O blog de George Orwell

Diários do escritor britânico publicados na internet falam de meteorologia, bichos, plantas, amores e carpintaria

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2008 | 00h15

Um repórter da CNN lamentou que o escritor Norman Mailer não estivesse mais entre nós para cobrir com a adequada verve a épica espetaculosidade da Convenção Democrata em Denver. Mailer morreu em novembro passado. Volta e meia os franceses tentam imaginar o que Albert Camus pensaria sobre as grandes questões do momento. Camus, infelizmente, morreu em 1960. Aqui, vez por outra o humor de Sérgio Porto é lembrado como o mais eficaz antídoto ao festival de besteiras que até hoje assola o País. Stanislaw, desgraçadamente, morreu em 1968.Também com freqüência alguém lastima que o escritor inglês George Orwell não tenha vivido o bastante para ver e analisar o thatcherismo, a derrocada do império soviético, o arremedo de 1984 implantado na América pelo desgoverno Bush e a avacalhação televisiva do seu Big Brother. Orwell morreu pouco antes de Pedro Bial completar 2 anos. No final de 2007 um jornalista londrino soprou na internet a hipótese de que Orwell, apesar de seu desconforto com novidades tecnológicas ("as máquinas são como drogas: úteis, perigosas e viciantes"), não resistiria à prodigiosa capilaridade da blogosfera. A suposição procede e merece ser estendida a Camus e outros tantos agudos comentaristas dos séculos 17 (como Samuel Pepys), 18 (James Boswell), 19 (Machado de Assis) e 20 (André Gide). Desses, porém, apenas Orwell conseguiu usufruir das vantagens oferecidas pela Web 2.0. Faz três semanas que ele virou um blogueiro. Acesse http://orwelldiaries.wordpress.com e leia com os próprios olhos. Todos os dias, uma nova anotação. Com 70 anos de atraso, é verdade, mas autêntica. Hoje, por exemplo, saberemos o que Orwell escreveu sobre o que mais despertou seu interesse em 31 de agosto de 1938. Melhor isso do que um sucedâneo a parodiar o que Orwell teria escrito sobre a tensão política na Geórgia ou as enchentes que inundaram a Índia na última semana de agosto de 2008. Por que não esperar mais 14 anos?, ponderou um visitante da página apegado à idéia de que 84 anos de distância fariam mais sentido do que 70, prazo redondo, mas sem a mesma ressonância literária do outro. Frescura. Para que esperar até 2022 para dar vazão, na grande infovia, aos diários de Orwell? Foram ao todo três diários, sem contar os que resultariam nos relatos de Na Pior em Paris e Londres e The Road to Wigan Pier e o que se perdeu e acabou reconstituído de memória para a feitura de Lutando na Espanha. O primeiro cobre os últimos cinco meses de 1938 e segue até o início da 2ª Guerra Mundial; o segundo vai de maio de 1940 a agosto de 1941; o terceiro, de março a novembro de 1942. O hiato de seis meses entre o segundo e o terceiro foi motivado pela contratação do escritor pela BBC. Com 50 mil visitantes nos primeiros 10 dias, o blog do Orwell foi uma sacada brilhante de Jean Seaton, professora da Universidade de Westminster e diretora da organização Orwell Prize, de parceria com o Orwell Trust, o Midia Standards Trust e a Political Quarterly. Tem tudo que uma página da internet permite: comentários dos leitores, links, esclarecimentos (inclusive do que blackberry significava 70 anos atrás: era só amora), e mapa do Google mostrando onde ficava o sanatório de Preston Hall, em Aylesford (Kent, sudeste da Inglaterra), em que Orwell se internou, em março de 1938, para cuidar dos pulmões. Do sanatório ele só sairia em 2 de setembro para uma viagem ao Marrocos, com a mulher. Uma temporada longe do inverno europeu lhe faria muito bem, aconselharam os médicos. Fez. O escritor ficaria seis meses no Marrocos, que, apesar de "terrivelmente tedioso", não lhe tirou o entusiasmo para escrever o romance Um Pouco de Ar, por Favor. Como só chegou a Marrakesh em 12 de setembro, ainda falta uma semana para sabermos como foi a travessia. "Não esperem um Orwell polêmico", advertiu Jean Seaton. Um Orwell "mais sereno e observador" é o que os blogs revelarão. Sereno até demais nas primeiras semanas, ocupando-se exclusivamente da meteorologia, de bichos, plantas, gerânios, amores, nozes, galinhas, trigo, cevada e carpintaria. Sua segunda inserção (10 de agosto) tinha apenas meia dúzia de palavras: "Garoento. Névoa densa à noite. Lua amarela". O da última quinta-feira falava em chuva, calor, céu nublado e no início da colheita de lúpulo. Até agora, nenhuma palavra sobre os prolegômenos da guerra que só dali a 13 meses eclodiria ou sobre a truculência dos japoneses na Mandchúria.Além de não se sentir em Preston Hall como Hans Castorp na Montanha Mágica, Orwell era natureba. Orgulhava-se de "escrever livros e criar galinhas e hortaliças". E ter um cão chamado Marx, que alguns pensavam ser uma homenagem aos Irmãos Marx e uma vizinha morreu achando que tinha algo a ver com a cadeia de lojas Marks & Spencer. Marx era Marx por causa do Karl.Houve queixas e manifestações de decepção. Mas quem sabe das coisas e do que está por vir preferiu manter o suspense. Dos diários não se deve exigir muito de quem quer que seja. Em 11 de agosto de 1813, já cercado por todos os flancos, Napoleão limitou-se a escrever no seu não mais do que cinco palavras: "Lençóis lavadinhos. Brisa fresca à tarde". Em 11 de agosto de 1943, com vários meses de guerra ainda pela frente, Churchill anotou simplesmente: "Comi um sanduíche de presunto com chá no almoço. Estava o.k.". Ninguém mais se espanta com o que Franz Kafka registrou em seu diário no segundo dia de agosto de 1914: "Alemanha declarou guerra à Rússia. Banho de piscina à tarde". Um leitor, acometido de interpretose aguda, algemou as observações de 22 de agosto aos grilhões da alegoria. Segundo ele, o outono mencionado por Orwell era uma referência à "decadência da Europa"; a chuva, à "série de agressões de Hitler à Checoslováquia"; as lesmas, aos "diplomatas ingleses"; e as bolhas gelatinosas, aos "documentos diplomáticos" constantemente desrespeitados. Orwell, que pregava e praticava como poucos a clareza e a franqueza, ficaria horrorizado com esse exercício de restauração do irrestaurável. Aos impacientes, uma recomendação: aguardem o blog do próximo dia 7. É a partir daquela data que Orwell começa a dar atenção a outro tipo de nuvem: os metafóricos nimbos que sobre a Europa se acumulavam em forma de suástica. E, por tabela, ao fascismo, ao comunismo, ao desemprego, à imprensa. Sem deixar de lado a criação de galinhas, a carpintaria, as flores e todas as manifestações da natureza que, mesmo na guerra, continuam existindo e sendo parte fundamental do cotidiano de cada um.

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