O 'ars' da graça

A palavra inércia vem do latim in ars, que significa sem arte, sem capacidade de ação. Nos dicionários consta como ausência de ação. Às vezes a inércia recompensa, mas apostar nela como política de segurança pública não funciona no médio ou longo prazo. Os problemas não desaparecem e tendem a ganhar força quando ignorados.

GUARACY MINGARDI, O Estado de S.Paulo

09 de março de 2014 | 02h10

E o grande problema de segurança em São Paulo ganhou novos contornos nas últimas semanas. O governo paulista vai pedir ao Judiciário a internação de quatro líderes do PCC (Primeiro Comando da Capital) na penitenciária de Presidente Bernardes, onde fica o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD). É um local detestado pelos criminosos profissionais porque os presos ficam isolados e têm dificuldade de contatar os cúmplices. O pedido foi feito pelos secretários da Segurança Pública e da Administração Penitenciária. Entre os punidos está Marcola, o principal líder da organização criminosa.

A ação, depois de tantos anos de inércia e apaziguamento, foi provocada pelo plano de fuga, revelado pelo Estadão, com que membros do PCC pretendiam resgatar os líderes da penitenciária de Presidente Venceslau, onde estão cumprindo pena. Outros criminosos que organizavam a fuga de fora da cadeia também terão sua prisão solicitada ao Judiciário.

Apesar de tentar mostrar firmeza e ter sido obrigado a agir, esses acontecimentos provocaram uma tremenda dor de cabeça no governador paulista. Como é de conhecimento geral, até há pouco os responsáveis pela segurança pública estadual mantinham um discurso de que o PCC era uma organização pequena e contida, sem poder de fato. Essa arenga começou no segundo semestre de 2006, ano em que a facção matou dezenas de policiais e organizou uma megarrebelião que atingiu 78 presídios.

Nos seis anos seguintes o PCC se fortaleceu, aumentou o poder dentro dos presídios e passou a controlar o tráfico nas ruas da Grande São Paulo. Enquanto isso, sucessivos secretários ignoravam, pelo menos publicamente, o problema. A situação só mudou em 2012, após a guerra noturna e não declarada entre a PM e o PCC. Nela vários policiais foram mortos e recomeçaram as execuções de criminosos por grupos de extermínio. Só aí é que o governo Alckmin se mexeu, trocando o comando da Secretaria da Segurança. O novo secretário inverteu o discurso e admitiu que o PCC tem poder dentro e fora dos presídios, mas parece que a mudança chegou um pouco tarde.

Promotores, agentes penitenciários, policiais civis e militares com quem conversamos foram unânimes em afirmar que o Primeiro Comando estuda represálias contra a administração. Portanto, corremos o risco de motins nos presídios controlados pelo PCC ou ataques contra a polícia nas ruas. Isso num ano em que as manifestações contra a Copa do Mundo já colocaram os problemas de segurança no Brasil na pauta da imprensa internacional.

Foi o medo de represálias que provocou os anos de inércia por parte das autoridades. Adiaram tanto que a crise pode eclodir no pior momento possível. E, apesar disso, os habitantes do Palácio dos Bandeirantes estão preocupados apenas com quem vazou a investigação sobre a fuga para a imprensa. Alguém do staff do governador lembrou que, além da Copa, este é um ano eleitoral, e mais uma rebelião pega mal para o currículo de quem tem a pretensão de se reeleger. E, enquanto o alto escalão busca um culpado pelo vazamento, as duas secretarias responsáveis pela investigação estão em rota de colisão. Segurança Pública e Administração Penitenciária trocam, à boca pequena, acusações sobre quem foi o responsável pela notícia ter chegado ao Estadão.

Já era do conhecimento dos especialistas que o PCC tinha intenção de se mobilizar neste ano, pressionando o governo para obter mais regalias além das que já possui. O movimento tinha até um nome de marketing "Caminhada da Copa". A intenção deles não era atrapalhar a realização da Copa em São Paulo, muito menos amedrontar os turistas. Era, ou é, agitar as coisas, mostrar poder. Como um leão rugindo para assustar os adversários. Dessa forma poderiam conseguir seus objetivos sem necessitar ir para o confronto. Segundo os analistas, eles já perceberam que em determinados momentos o governo, qualquer que seja ele, está mais vulnerável. Tende a ceder à chantagem com facilidade. Como ocorreu em 2006, também ano eleitoral.

Até o momento o noticiário é dúbio. O que mais chamou a atenção foram os ataques com coquetéis molotov contra veículos públicos, inclusive da polícia, e edifícios em pelo menos cinco cidades do interior paulista. Um dos artefatos foi jogado em uma base policial em Promissão. A versão oficial é que os ataques estariam ligados a uma operação que prendeu vários criminosos na região. Pode ser que sim, pode ser que não.

Por via das dúvidas nas próximas semanas temos de ficar atentos ao noticiário policial. Torcendo para que mais uma vez não haja um acordo que favoreça o crime. E que a cúpula da segurança mostre que tem "ars" suficiente para proteger a população.

Na terça-feira, em Promissão, interior paulista, seis veículos, entre eles três ônibus e dois caminhões, foram incendiados e a casa de um patrulheiro da Polícia Rodoviária teve a porta e as paredes chamuscadas por um coquetel molotov, em ataque atribuído ao PCC.   GUARACY MINGARDI É DOUTOR EM CIÊNCIA POLÍTICA PELA USP E MEMBRO DO FÓRUM  BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.