O apagão anunciado de professores

Faltam docentes na rede pública. E o cenário não é dos mais atraentes para quem chega

Mônica Manir, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2007 | 17h18

Lisete Arelaro é do tempo em que professor trabalhava 18 horas semanais na rede pública, levava a pós-graduação no paralelo, pedia a companhia do aluno para sair da escola, ia ao cinema e ao teatro e tinha um fusquinha último tipo. Mas também é da época das vacas magérrimas, com o educador ganhando miséria de reais, acuado em salas protegidas por grades de ferro, pedindo licença médica a torto e a direito e assinando ponto em duas ou mais escolas. Ou em nenhuma. Nesta semana, dados do relatório ''''Escassez de Professores no Ensino Médio: Soluções Estruturais e Emergenciais'''', elaborado por membros do Conselho Nacional de Educação, revelaram que as escolas públicas brasileiras sofrem um déficit de 246 mil docentes no ensino médio. Faltam, principalmente, docentes graduados em Física, Química e Matemática.Um apagão inusitado de professores? ''''É cínico dizer que essa situação é surpreendente'''', afirma Lisete, para quem a questão já caducava de madura havia pelo menos dez anos, desde que passou a prevalecer a lógica de um corte radical de gordura no funcionalismo público. Chefe do departamento de Administração Escolar e Economia da Educação, na Faculdade de Educação da USP, ela soma a essa lipoaspiração de vagas outros fatores como formação deficiente, jornadas astronômicas, excesso de tarefas burocráticas, salários defasados e ausência da comunidade na escola para explicar a situação capenga do professorado no País. Diante de outra triste notícia na área - os milhões desviados por certas ONGs que se comprometeram com alfabetização de adultos e jovens -, aponta o olhar crítico para as políticas públicas. ''''É o Estado novamente repassando o problema, em vez de abraçá-lo como deve ser.'''' A seguir, ela esboça pontos da areia movediça em que se vêem os professores no Brasil.CORTE NA DIAGONAL''''Nos últimos anos, vigora a concepção neoliberal de que é necessário reduzir gastos a qualquer custo. Baseado no diagnóstico em parte real de que há gordura no serviço público, radicaliza-se. Vai-se tirando as pessoas do sistema até chegar ao caos. Além disso, ao falar de educação básica, somos a maioria mulheres. Somos nós que engravidamos e temos direito à licença-maternidade. Somos nós que normalmente cuidamos dos filhos, da mãe, do pai quando adoecem. Somos nós que estamos ficando doentes. Portanto, seria de bom senso que houvesse outro profissional que correspondesse ao professor-adjunto na rede municipal. Nos dados de que dispomos sobre a prefeitura de São Paulo, para mencionar uma prefeitura rica, não há mais professor-adjunto livre. Todos estão com classe.AFLIÇÃO DOS MUNICÍPIOS''''Houve um processo intenso de municipalização do ensino fundamental no Brasil. O que a Lei de Responsabilidade Fiscal coloca para os municípios? Que não podem ultrapassar 60% da folha com pessoal. Mas ainda existem 66 milhões de brasileiros sem ensino fundamental completo. Em muitos municípios de porte médio, vemos a aflição de prefeitos e secretários de Educação ao ouvir do secretário de Finanças que não dá para gastar mais porque o Tribunal de Contas vai pegar no pé. Temos que mexer um pouco aí. Tanto a saúde quanto a educação são áreas sociais claramente deficitárias, cuja privatização não resolve, porque os pobres não são lembrados por ela. É hora de reavaliar a Lei de Responsabilidade Fiscal e priorizar a educação nos próximos anos. Não no discurso. No discurso faz 50 anos que é prioritária.ADEUS, ESTABILIDADE''''Um dos atrativos para ser funcionário público era a estabilidade. Ele dificilmente seria mandado embora. Em segundo lugar, o funcionário se aposentava com salário integral. Pequeno, mas integral. Isso não existe mais. A emenda constitucional de 1998 mudou isso. Depois veio a primeira reforma do governo Lula, que mexeu na aposentadoria. Isso talvez explique a média de idade alta do professorado no País: 37,8 anos. Historicamente, nessa faixa etária, ele estaria próximo da aposentadoria. O desejo de segurança terminou, até porque é moda dizer que, quanto mais instável você for, mais produz. É uma teoria maluca, que vai nos deixar todos enlouquecidos. Só serve para criar a competição entre as pessoas, não a solidariedade.PISO