O Brasil entrevistado

O Brasil entrevistado

Reedição de ‘A História Vivida’ ajuda a ver como o País era e como poderia ter sido

Elias Thomé Saliba, O Estado de S. Paulo

25 Outubro 2014 | 16h00

Baudelaire comparava a memória a um palimpsesto - aquele pergaminho no qual se apagavam textos antigos e por cima se escreviam textos novos: você lembra da última vez que recordou um evento e, sem perceber, muda a história a cada recordação posterior. O maior prêmio que ganhamos dessa autêntica reverberação da memória é o privilégio de conhecermos a história sabendo sempre o que veio depois - o prêmio do post factum, ou como traduzia o ferino Machado de Assis, “depois do gato morto”. Como se estivéssemos numa encruzilhada brasileira de muitas direções, nossa memória também reverbera ao relermos, três décadas depois, a oportuna reedição de A História Vivida (TopBooks,1.462 págs.) - agora com a totalidade das 50 entrevistas reunidas e organizadas por Lourenço Dantas Mota. 

Realizadas entre 1977 e 1983, com intelectuais, políticos, militares, artistas, empresários e profissionais de diversas áreas, compõem um dos mais completos conjuntos de entrevistas do passado brasileiro. Sem nenhum filtro ideológico prévio, a seleção de personagens impressiona pela abrangência e pela variedade: políticos, como Tancredo Neves, Miguel Arraes, Afonso Arinos ou Fernando Henrique Cardoso; militares que transitaram pela política, como Cordeiro de Farias ou o Marechal Lott; escritores, como Jorge Amado, Tristão de Athayde ou Vinícius de Moraes; historiadores, como Caio Prado Jr. ou José Honório Rodrigues; professores, como Pierre Mombeig e Ruy Coelho; e, enfim, gente das mais diversas áreas, como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro ou Oscar Niemeyer. 

Cobrindo quase três gerações, os entrevistados revisitam episódios que compreendem o período que vai dos anos 1920 até as décadas imediatamente posteriores ao golpe militar de 1964. Juntando essa época com os anos nos quais efetivamente ocorrem as lembranças o resultado é um riquíssimo mosaico de vozes que reverberam por toda a história brasileira do século 20. Embora muito do que se pensava a respeito do País e do seu futuro já estivesse presente nas obras de alguns clássicos do pensamento brasileiro ali entrevistados, como Caio Prado Jr., Gilberto Freyre ou Celso Furtado, é sempre auspicioso surpreendê-los mais à vontade, usando chinelo e narrando suas trajetórias familiares e profissionais. Cada um deixa um diagnóstico muito particular e convincente a respeito do País. “Não vejo o Brasil em nenhuma linha suicida. O brasileiro viveu numa sociedade tão rígida que acabou por desenvolver um gênio da sobrevivência e uma inventividade à flor da pele que certamente marcará nosso futuro”, diagnostica o percuciente Celso Furtado. Ou o bom humor da boutade através da qual o incrível professor Ruy Coelho encerrava o assunto: “Meu maior medo é que o Brasil tenha um grande futuro atrás de si”.

Naturalmente, em grau bem menor do que as respostas discretas, desponta, em algumas entrevistas, um tom levemente confessional. Pois, afinal, quem negaria que o ronron desafinado de algumas anedotas não faça parte da desarmônica sinfonia das histórias de vida? É o caso da pitoresca entrevista com o jurista Pontes de Miranda, o qual, ao lado de assuntos sérios de direito constitucional, conta o curioso caso da origem do uísque President (um blend especial criado em homenagem a Júlio Prestes, que ganhou seu mandato apenas no rótulo escocês!), além de seus longos encontros com Albert Einstein, encerrando a entrevista intempestivamente porque era hora de assistir a sua novela preferida. Nelson Rodrigues também recorda as agruras da infância e da mocidade: o assassinato do irmão que ele presenciou ainda jovem; o tratamento de sua tuberculose como indigente num sanatório, e a confissão, surpreendente, de que sempre desejou escrever teatro cômico e não tragédias. “Neste país, o sujeito que faz rir é um benfeitor. E se não temos um vampiro - estejam certos - é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro”, confessou Nelson. 

Pertencentes à geração imediatamente posterior aos intérpretes clássicos da ciência social brasileira, muitos entrevistados têm pelo menos um ponto em comum: após 1964, todos eles viveram - aqui ou no exílio - duas décadas nas quais proliferou um difuso ambiente intelectual de suspeita ou pelo menos de desconfiança e de censura velada sobre como pensar o dilema brasileiro - o que, no fundo, quase obrigou - todos - a um extremo rigor nas análises e a um cuidado maior ao pensar nos diagnósticos e soluções. Até que ponto prevaleceu entre nós a prática de uma política social remediadora, centrada na gestão burocrática da pobreza como pilar básico das políticas sociais? A essa pergunta candente, que reverbera na memória social brasileira, o denso painel de pensadores pode não oferecer respostas, mas é suficiente para o leitor compreender não apenas como era o Brasil, mas também muito daquilo que ele não foi e poderia ter sido. Esse sim, é o maior prêmio à superação do nosso esquecimento coletivo. Aliás, algo facilmente perceptível para um dos mais argutos entrevistados, Pedro Nava - o mais memorialista dos escritores brasileiros - ao concluir: “Quando vamos pescar alguma coisa nesse oceano sem fundo que é a memória, o anzol já vai molhado do presente”. 

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Elias Thomé Saliba é professor da USP e membro da Associação Internacional de Historiadores do Humor. Autor, entre outros livros, de Raízes do Riso (Companhia das Letras)

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