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O bar de Brancaleone

Alvaro Aoas - dono do Bar Brahma. Na esquina da Av. São João com a Ipiranga, em São Paulo; de como um pasteleiro sem grana reconstrói um ícone da cidade e seu centro moribundo

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2008 | 21h37

É possível que você já tenha visto, no Bar Brahma, o Alvaro Aoas. Era uma figura marcante do ponto de vista capilar - o Alvaro já teve cabelo "verde, amarelo, branco, lilás, azul-turquesa". Sempre espetadão, de forma a disfarçar, na verdade, a pouca telha. De uns tempos para cá, a escassa cobertura, no entanto, foi se tornando cada vez mais rara, abrindo entradas e bandeiras na sua carcaça craniana. Então o Alvaro fez como muitos carecas, raspando tudo com uma máquina zero. Dessa forma, caso você esteja no Brahma e identifique por entre as mesas um sujeito aparentemente muito polido, no sentido de sua cabeça ter sido mesmo encerada, polida e cristalizada, este provavelmente é o Alvaro Aoas. Levante e vá lá apertar a mão dele - o Alvaro, um pasteleiro sem grana, livrou o bar mais importante de São Paulo de transformar-se num templo de igreja evangélica, brecando o processo de decadência do famoso cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João, no então moribundo centro da cidade. Só por esse motivo o Alvaro já merecia ir para o céu. Mas você deve levantar-se e apertar ainda mais efusivamente a mão do Alvaro a partir de amanhã, quando o Brahma ocupará finalmente, depois de 60 anos de existência, a esquina própria e caetanicamente dita. É que bem ali, na quininha do Edifício Independência, funcionava uma empresa de consórcios, cercada de Bar Brahma por todos os lados. A partir dessa semana o endereço abrigará a Esquina da MPB (com calçada da fama e tudo), uma extensão do bar que o Alvaro reconstruiu aos trancos e barrancos, na base da lábia e do cheque pré-datado. Alvaro Aoas, 46 anos, nasceu, cresceu e vive até hoje na zona norte de São Paulo. Seu avô, um imigrante palestino, era dono de um armarinho na Avenida Imirim, próximo à sede do Estadão. O pai do Alvaro, Mamede Aoas, servia-se das "canetas e bugigangas" da loja para abastecer sua banquinha de camelô no centro da cidade. Aos 21 anos (na época pessoas eram adultas com essa idade e precisavam portanto dar um jeito na vida), o seu Mamede conseguiu enfim estabelecer-se em um endereço comercial na Rua 15 de Novembro, ao lado da Bolsa de Valores de São Paulo. Abriu ali o próprio armarinho, chamado Aoas e Cia. O seu Mamede só tinha feito o ensino primário. Mas era "um sábio para negociar" e o Alvaro gostava de ficar reparando nisso.Quando ele tinha 8 anos (época em que exploração infantil era pagar mesada para o filho), já dava uma força na lojinha. De forma que o Alvaro também nasceu, cresceu e vive até hoje no centro da cidade.O seu Mamede trabalhou duro, ele e a d. Iracema, produzindo sete filhos - Alvaro é o terceiro. Diferentemente do pai, cursou até o segundo ano de engenharia química, o que "não tinha nada a ver" (a não ser talvez com seus experimentos de coloração capilar). O Alvaro parou de estudar porque quando tinha 19 anos conheceu no Guarujá uma menina de 16, por quem se apaixonou e com quem imediatamente se casou. Depois da lua-de-mel em Salvador, concluiu que era hora de parar com esse negócio de química e ganhar logo um dinheiro. Então o Alvaro abriu uma pastelaria na Rua Senador Feijó - no centro, claro -, onde antes funcionava uma lotérica chamada Já Lucrei, cujo ponto era de um amigo da família. A pastelaria do Alvaro chamava-se Novo Pastel, não sendo de todo um nome qualquer: do Guarujá, ele importara um fazedor de mais de 20 tipos inéditos de pastéis, o Juscelino. A mulher e uma irmã do Alvaro cuidavam do atendimento, a