Elliott Verdier/The New York Times
Elliott Verdier/The New York Times

O ativista que leva artefatos de museus em protesto contra colonialismo

O congolês Mwazulu Diyabanza denuncia 'roubo cultural da era colonial' de itens em museus da França

Farah Nayeri, The New York Times

26 de setembro de 2020 | 16h00

PARIS — No início de uma tarde de junho, o ativista congolês Mwazulu Diyabanza entrou no Museu Quai Branly, situado na beira do rio, que abriga tesouros das ex-colônias da França, e comprou um ingresso. Com quatro companheiros, ele vagou pelo acervo africano do museu de Paris, lendo as fichas das obras e admirando os tesouros em exposição.

Mas o que começou como uma simples visita ao museu logo se transformou em uma caótica manifestação, com Diyabanza denunciando o roubo cultural da era colonial enquanto um membro do grupo transmitia o discurso ao vivo pelo Facebook. Com a ajuda de outro integrante do grupo, ele então removeu à força um poste funerário de madeira do século 19, de uma região atualmente situada no Chade ou no Sudão, e rumou para a saída. Os guardas do museu o detiveram antes que deixasse o prédio.

No mês seguinte, em Marselha, no sul da França, Diyabanza tomou um artefato do Museu de Artes Africanas, Oceânicas e Americanas Nativas em outro protesto transmitido ao vivo, antes de ser interrompido pelos seguranças. E, no início do mês, em um terceiro protesto transmitido via Facebook, ele e outros ativistas levaram uma estátua funerária congolesa que ficava no Museu Afrika de Berg en Dal, nos Países Baixos, antes de ser novamente detido pelos guardas.

Agora, Diyabanza, porta-voz de um movimento pan-africano que busca compensações pelo colonialismo, pela escravidão e pela expropriação cultural, teve julgamento marcado para o dia 30 de setembro em Paris. Ao lado dos quatro colegas do protesto no Quai Branly, ele será acusado de tentativa de roubo em um caso que deve colocar a França no banco dos réus por causa do histórico colonial e por manter em seus museus tanto do patrimônio cultural da África Subsaariana (cerca de 90.000 objetos).

“O que me levou a agir foi o fato de eu ter que pagar do meu próprio bolso para ver aquilo que foi tomado à força, esse patrimônio que pertencia ao país de onde vim", disse Diyabanza em entrevista concedida em Paris esse mês.

Descrevendo o Quai Branly como “um museu que contém objetos roubados", ele acrescentou, “Não é proibido ao proprietário tomar de volta aquilo que lhe foi roubado quando tem a oportunidade de fazê-lo".

O presidente Emmanuel Macron prometeu em 2017 devolver boa parte do patrimônio africano mantido nos museus da França, e recrutou dois acadêmicos para que elaborassem um relatório de como colocar isso em prática.

O relatório de 2018 elaborado por Bénédicte Savoy e Felwine Sarr disse que artefatos tirados da África Subsaariana no período colonial deveriam ser permanentemente devolvidos se tiverem sido “levados à força, ou sob condições presumivelmente desiguais", e se os seus países de origem assim solicitarem.

Apenas 27 restituições foram anunciadas até o momento, e somente um objeto foi devolvido.

De acordo com sua ficha no Quai Branly, o poste funerário foi presente de um médico francês e explorador envolvido em missões etnológicas pela África. Mas, para Diyabanza e seus colegas, o acervo do museu é todo fruto da expropriação. Como ele disse no discurso transmitido ao vivo antes de tomar a peça, ele veio “recuperar a propriedade africana roubada, propriedade que foi levada no colonialismo".

Dan Hicks, professor de arqueologia contemporânea da Universidade de Oxford e curador do Museu Pitt Rivers, ligado à universidade, que abriga um vasto acervo de objetos da era colonial, descreveu a intervenção de Diyabanza no Quai Branly como “um protesto visual", pensado para as redes sociais, envolvendo uma inversão de papéis: um objeto cultural sendo apreendido na Europa em nome do povo da África. Ele disse que o episódio trata “dos objetos nos museus e como nos sentimos em relação a eles”, suscitando questões envolvendo “cultura, raça, violência histórica, história e memória".

“Se chegamos a um ponto em que o público sente a necessidade de protestar, provavelmente estamos fazendo algo errado", acrescentou ele. “Precisamos abrir nossas portas para debates a respeito das situações em que nossos objetos ou acervos ofenderam as pessoas.”

O poste funerário estava ausente em uma visita recente ao museu Quai Branly. Um porta-voz do museu não quis informar sua localização e estado, mas um guarda disse que a peça está em processo de restauro. Os únicos traços dela eram os buracos no pedestal que costuma ocupar.

O porta-voz do Quai Branly disse que o museu condena enfaticamente o episódio de junho. O museu será ouvido no processo civil com audiência marcada para o dia 30 de setembro, acrescentou ele.

No tribunal, Diyabanza e seus quatro companheiros serão defendidos por três advogados.

“Vamos julgar a escravidão e o colonialismo no dia 30 de setembro", disse um dos advogados, Calvin Job. “Estamos à frente de uma batalha legítima contra acusações injustas.”

O estado francês possui “objetos em seus acervos que são produto de roubos", acrescentou Job. “Se vamos apontar ladrões nesse caso, falemos daqueles que estão acusando os réus.”

Hakim Chergui, outro dos advogados, disse que os atos de Diyabanza não devem ser vistos como tentativa de roubo, e sim como declaração política. Ele se diz confiante na absolvição dos réus, porque a França não processa pessoas por acusações políticas, disse ele.

“Não estamos falando de golpistas que tentaram roubar uma estátua para revendê-la", disse ele. “Trata-se de pessoas com uma clara mensagem política e que, por meio de um ato militante, tentam alcançar a opinião pública.”

Ele explicou que os advogados de defesa usariam o precedente de uma integrante do grupo feminista Femen, absolvida de uma acusação de atentado ao pudor depois de mostrar os seios em um museu de cera e atacar uma estátua do presidente da Rússia, Vladimir Putin. Um tribunal de apelações decidiu que o comportamento dela consistiu em um protesto político.

A entrevista com Diyabanza e os advogados ocorreu em um café perto da estação de metrô Rosa Parks, zona norte da capital francesa. Diyabanza usava um colar de marfim, uma boina preta e um broche com o mapa da África.

Ele disse que, quando adolescente, no então Zaire, sua mãe lhe contou que, em algum momento do século 19, colonizadores europeus levaram três objetos importantes — uma bengala esculpida, uma pele de leopardo e um bracelete — do seu bisavô, governador provincial do Congo que os recebeu do rei do país como símbolos de poder e autoridade.

“Esse patrimônio foi roubado de maneira selvagem", disse Diyabanza. “A história que ouvi de minha mãe moldou minha mentalidade, e me deu o forte desejo de ver esse patrimônio ser um dia devolvido ao lar.”

Enquanto ele falava, um ciclista que passava por perto o reconheceu dos vídeos nas redes sociais e parou para conversar. “Nós o acompanhamos e apoiamos suas ideias, e o incentivamos a continuar, mas tome cuidado", disse o ciclista, Abdel Adekambi, estudante francês de matemática de ascendência nigeriana e beninense.

“Em princípio, você está totalmente certo em relação ao museu", disse Adekambi. “Mas, na prática, esse não é o melhor caminho. Use a lei para ser ouvido. Caso contrário, isso pode formar uma má impressão ao nosso respeito, e ninguém nos dará ouvidos.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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