dream team de Dunga ia engrossar o caldo contra a fraquíssima Bolívia. E não é que na quarta-feira, num Engenhão cuja baixa freqüência de torcedores pressentia algo estranho, lá estavam eles de novo em campo sem vontade, inspiração, sentido de organização, talento ou vergonha, nada. Na falta de um Lula que pudesse derrotar inapelavelmente na bola, a seleção ficou de novo sem adversário à altura para enfrentar. Não é de hoje - justiça seja feita à era Dunga - que o futebol pentacampeão do mundo não acha a menor graça em disputar amistosos, Eliminatórias e, mesmo em Copas do Mundo, quase toda vitória parece déjà vu. Que graça tem ganhar de novo da Bolívia? Foi assim, irritante, com Zagallo, Felipão, Vanderlei Luxemburgo, Parreira... O que esses dois últimos jogos oficiais trouxeram de novo para se tentar entender o tédio e a empáfia de todos os que vestem a camisa amarela foi esta possibilidade de reverter o processo de depressão criando um inimigo imaginário para estimular a rapaziada a provar alguma coisa a alguém.Lula foi o anti-Dunga da vez, mas outros brasileiros notórios com delegação popular para meter o nariz onde não são chamados poderão ajudar a combater esta espécie de Complexo de Puro-Sangue, o avesso do que Nelson Rodrigues identificou como um sentimento de vira-latas. Oscar Niemeyer, por exemplo, poderia ser convocado para provocar as feras do Ricardo Teixeira às vésperas do jogo contra a Colômbia daqui a um mês, no Maracanã. Bastaria dizer algo assim como "esses rapazes não são de nada, só pensam em dinheiro, vai ver nem em casa dão no couro". Dá até para imaginar o Júlio César mandando o arquiteto ir morar em Cuba. E Dunga, no embalo de nova preleção, contando pro Ronaldinho que Niemeyer andou comparando seu "oritimbó" de gaúcho ao traçado das cúpulas do Congresso. "Te chamou de bundão, Che!" Pobre Colômbia, pagaria o pato em campo.Parece maluquice, mas a chamada Psicologia de Bagé é uma luz no fim do túnel sobrenatural que a seleção vem atravessando. Porque, cá pra nós, nada - nem a cabeça dura do técnico nem o miolo mole dos jogadores - explica o futebol de quinta categoria que empatou com a Bolívia sem gols na quarta-feira. Se a seleção vinha de uma grande vitória, jogando diante de sua torcida com um time ofensivo, contra um adversário com a cabeça na convulsão social em seu país, francamente, por que diabos deu tudo errado? Tem gente que defende a tese da caveira de burro que estaria enterrada na nova sede da CBF, mas é melhor não levantar esta lebre. Dunga pode achar desrespeitoso com algum parente dele sepultado no local. Tempos sombriosTem gente nos EUA crente que Bolívia é nome de furacão sul-americano. Não confundir com Paraguai, que, imagina-se por lá, seria só uma tempestade tropical. Cá pra nós, faz sentido.

Tutty Vasques, O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2008 | 21h34

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