G. MEGUERDITCHIAN/CENTRE POMPIDOU
G. MEGUERDITCHIAN/CENTRE POMPIDOU

O arquiteto e o monstro

Três livros e um documentário lançados na França revelam a face totalitária do gênio Corbusier

Andrei Netto | Paris, O Estado de S. Paulo

06 Junho 2015 | 16h00

Há um traço errado na biografia de um dos mais influentes arquitetos do século 20 - e talvez da história. Às vésperas do aniversário de 50 anos da morte do mestre Le Corbusier, três livros publicados na França privilegiam seu lado monstruoso ao seu gênio singular. O homem que definiu a arquitetura moderna, lembram as biografias, era fascista, racista e antissemita. Mais que isso: sua obra era influenciada pela ideologia totalitária.

Essas afirmações foram feitas nos livros Le Corbusier, un Fascisme Français, de Xavier de Jarcy; Un Corbusier, de François Chaslin; e Le Corbusier - Une Froide Vision du Monde, de Marc Perelman, publicados ao longo do primeiro semestre na França, país que agora se divide entre o tributo e a reflexão pragmática sobre a vida e a obra do arquiteto.

Polêmicas envolvendo intelectuais ligados a ideologias, grupúsculos ou partidos extremistas não datam de hoje na Europa, claro. O caso de Martin Heidegger, filósofo alemão que aderiu em 1933 ao Revolução Conservadora, movimento simpático ao nazismo, e logo depois ao próprio Partido Nacional-Socialista (NSDAP), de Adolf Hitler, continua a ser referência no tema, ainda que o autor tenha em vida expressado todo o lamento pela afiliação definindo-a como “a maior idiotice” de sua vida. 

Na própria França os exemplos são pródigos, como o de Pierre de Coubertin, fundador do Comitê Olímpico Internacional (COI) e renovador dos Jogos Olímpicos em 1894, um historiador, pedagogo e poeta dito humanista, mas partidário de profundo colonialismo, racismo e misoginia. Também é conhecida a ligação entre arquitetos e líderes totalitários - o que o suíço, aliás, jamais teve, talvez por falta de oportunidade. O arquiteto de Adolf Hitler foi Albert Speer, assim como Marcello Piacentini o foi del duce Mussolini.

Le Corbusier participou entre os anos 1920 até o fim da 2ª Guerra Mundial, nos anos 1940, de uma série de publicações de extrema direita ultranacionalista que combatia a democracia e a “degeneração” racial da França e da Europa. Essas afiliações voluntárias de Le Corbusier com o fascismo e, mais tarde, com o Regime de Vichy não são novidade. O novo talvez seja a profundidade dessa ligação e, em certa medida, a interpretação de que seu traço, seu gênio arquitetônico tenha sido influenciado pelas convicções totalitárias. Aí está, para alguns de seus detratores, o problema mais sério.

Meio século após a sua morte - por afogamento, em 27 de agosto de 1965, aos 77 anos -, está claro que Le Corbusier era mais que um personagem ambíguo: um herói de uma arte maior, ao mesmo tempo que um homem desprezível por suas convicções. Como profissional e artista, foi múltiplo: arquiteto, urbanista, designer, pintor, escultor. Assinou, por exemplo, a autoria de mobiliários que se tornaram referência de estilo por gerações de desenhistas de alto prestígio. Por sua originalidade e influência, seus produtos - entre eles a Chaise longue e o Fauteuil à dossier basculant (ambos de 1928) - resumem a própria ideia do mobiliário moderno e podem ser encontrados em fábricas de renome internacional e em lojas de luxo. 

Em paralelo, Le Corbusier foi uma autoridade no urbanismo e na arquitetura moderna, então por ele definida em cinco características que se transformaram em paradigmas do estilo: o uso de pilotis, de terraços jardins, de plantas livres, de fachadas livres e de janelas em fita. Os cinco elementos deveriam ficar à serviço da “unidade de habitação”, conceito no qual ele trabalhava desde os anos 1920 e que tinha como princípio a ideia de que um apartamento era o fragmento de um corpo maior, o alojamento coletivo. Essa teoria tem alguns de seus mais brilhantes exemplares em cidades francesas como Marselha e europeias como Berlim, mas se espalharam pelo mundo como referência de milhares de arquitetos que o sucederam e acreditaram nas virtudes do concreto armado quase como uma profissão de fé. Seu exemplo mais conhecido talvez seja a sede das Nações Unidas, em Nova York, desenhado com um certo Oscar Niemeyer, além de Wallace Harrison e Max Abramovitz.

Na mesma época, as influências de Le Corbusier no Brasil prosperaram de maneira vertiginosa. Com a crise de 1929, que também afetava a Europa, o suíço passou a expandir seu trabalho para novas fronteiras, que se materializaram em estudos urbanos sobre cidades como Barcelona, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Moscou, Estocolmo. 

Essa dimensão internacional se consolidou ao longo dos anos 1930, quando Le Corbusier era tão solicitado em Nova York quanto em Paris. Foi 1936, porém, o ano determinante de sua influência para os rumos da arquitetura e do urbanismo no Brasil. Então o suíço viveu no Rio de Janeiro, onde prestou consultoria a dois jovens, Lucio Costa, seu ex-aluno de Beaux-Arts, em Paris, e Niemeyer, debruçados na concepção do Ministério da Educação Nacional e da Saúde Pública, na capital. É genuíno supor que Le Corbusier tem em parte a ver com tudo o que veio depois na arquitetura e no urbanismo brasileiros - como Brasília -, e talvez em outras áreas, como a demografia.