d. Iracema ficava no caixa, o Alvaro e o Juscelino só fritando pastel. Em cinco anos, o negócio tinha prosperado e o Alvaro já administrava oito pontos do Novo Pastel no centro de São Paulo. Mas o problema é que ele era muito disperso, sempre abraçando "a oportunidade da vez" e deixando para trás o pouco que conseguira construir. Como um Gabriel Chalita que escreve livros pelos cotovelos, Alvaro abria empresas como se fosse a própria Junta Comercial - atuou no ramo do pastel, buffet infantil, sorveteria, marca de roupa, loja de esfihas, entrega de quentinhas. No total, 38 empreendimentos em três décadas de vida. Quando o lance do pastel estava no auge, em 1986, ele vendeu sua Brasília verde e foi passear com a mulher na Europa durante 25 dias. Uma viagem ao estilo CVC, pingando aqui e ali. Foi o suficiente para que se encantasse com os bares charmosos que viu em cidades como Paris. De volta ao Brasil, resolveu que era isso que ele queria: chega de pastel, "agora eu tenho que montar um desses no centro de São Paulo de qualquer jeito". O Alvaro diz que a história dele "é toda de cismas" - e ele cismou com o negócio do boteco charmoso. Um dos endereços do Novo Pastel ocupava o andar térreo de uma construção muito bonita, embora decadente, no Largo Santa Cecília, 52. Foi ali que, em 1991, o Alvaro montou o Café São Paulo, "um lugar transado, charmoso, com um trio de jazz tocando todas as noites". Em pouco tempo, a casa se transformou "num lugar absolutamente especial, onde muita gente se casou, teve filhos". Aos poucos, o jazz foi dando lugar também à MPB, ao blues, à black music. De repente o pasteleiro do centro, filho de uma família pobre da zona norte, tinha colocado de pé "um clube" com a cara de Nova York. Estaria tudo maravilhoso se não fosse o comichão empreendedor do Alvaro Aoas. E ele resolveu pegar todas as economias e investir em uma casa de forró em Diadema - a primeira vez em que punha as asinhas para fora do centro. No dia da inauguração, em meados de 1995, houve uma briga na porta e um tiroteio. Duas pessoas foram mortas. O Alvaro quebrou.Logo depois desse acontecido, Alvaro separou da mulher. Ficou muito triste. Para recomeçar a vida no Café São Paulo, virou caixa do bar. Na lábia, sem grana e sempre recorrendo aos amigos e aos amigos dos amigos, conseguiu levar para "um espaço que não cabiam mais de cem pessoas" gente de renome na música, como Dori Caymmi, Noite Ilustrada, Claudete Soares, Jamelão, Jair Rodrigues. Numa dessas madrugadas, quando se preparava para fechar o bar, um senhor "de uns 70 anos" estacionou o carro em frente à entrada principal. Estava vestido de terno e gravata. Desceu e atravessou o salão: "Você é o Alvaro, né? Eu pesquisei sobre o senhor, sei que praticamente nasceu e cresceu no centro. Eu conheço todos os bares de São Paulo. E quero lhe dizer que você tem uma missão: precisa reabrir o Bar Brahma. Ele não deve morrer, e apenas você vai poder ressuscitá-lo". O senhor virou as costas e foi embora. No dia seguinte de manhã, o Alvaro deu uma passada na porta do Brahma, que tinha encerrado suas atividades havia um ano, em 1998. Na ocasião, casado pela segunda vez, estava morando no apartamento de 90 metros quadrados onde vivia sua sogra. Alvaro dividia um único quarto com a mulher e a filha pequena. Não tinha carro. Mas embora a situação fosse complicada, ele cismou com o negócio de reerguer o Brahma, que estava em vias de ser alugado para uma igreja evangélica. Alvaro procurou os donos do imóvel, proprietários de vários outros endereços na região central da cidade. "Se vocês deixarem que se instale aqui uma igreja, estarão decretando para sempre a morte do centro de São Paulo", alertou, destilando sua lábia poderosa. "Ao contrário, se me derem a chance de recuperar