O bóson de Munchausen

Alguns cientistas vêm alardeando 'descobertas notáveis' que deixariam nosso exagerado Barão inteiramente confortável

MÁRIO NOVELLO É FÍSICO. EDITOR DE , COSMOS, CONTEXTO.ORG, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2011 | 03h07

MÁRIO NOVELLO

Diferentemente de Pinóquio, que via seu nariz crescer a cada mentira que contava, o Barão de Munchausen tornou-se universalmente conhecido graças não às mentiras que contava, mas sim devido a suas extravagâncias. As histórias que Munchausen queria fazer passar como verdadeiras - com uma aparência fantástica - tinham sempre um fundo de razoabilidade. No entanto, uma reflexão ulterior sobre sua descrição de acontecimentos extraordinários logo nos levava a ponderar sobre a impossibilidade de tais fatos serem reais. Ao refletirmos sobre algumas informações que relatam a atividade científica de hoje, é quase impossível resistir à ideia de que estamos vivendo em uma era na qual o Barão se sentiria extremamente confortável e possivelmente seria até mesmo reconhecido como possuidor de qualidades notáveis de percepção e intuição. Entre essas, a mais exuberante seria sua descrição daquilo que alguns cientistas, usando diversos meios de comunicação, estão alardeando como descobertas notáveis.

Recentemente escrevi detalhes de algumas dessas situações que concernem a três exemplos notáveis, a saber, o bóson de Higgs, a aceleração do universo e a velocidade do neutrino. O que esses três processos poderiam ter em comum? Parece-me que o que os une é o exagero açodado das conclusões sobre sua posição no conhecimento científico e a precipitação sensacionalista que os levou a ser notícia nos principais cotidianos nacionais e internacionais, produzindo, cada um deles, uma "revolução na ciência".

Somente para informar ao leitor não cientista sobre alguns detalhes dessas "revoluções", devemos notar que, embora se tenha alardeado que o bóson de Higgs seria a "partícula divina" que concederia massa a todos os demais corpos do universo, até hoje o Grande Colisor de Hádrons (LHC), o imenso laboratório de US$ 10 bilhões construído no Cern (Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear), na Suíça, para exibir esse bóson de Higgs, ainda não se detectou essa suposta partícula. Por outro lado, a ideia de que a maior parte da matéria do universo estaria concentrada, sob forma desconhecida (energia escura) e estaria produzindo uma aceleração de sua expansão, não decorre de uma observação, mas de hipóteses sobre a geometria do universo que alguns cientistas estão pondo em dúvida. E, finalmente, há inúmeras críticas sobre a interpretação dada pelos autores de uma experiência realizada no Cern que concluíram ter obtido evidência de que a velocidade do neutrino excede a da luz.

A imprensa mundial está tratando essas possibilidades como se fossem certezas científicas. Assim, achei necessário chamar a atenção do público brasileiro para essas dúvidas que, embora típicas da atividade científica, estão sendo ignoradas nos meios de comunicação. Note-se que não estou afirmando que essas três propostas estejam erradas ou sejam enganosas. Tudo que podemos dizer sobre elas é que (ainda?) não são verdades científicas com comprovação teórica e observacional.

O caso do bóson de Higgs, por exemplo, é simbólico. Até meados da década de 60, os cientistas acreditavam que a massa dos corpos era uma propriedade natural. Por várias razões, ao longo dos anos 60 os cientistas se depararam com a questão: qual é a origem da massa de todas as partículas existentes no universo e por que só o fóton não tem massa? Para respondê-la, os físicos criaram um procedimento formal que recebeu o nome de mecanismo de Higgs. Na base dessa proposta encontra-se a hipótese de que exista uma nova interação da física, sendo postulado imediatamente que seu agente principal seria uma partícula que ficou conhecida como bóson de Higgs. A ela está associado um campo que se estende no espaço-tempo que serviria precisamente para conceder massa a todas as partículas que existem exceto a si mesma, criando assim o problema de autoconsistência: quem dá massa àquele que dá massa?

Independentemente dessa resposta, a comunidade internacional passou a considerar o bóson de Higgs como a verdadeira explicação para a origem da massa. Essa função foi considerada tao fundamental que um cientista, Prêmio Nobel de Física, achou conveniente chamá-la, de modo infeliz e arrogante, "partícula divina". Assim, quando recentemente os resultados experimentais parecem anunciar que, ou essa partícula não existe ou, se existir, poderia ter uma massa distinta daquela necessária para compatibilizar com as propostas originais de sua função - um jornal diário estampou o título "Deus em dificuldades", querendo se referir às dificuldades que a ideia envolvendo a "partícula divina" estaria passando, relacionadas a observações realizadas.

Talvez não devêssemos culpar o jornalista por esse delírio tropical, pois parece-me claro que a responsabilidade pelo circo montado em torno do LHC seja completa e inteiramente dos cientistas envolvidos em uma possível descrição do mundo da microfísica ainda por ser comprovada. Com o propósito de fazer as coisas voltarem ao seu normal, em uma publicação recente associada à informação e difusão das atividades realizadas no Cern são comentadas novas teorias que substituiriam a hipótese do bóson de Higgs, no caso de ele não ser encontrado ou, mesmo que exista, de não exibir a capacidade universal de conceder massa a todos os corpos que lhe foi atribuída. Em março de 2011, em uma publicação da conceituada revista Classical and Quantum Gravity foi apresentado um cenário competitivo da origem da massa de todos os corpos que existem no universo, envolvendo fenômenos gravitacionais e o vácuo cosmológico. Nessa proposta, o bóson de Higgs não teria papel fundamental e até mesmo não desempenharia papel relevante na formação da massa.

Desta brevíssima análise podemos inferir um comentário. A atividade científica merece a devida publicidade. Mais do que isso, a sociedade exige ser informada do que ocorre nos laboratórios por ela financiados. No entanto, exageros e açodamentos devem ser evitados sob pena de que, assim como os políticos já o conseguiram, os cientistas comecem também a perder credibilidade.

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