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O boleiro sertanejo

José Rico era o próprio Brasil e reafirmava isso como podia, em sua arte ou em sua vida

Ricardo Morais e Alexandre Xavier, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 16h00

Uma luz vermelha deve ter se apagado em algum lugar deste mundo com a morte do José Rico. O coração falhou e o Brasil emudeceu. Além de grande cantor, ele era, acima de tudo, boleiro - torcia para o Independente de Limeira (rival da gloriosa Inter de Limeira) e a União Barbarense (saudade daquele time do fim da década de 1990). Alguns dizem que também era santista, mas quem diz isso só o faz porque o cantor tinha um coração enorme. Somente, sua relação com o Peixe era apenas superficial. 


José Rico era a síntese do brasileiro do interior: amava Aparecida do Norte, caminhões, futebol e a música que contaria a história de um povo. 



Suplicamos um tributo honroso a Milionário e José Rico, essa dupla sertaneja que surgiu na boca do lixo de São Paulo e abraçou nosso futebol mais profundo. 


O primeiro show dos dois cantando juntos, ainda como Tubarão e José Rico, foi no Príncipe do Morro da Vila Maria, um dos mais clássicos times amadores de São Paulo. Entraram ridicularizados e vaiados, porque eram pobres e malvestidos. “O pessoal ria de nóis”, lembrou certa vez Milionário. José Rico esperou a vaia silenciar e começou a cantar. Saíram do palco ovacionados, carregados nos braços do povo.


A dupla foi responsável por incorporar as guarânias paraguaias, o chamamé argentino, a rancheira e o bolero mexicanos a nossa música popular, inovações que até hoje mexem com artistas como Michel Teló. 


A melhor homenagem póstuma a Zé Rico seria, sem dúvida, o acesso das duas equipes de seu coração à primeira divisão do Campeonato Paulista. O Independente está muito próximo. Avante, Galo da Vila! A União Agrícola Barbarense vem logo atrás. Para os desavisados, essa é a Série A-2, muito mais divertida que qualquer torneio da Uefa. Procure saber.


O Garganta de Ouro daria a vida para ver essas duas equipes repetirem a história da arquirrival Inter de Limeira. Lembra do esquadrão de 1986? Silas; João Luís, Juarez, Bolívar e Pécos; Manguinha, Gilberto Costa e João Batista; Tato, Kita e Lê. No dia 31 de agosto daquele ano, 104.136 pagantes assistiram à final do Campeonato Paulista entre Inter de Limeira x Palmeiras. 104.136 mil.


A Inter se sagraria campeã após um 0x0 e um 2×1 na final. Como a imprensa esportiva paulistana não entendia o que estava acontecendo, deram o apelido fajuto de Dinamarca Caipira ao timaço de Limeira. Era pouco. A Inter naquele ano levaria a Taça de Invictos e teria meio time na seleção do campeonato. Pepe, o Canhão da Vila, era o treinador. 


Em nome de José Rico, vamos trocar a audaxização e redbullização do futebol por times de verdade como Inter, Independente de Limeira ou União Barbarense. Um pouco de Brasil, por favor!


Lembremos do boleiro que jogou bola em José de Belmonte, PE; Douradense, MS; Fátima do Sul, MG; e, finalmente, Terra Rica, PR, cidade onde desistiu da cancha e virou cantor. Com voz potente e uma grande paixão. Nosso boi cego.


Lembremos da lendária Estrada da Vida, que virou filme nos olhos do precursor do Cinema Novo Nelson Pereira dos Santos.


Lembremos de um cara que era tão maluco por Limeira que deixou um castelo com cem quartos na cidade. Tudo isso misturado a suas tentativas de ser investidor no futebol e político (o que talvez não precisemos manter na memória).


A infância de Zé Rico não teve apenas a música sertaneja como porto. A vida curta em Pernambuco lhe ensinou o samba de breque, Roberto Carlos e, principalmente, Luiz Gonzaga, a maior influência do Garganta de Ouro.


José Rico extrapolava os meios musicais, futebolísticos e o que fosse. Ele era o Brasil e reafirmava isso como podia, em sua arte ou na sua vida. 


Foi a voz de uma geração de trabalhadores que surgia nos anos 1970. Houve apoio à ditadura? Nos anos 1980 a dupla estava tocando na China comunista. Aqui o problema era mais embaixo, mais vasto, complicado e verdadeiro. Sem golpe e distinção. O papo era música. E futebol.


Na bola, foi por mais de cinco anos jogador do time veterano da União Agrícola Barbarense, clube que um dia teve Armelino Donizetti Quagliato, o Zetti, no gol.


Além de suas virtudes como atleta, levou, como diretor, a equipe de Santa Bárbara para a primeira divisão paulista em 2013.


Em Ubiratã-PR, joga-se já há dez anos a excelentíssima “Copa José Rico Zumm de Futebol Sênior”. Nada mais memorável. Ele é o rei.


Por fim, outra coisa que aperta a lembrança é quando chegávamos no meio do salão daquele bordel escuro do interior e podíamos dançar sozinho ouvindo as melhores modas da dupla, com uma luz vermelha enorme nos iluminando e um copo de cerveja na mão.


Nada melhor do que ser levado por uma dançarina imaginária ao som de qualquer sucesso dos Gargantas de Ouro do Brasil. Um exercício fundamental para um homem qualquer. Um maluco embriagado por aqueles ares de puro amor. Não dá para reduzir a música deles a esses inferninhos, mas era o detalhe necessário para a noite ser mais apaixonante - seja em Valinhos, Vinhedo, Americana, Limeira, Santa Bárbara - onde nosso coração deixar.


Por aqui, uma luz vermelha também se apaga, em respeito à memória de José Rico, do Independente de Limeira e da União Barbarense. Um leão e um galo que lutam para voltar a seus dias melhores; e um cantor que, onde quer que esteja, está torcendo para que isso aconteça. Pois como lembra a canção de seu primeiro disco, de 1973, “de longe, também se ama”.


RICARDO MORAIS E ALEXANDRE XAVIER SÃO DONOS DO SITE R.I.P. FUTEBOL CLUBE, EM MEMÓRIA DO FUTEBOL BRASILEIRO, ESPORTE QUE INFELIZMENTE TAMBÉM NOS DEIXOU, JÁ QUE FUTEBOL MODERNO NÃO É FUTEBOL

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