O banqueiro pródigo de Obama

Conheça Leonard Abess Jr., o executivo que doou a seus funcionários US$ 60 milhões, para ajudá-los a enfrentar a crise

Flávia Tavares, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2009 | 00h14

"Digamos que nós parecíamos crianças numa loja de doces!"Foi assim que Carleatha Barbary, gerente de uma agência do City National Bank, descreveu a uma rádio americana sua reação e a dos colegas do banco de Miami ao receber um generoso bônus de Leonard Abess Jr. Ao todo, o patrão-banqueiro distribuiu US$ 60 milhões a 471 pessoas - 399 funcionários e 72 aposentados do - numa média de US$ 127 mil para cada uma, para ajudá-las a enfrentar a crise econômica. O ato incomum tornou Abess uma espécie de "bicho exótico" do mundo financeiro, o que lhe rendeu um convite para se sentar ao lado da primeira-dama americana, no primeiro discurso de Barack Obama em sessão conjunta com o Congresso. "Ele não contou sobre a distribuição dos bônus a ninguém e, quando um jornal local descobriu, simplesmente disse: ?Eu conhecia algumas dessas pessoas desde os meus sete anos. Não achei que fosse correto ficar com o dinheiro?", disse o presidente americano, deixando claro a outros executivos e empresários o tipo de capitalista de que ele gosta.Não é que Abess tenha ficado exatamente pobre ao distribuir esses milhões, em novembro do ano passado. Sete meses antes, 83% das ações de seu banco foram vendidos para o espanhol Caja Madrid por US$ 927 milhões - Abess manteve o posto de presidente e os 17% das ações restantes. Mas também não foi a primeira vez que ele surpreendeu os funcionários com benesses inesperadas em momentos difíceis. É a própria Carleatha quem lembra que, depois de um furacão devastador na Florida, Abess distribuiu dinheiro para a compra de ferramentas e geradores a serem usados na reconstrução das casas dos trabalhadores. "Ele é esse tipo de pessoa mesmo", disse a gerente coruja ao locutor americano.Mesmo depois de ter sido citado no discurso presidencial da última terça-feira, sob aplausos e em cadeia nacional, Abess, 60 anos, preferiu a reclusão. Passou os últimos dias recusando entrevistas porque, conforme uma assistente, "não quer ficar divulgando essas atitudes". Uma história que ganhou repercussão, porém, e fez de Abess um tipo de banqueiro ainda mais distinto dos colegas, foi a de que, apesar de filho do fundador do City National, ele não herdou o banco que dirige hoje. Lá em 1926, depois de mais uma temporada violenta de furacões, Leonard pai negociou com o Barão de Hirsch Meyer a criação de uma pequena instituição financeira de empréstimos. Vinte anos depois, o City National Bank foi fundado e, no primeiro dia de funcionamento, 100 contas foram abertas, com depósitos que somavam US$ 1 milhão. Leonard filho até chegou a trabalhar na gráfica do banco por algum tempo, mas se desligou dos negócios da família para criar a Marquee Arts Magazine, uma revista alternativa de arte. No começo dos anos 80, a família Abess vendeu o banco para Alberto Duque, o rei do café colombiano. Envolvido em negócios escusos, Duque levou o City National a perdas sem precedentes e, ao mesmo tempo em que fechava a lanchonete dos funcionários, alegando corte de despesas, distribuía títulos de clubes caríssimos de Miami a clientes "importantes".Desconfiado da má administração de Duque, Abess Jr. fez uma visita surpresa a uma plantação de café do colombiano na região. Onde deveria haver uma pulsante produção dos grãos, cinco funcionários carregavam três sacos de meio quilo de café pela fazenda. Impossível não imaginar uma gorda e redonda fraude. Disposto a recuperar o negócio da família, Abess Jr. deu início a um complexo processo na Justiça americana que, somado a outras acusações, resultou na condenação de Duque a 15 anos de prisão por fraudar mais de vinte bancos nos EUA. O colombiano acabou fugindo do país. E o banqueiro pródigo arrumou um empréstimo de US$ 15 milhões, juntou mais US$ 6 milhões do bolso e recomprou, em 1985, o banco fundado pelo pai. Virou herói.Formado na Wharton School of Business, da Universidade da Pensilvânia, Abess Jr. dirige o City National com rigor. Quando assumiu o comando, o banco tinha um ativo de US$ 400 milhões. Hoje, está em quase US$ 3 bilhões e crescendo. Detalhe: sem aquela "ajudinha" do governo. Paralelamente, ganhou vários títulos e condecorações por atos de generosidade. Em 2006, ele e sua mulher, Jayne, doaram US$ 5 milhões para a Universidade de Miami, onde foi criado o Abess Center for Ecosystem Science and Policy. Além disso, o casal criou o Abess Floating Research Station, um centro de pesquisa flutuante que foi doado para a ONG Amazon Conservation Team Charity. O barco percorre a Amazônia brasileira mapeando territórios indígenas e estudando a fauna e a flora.Na comunidade judaica, Abess Jr. é extremamente ativo. Foi presidente do conselho do Mount Sinai Medical Center, hospital fundado por seu pai em 1949, quando hospitais de Miami se recusavam a contratar médicos judeus. Como membro do conselho da The Greater Miami Jewish Federation, Abess Jr. contribui com US$ 100 mil por ano à instituição. A lista de reconhecimentos por feitos filantrópicos e ambientalistas é extensa, culminando com a sua inclusão no Hall da Fama dos Negócios, na Flórida, em 2002.Durante o discurso do presidente Obama, Abess Jr. dividiu o camarote de Michelle Obama com outros 23 convidados. Entre eles, uma estudante da Carolina do Sul que escreveu para a Casa Branca pedindo que se fizesse algo por sua escola decadente; um ex-combatente no Afeganistão e uma funcionária do City National Bank, que, depois de 51 anos no banco, foi uma das beneficiárias do dinheiro distribuído por Abess Jr. - e vai comprar um carro novo com seu bônus. Ao abrir a mão, o banqueiro fecha a boca: a falta de publicidade sobre seus atos explicam a credibilidade de que desfruta. Quando os envelopes com os bônus foram distribuídos a Carleatha e seus colegas, em novembro, Abess Jr. sequer deu expediente no banco. Fez um vídeo explicando a decisão aos funcionários e mandou uma vice-presidente entregar a grana. Para alguns aposentados, o envelope vinha com um aviso irônico do patrão: "Sente-se antes de abrir". Centenas de cartas de agradecimento inundaram seu escritório, mas Abess Jr. tocou a vida normalmente. Inclusive arrumando tempo para cuidar de suas orquídeas, escalar montanhas e fazer rafting. Melhor parar por aqui antes que tudo isso comece a parecer mentira...

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.