DE R$ 850,00''''Todo dia tem pesquisa dizendo o seguinte: 1. os professores são mal formados; 2. não sabem nada; 3. não adianta dar curso; 4. não mudam a forma de trabalhar. Nessa situação, mesmo o mais jovem não vai querer melhorar o Brasil. Para coroar tudo isso, há o desestímulo financeiro. Aumenta de ponta a ponta no País o número de alunos em sala de aula, mas se mantém o mesmo professor precário, com o salário congelado. Veja a discussão sobre o piso. Se é para falar em R$ 850,00 para 40 horas de trabalho, como em princípio está previsto no projeto de lei que o governo se comprometeu a mandar em agosto para o Congresso, dá desânimo. É possível ganhar mais fazendo qualquer outra coisa. E somos profissionais que precisam do trabalho oculto, ou seja, é necessário preparar a aula, corrigir trabalho. Isso não está previsto no número de aulas.60 HORAS SEMANAIS''''A cada dia, segmentos mais pobres da população ingressam no mercado de trabalho na condição de professor. Cerca de 49,5% dos professores têm pais com ensino fundamental incompleto. Desses, 15,2% têm pais sem nenhuma instrução. Quando ingressei no magistério, em 1968, éramos majoritariamente representantes da classe média e nosso salário era significativamente maior. Fora isso, 32,5% contribuem com 80% ou mais da renda familiar. Ou seja, ganhando o que ganham, as mulheres são cabeça de família. Assim sendo, não podem trabalhar num só lugar e sob regime de 4 horas, mas chegam a 60 horas semanais para ganhar R$ 2.500, R$ 3.000. Não é uma situação tranqüila.FORMAÇÃO LIGEIRA''''Hoje temos empresas formando professores. Empresas seguem a lógica do lucro. Portanto, existe um aligeiramento e uma desqualificação teórica e prática da formação. Ela foi reduzida de quatro para três anos, depois de três para dois. É comum que o aluno já venha dando aula, pois o professor normalista de ensino médio existe no Brasil. Então, quando ele vai para o ensino superior, sua prática, que deveria ser fruto de debates e discussões, vira um privilégio para fazer o curso com maior rapidez. Uma coisa é ser dispensado e completar um estágio docente. Outra é dispensá-lo não de 300, mas de 1.200 horas, como diplomação imediata. Isso não significa que ele, necessariamente, será um mau professor se não fez um bom curso superior. Mas daí para frente o Estado vai ter que investir para compensar suas deficiências.LEU ALGUM LIVRO?''''Costumo perguntar a esses professores sobre os livros inteiros que leram durante o curso. Antes, perguntava quantos foram. Hoje, para ser mais pragmática, pergunto qual. E, muitas vezes, não tenho resposta. Por quê? Porque ele leu uma apostila. Quando pergunto em que baseia sua convicção pedagógica, ele se diz socioconstrutivista. Em educação, dizer-se socioconstrutivista é o mesmo que se dizer brasileiro. Se não afirmar isso, vão dizer que está superado. Ser socioconstrutivista implicaria ler Vygotsky, Wallon, Paulo Freire, novas leituras sobre Piaget. O que leram? Resumos em apostilas. Os professores vêm perdendo a condição principal do exercício docente que é autonomia intelectual para poder escolher, entre as alternativas, aquela que seja a melhor para os alunos.FÍSICA PARA POUCOS''''Os professores de Física são poucos porque, em primeiro lugar, esse é um dos cursos superiores com maior taxa de evasão. Exige alto investimento pessoal e intelectual. Os que, enfim, se formam não querem ser professores. Querem ser pesquisadores. Uma bolsa de mestrado corresponde ao mesmo salário que ganharia como professor. Ele se especializa e, obviamente, tem mercado como físico. As empresas privadas também não fecham essa lacuna porque apostam que um professor de Ciências possa se aprofundar em Física nesses cursos aligeirados. Não vão investir a curto ou médio prazo em formar, de fato, professores de Física, Química ou mesmo Biologia.ENSINO DISTANTE DEMAIS''''A não ser em casos excepcionais, acho um equívoco imaginar que o ensino a distância vai fazer com que todos tenham uma chance. É um discurso populista e demagógico. Uma coisa é estabelecer um chat com os alunos que me encontram. Outra é a grande palestra. Pode-se usar a tecnologia a favor do grupo, mas acho que as experiências feitas por aí confirmam que não há toda essa eficácia. Entendo que o tête-à-tête promove uma amorosidade nas relações. No ensino a distância, você tem um animador cultural, em geral um pedagogo, que