o Bar Brahma, todo o entorno será valorizado, para o bem dos imóveis que vocês possuem aqui." O pessoal desfez o acerto com a igreja e fechou com ele, concedendo uma carência para que a coisa pudesse engrenar.O problema agora, entre muitos outros, era convencer a Brahma a deixar que continuassem usando o nome da marca. Diante da primeira negativa, o Alvaro ligou para o Estadão: "Vou reabrir o Bar Brahma e gostaria de divulgar à imprensa". A matéria foi publicada: "Bar Brahma ressurge das cinzas". Com o jornal nas mãos, ele voltou à cervejaria: "E aí, vocês vão ficar fora dessa?" Não ficaram. Mas o fato é que não se abre um bar apenas com título e imóvel - sobretudo o Brahma, necessitado que estava de uma reforma. Também é preciso que se tenha os equipamentos de cozinha, as mesas, os objetos de decoração. Na Avenida Faria Lima, outro bar, o Iron Horse, estava sendo fechado. Seu proprietário, um cantor canadense chamado Joe Robert, pedia R$ 250 mil por tudo o que estava lá dentro. O Alvaro ofereceu R$ 30 mil. O Joe Robert baixou para R$ 200 mil. Depois para R$ 180 mil, R$ 120 mil, R$ 80 mil, R$ 50 mil, R$ 30 mil. O Alvaro deu o cheque e pediu uma semana de prazo. Ele e o sócio, o amigo Luís Lacerda, não tinham o dinheiro e nem a perspectiva de obtê-lo. No sábado seguinte, o Alvaro foi dar uma olhada no Iron Horse, remexer as coisas, ver se vislumbrava alguma alternativa. Ele estava nessa quando apareceu um casal dizendo saber que o bar tinha sido fechado e perguntando se não interessava vender uns banquinhos de couro que ficavam no balcão. O Alvaro saiu correndo dali na mesma hora e mandou fazer uma faixa bem grande: "Vendo tudo para entrega do ponto". O Iron Horse era o lugar onde os motociclistas de Harley Davidson costumavam se encontrar. Vendo a tralha toda disposta na calçada, essa turma apareceu em peso e arrematou cada item do acervo, das chopeiras em formato de guidão às fotos dos freqüentadores. Em um fim de semana, o Alvaro levantou R$ 80 mil. Guardou o maquinário da cozinha e saldou a sua dívida. Com R$ 50 mil, ele reabriu o Bar Brahma em 9 de janeiro de 2001.O seu Mamede, o pai do Alvaro, morreu há seis meses. Sua lojinha da 15 de novembro tem 55 anos e continua funcionando. O Alvaro está em seu terceiro casamento e espera para qualquer hora o nascimento de seu quarto filho - uma menina. Continua morando na zona norte. Tem uma casa e um Honda Civic. O Bar Brahma tornou-se uma marca ainda mais reconhecida, com praças de alimentação em eventos e feiras no Brasil e no exterior. O Alvaro é também o organizador do Camarote Brahma no carnaval paulistano. Quando ele se preparava para reinaugurar o bar em 2001, o então secretário de Cultura do Estado, Marcos Mendonça, o alertou para a sua missão: "Se o seu projeto der errado, você atrasa todo o processo de revitalização do centro". A Pinacoteca do Estado tinha acabado de ser reformada. A Sala São Paulo estava em obras. Mas o Alvaro era a primeira pessoa da iniciativa privada a investir na recuperação da área central. Amanhã, quando ele abrir as portas da Esquina da MPB para a festa de inauguração do novo espaço, alguma coisa deve acontecer no coração dos paulistanos. TERÇA, 17 DE JANEIROUma esquina para a MPBAnunciada para segunda-feira (amanhã), a inauguração da Esquina da MPB, nova extensão do Bar Brahma que ocupará a famosa esquina das Avenidas Ipiranga e São João, em São Paulo. Dedicada a jovens talentos, a nova ala será aberta ao público na terça.ASCENDÊNCIASeu pai, um imigrante palestino, foi camelô no centro da cidadeFRANCO-ATIRADORAbria empresas como se fosse a própria Junta Comercial: 38 em 30 anos de vidaCAFÉ SÃO PAULOO pasteleiro do centro tinha colocado de pé um clube com a cara de Nova York

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