Tudo isso, porém, é sabido. O que os livros dos três autores franceses têm em comum e reforçam é a advertência de que, nessa mesma época em que influenciava os rumos da arquitetura e do urbanismo mundial, Le Corbusier tinha uma vida política paralela. E, para autores como Marc Perelman, essa atividade trazia consigo algumas de suas premissas arquitetônicas, como a busca pela “ordem” e pela “hierarquia”. O assustador é imaginar que as doutrinas políticas e arquitetônicas de Le Corbusier possam ter confluído.

Assustador porque sua militância não era democrática, para empregar um termo com frequência associado à arquitetura moderna. Le Corbusier militava desde os anos 1920 e até meados dos anos 1940 em pequenos grupos fascistas de Paris, publicando em revistas de extrema direita, várias delas identificadas com o antissemitismo, com o racismo, com o ultranacionalismo e, não raro, com a denúncia dos governos parlamentares democráticos, regime que ele combatia em textos. 

Nesse sentido, os livros de Chaslin e De Jarcy são demolidores. Na desastrosa derrota da França e no armistício com a Alemanha de Hitler, Le Corbusier vê uma “milagrosa vitória francesa”, “um verdadeiro milagre com Pétain” - referindo-se ao marechal de Vichy. “Se tivéssemos vencido pelas armas, a podridão triunfaria e nada de limpo jamais poderia pretender viver”, escreveu à mãe dele, para quem também fez o elogio da “limpeza” que se prepararia com a vitória nazista. “O dinheiro dos judeus, a franco-maçonaria, tudo isso enfrentará a lei justa. Essas fortalezas vergonhosas serão desmanteladas”, comemorou, por acreditar que Hitler “poderia coroar sua vida por uma obra grandiosa”.

Se o teor dessas correspondências já é de domínio, a França hoje se lança a uma reflexão sobre as eventuais raízes totalitárias de sua obra arquitetônica e urbanística. Tal qual os filósofos do século 19, como Karl Marx, que se aventuravam às grandes narrativas ideológicas totalizantes, pretensamente capazes de explicar o funcionamento da sociedade e do mundo, e por isso aptas a refundá-los sobre novas bases, Le Corbusier se outorgava a capacidade de criar do nada toda uma cidade funcional e ideal, na qual milhões de habitantes estariam sujeitos às suas convicções sobre o bem-estar social a partir de imposições arquitetônicas e urbanísticas. Como um deus.

Essa crítica, das relações entre o militante fascista e o arquiteto influente, balança a imagem de Le Corbusier na França no aniversário de 50 anos de sua morte. Mas quase não está presente na exposição Le Corbusier - Mesures de l’homme, em cartaz no Centro Pompidou, em Paris, até 3 de agosto. Em lugar de seu monstro, é mais seu gênio que está destacado por meio de mais de 300 obras - entre as quais uma fração das esculturas e mais de 400 pinturas e 3 mil desenhos do artista, uma de suas facetas menos conhecidas do público. Fica claro que, em vez da leitura de sua obra totalizante e totalitária, como a feita pelos biógrafos, a tendência é associar o mestre a um touche-à-tout, um desses seres privilegiados vanguardistas, como Da Vinci, que deixou suas impressões digitais em diferentes áreas do conhecimento. Cai bem para um homem que afirmara, sobre si mesmo, estar “vinte anos à frente”.

Curador da exposição, Frédéric Migayrou se defende dos disparos alegando que o tema já havia sido tratado pelo Centro Pompidou. “Em 1987, no catálogo enciclopédico sobre Le Corbusier, o Centro Pompidou foi o primeiro a publicar artigos sobre Vichy, sobre esse período”, argumenta, lembrando a transparência com a qual a Fundação Le Corbusier trata o tema. Além disso, Migayrou tenta desqualificar os autores críticos do arquiteto. “Qual é a legitimidade desses livros? Eles têm legitimidade científica, ou seja, pesquisas pacientes, acadêmicas, que tratam dos verdadeiros problemas, como a situação institucional dos anos 30 em Vichy? Não.”

Outro a relativizar o papel da ideologia fascista na obra de Le Corbusier é o arquiteto suíço Paul Chemetov, vencedor do Grande Prêmio Nacional de Arquitetura em 1980. Em artigo publicado no jornal Le Monde, Chemetov lembrou que, entre os profissionais da área, muitos eram adeptos da extrema direita. “Em Vichy não havia só Le Corbusier, a começar por Auguste Perret, presidente da Ordem dos Arquitetos”, escreveu, em um texto no qual defende a arquitetura moderna como “a da democracia”.

Em meio ao fogo cruzado de críticos e defensores, um trabalho é crucial para compreender figura tão controversa e ambivalente. Trata-se do documentário Le Corbusier (1887-1965), produzido pela rede de TV franco-alemã Arte para a série O Século de…, no qual Juliette Cazanave retrata o arquiteto usando suas próprias palavras, escritas e gravadas em rádio e televisão. Talvez uma oportunidade para aceitar, enfim, que o monstro habitava o mestre.

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