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'O Bom Filho' retrata a mente do assassino como um labirinto interminável

Romance da escritora coreana You-jeong Jeong absorve referências do cinema para tratar de um tema mórbido

Vinicius Jatobá*, Especial para o Estado

05 de outubro de 2019 | 16h00

O Bom Filho é um extraordinário exemplo de como a narrativa audiovisual, para muitos adversária ferrenha do ato de leitura, pode ter uma influência construtiva na literatura: uma economia no uso das descrições das ações mais banais, como abrir uma porta e atravessar uma rua e se alimentar e se locomover, e uma expansão da prosa na descrição gráfica de momentos chocantes, que, no caso do ótimo romance de You-jeong Jeong, escritora sul-coreana, são atos violentos e assassinatos.

O protagonista de O Bom Filho acorda sem lembranças claras de sua noite anterior: ferido, em um cômodo repleto de sangue. Logo Yu-jin descobre o corpo de sua mãe; há marcas de uma briga, a impressão de assassinato em defesa própria. A família se envolve, a polícia. As descrições do que acontece no romance são econômicas; o que ocupa a narrativa, de forma majoritária, é a dúvida crescente em Yu-jin de que ele próprio é mesmo o assassino, e a partir daí uma busca pelo verdadeiro assassino se inicia. 

Um grande porém da sociedade contemporânea é seu fascínio pela figura do serial killer, tentando encontrar uma complexidade inflacionada na figura do assassino. Não é fácil matar; logo é complexo assassinar; e esse binômio algo frágil encontra eco profundo na arte narrativa do cineasta norte-americano David Fincher (Seven; Zodíaco), Bong Joon-ho (Memórias de um Assassinato) e Kim Jee-woon (Eu Vi o Demônio). O romance de You-jeong Jeong compartilha essa fascinação: a mente do assassino como um labirinto interminável.

O gênero thriller funciona com uma técnica complexa: a resposta da pergunta – nesse caso “eu matei minha própria mãe?” – é sempre a próxima pergunta, que nos grandes mestres é a mesma pergunta recobrada a partir de uma perspectiva diferente. Nisso O Bom Filho é extraordinário: a leitura é viciante, daquelas de tornar impossível abandonar o livro; e mesmo operando com as mesmas chaves de surpresa e suspense, uma inovação é que o evento incitante (para usar um termo de roteiristas) que faz a narrativa avançar é uma memória conhecida revisitada de maneira distinta. Boa parte do romance tem sua ação interrompida: presente e passado operam um contra o outro, gerando claustrofobia, uma constante sensação de indefinição.

É uma forma de narrar o thriller empregada com maestria por You-jeong Jeong que adquire economia das ações por descrições muito simples das mesmas, mas realiza algo que apenas a literatura pode fazer: um excesso de perguntas sobre si mesmo, um poço sem fundo de questionamentos, uma dimensão introspectiva. É evidente que também há sangue, e no caso de O Bom Filho certo grafismo pungente. Mas não será próspera a imaginação de uma mente que se debruçar apenas no enlevo dos solilóquios de Hamlet ou do rei Lear; faz-se necessário desavergonhado entretenimento e violência, como uma forma de arejar a mente com horrores; e para cada ser-ou-não-ser-eis-a-questão haverá sempre também um Titus Andronicus e seus horrores canibais.

*VINÍCIUS JATOBÁ É JORNALISTA E CRÍTICO LITERÁRIO.

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