discute todas as questões. Eu tive 11, 12 professores que pensavam diferentemente entre si e dessa divergência de opção teórica é que construí a minha, e não de um monitor.PROGRAMAS IDÊNTICOS''''Quando observo 200 escolas usando programas de ensino absolutamente idênticos, me apavoro. Não é possível um sistema em que o professor fale e o aluno responda da mesma maneira no Amapá, em Minas ou no Rio Grande do Sul. Esse caminhar em nome de uma suposta competência para uma formação básica comum dos brasileiros é blábláblá. Caminha-se, isso sim, para um currículo único dando um padrão de classe média disciplinado, obediente, dentro de uma lógica para o conjunto da população brasileira. É engano achar que isso significa qualidade de ensino e melhoria dos resultados no Saeb, Provinha Brasil, esse número infernal de provas. Infelizmente, falamos muito em multiculturalismo, mas no fundo há uma expectativa do professor de que seu grupo de alunos reaja da mesma maneira. Apesar de termos mais pobres dando aula, não quer dizer solidariedade àquele que também é pobre. Se o professor conseguiu chegar aonde chegou, acha que o outro é culpado por não ter o mesmo. Essa discussão me preocupa quando penso nas escolas de periferia. Não tenho dúvida: a violência vai pegar. Esse material pronto não tem a ver com os nossos alunos. Tenho medo disso.ATRÁS DAS GRADES''''Com essa jornada astronômica de trabalho, muitas vezes em escolas diferentes, e com tarefas cada vez mais burocráticas, os professores se distanciaram da comunidade. Não conhecem seus alunos, não criam laços de solidariedade com eles. Isso faz com que exista um tratamento ainda latente, mas que vem se firmando, de que a violência está premente em todos os lugares, que esses alunos com baixa estima são todos perigosos. Os professores estão assustados. Mas é verdade que também têm comportamentos distintos durante a jornada. De manhã, suportam com certo bom humor piadinhas às vezes pesadas. À tarde, se enfezam. À noite, o aluno nem manifestou seu pensamento e o professor o chama de delinqüente. Em algumas escolas públicas de ensino médio, o ambiente também não ajuda. Parecem cadeias de tanta grade. Não se distingue muito aquilo de uma Febem.''''EU PAGO VOCÊ''''''''O assédio moral é mais freqüente nas escolas privadas que atendem a segmentos da classe média alta. Certos alunos dizem: ''''Meu pai é quem te paga e você não pode falar comigo assim''''. Ou então, o que é mais cínico: ''''Eu te pago e você tem que responder como eu quero, eu defino se você continua ou não nessa escola''''. Temos visto isso em algumas escolas de forma surpreendente. Como o salário compensa, parte dos professores ouve isso sem reclamar. E eu arriscaria dizer que depois desconta na escola pública em que também trabalha. Já o pai pobre não entra na escola, a não ser conjunturalmente para uma festa junina, por exemplo. Primeiro porque nós, professores, achamos que quem sabe das coisas somos nós. Apostamos que, se os pais não participarem, melhor. O pai só vai à escola ouvir o quanto o filho dele é delinqüente, o quanto prejudica a aula. Mas ele não considera o filho tão terrível assim porque, muitas vezes, o garoto ajuda em casa. O pai tem de ser chamado para além do próprio filho, saber o que aquela escola tem a ver com o bairro dele, o que tem a aprender.PROFESSOR NÃO MENTE''''Nos últimos 20 anos, a profissão de professor se manteve como a mais confiável entre a população brasileira. A comunidade entende que professor não mente. Posso levar a tese mais esquisita possível para a sala de aula, mas é porque acredito nisso. Se mudar de opinião, peço desculpas pelo equívoco. Essa nossa legitimidade é um campo a nosso favor. Temos que reivindicar uma melhor formação, o trabalho tem de ser um pouco mais digno, mais estimulante. Não vou dizer que vai ser mágico, que alguém vá dobrar salário, mas tem que pensar em como se recupera a atração pela profissão exatamente pelo respeito que ela significa. E não tem jeito: nós, professores, vamos ter de fazer uma revisão sobre o que interessa à juventude hoje, o que quer dizer o conhecimento significativo. Eu acho que nem sempre estamos preparados para enfrentar isso. Nossa juventude não tem um sonho, uma utopia, acha que não terá emprego. Num país sem sonho, sem utopia, é muito difícil a escola sobreviver.''''

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