O Brasil te perdoa, bebezão!

Dizer que Ronaldo reclama de barriga cheia pode dar a falsa impressão de que aqui se pretende chamá-lo de gordo, justo quando não vem ao caso destacar que protuberância evidente é aquela no perfil do Fenômeno. Não! Não é isto que pesa na consciência da sociedade sempre que, como agora, dá colo ao moleque levado de Bento Ribeiro. Nananeném! Ele sempre volta pra casa assustado - com aquela carinha de "não fiz nada" - quando vê a coisa preta, no sentido que bem entender o leitor. O Brasil adora este seu primeiro Ronaldinho, a ponto de nunca acusar seus defeitos e todas as esquisitices que o perseguem. Ele não é como Edmundo ou Romário, não senhor! Nem se compara a Adriano, o Imperador. Ronaldo é o filho problemático preferido não só dos brasileiros, o planeta o adotou. Que outro embaixador da Unicef - fundo das Nações Unidas para a infância -, pego num motel com três travestis já não teria entregue seu cargo com um pedido de desculpas às crianças de todo o mundo? Só com Ronaldo uma barbeiragem moral desse porte desperta, além de muita piada de salão, um certo sentimento coletivo de pena. Coitado, não sabia, está com esse problema todo no joelho, em crise com a namorada, feliz com o Flamengo, precisava extravasar e coisa & tal.Perdoamos Ronaldinho por nada, não senhor. Mesmo quando não há o que dizer a favor, neguinho é capaz de formular raciocínios incompreensíveis em defesa do inacreditável. No episódio desta semana, o delegado titular do caso, Carlos Augusto Nogueira Pinto, cheio de boas intenções, inventou a seguinte linha de investigação: "Eu não conheço o Ronaldo e isso é mais um indício de que a história dele pode ser verdadeira". Como se o fato de não conhecer o dr. Pinto conferisse ao jogador atestado de bons antecedentes sexuais. Ninguém em volta achou aquilo estranho. Nem engraçado!O problema é que, por mais mentirosas que sejam as versões dos travestis - e são mesmo! -, não há uma boa história que se possa contar a favor do Fenômeno passada na madrugada da última segunda-feira naquele motelzinho sem-vergonha da Barra da Tijuca. Não dá, desta vez, para culpar o médico da seleção ou os ciúmes da loura. Sobram sempre as perguntas básicas que todos se fazem: como é que um cara desses faz uma lambança dessas? Ainda que fosse com homem, mulher, cabra, galinha, cachorra... Convencionou-se dizer na adversidade que "é muita coisa na cabeça desse rapaz". Foi assim na trágica final da Copa da França ou no desastroso conto de fadas com Daniela Cicarelli em castelo do Vale do Loire. Não haverá de ser diferente na trapalhada que o levou, braços dados a micheteiros de beira de estrada, à crônica policial do noticiário. O Brasil vai absolver seu bebezão de novo.Dizem que ele passou os últimos dias deprimido em sua mansão cinematográfica de Angra dos Reis. Tolinho! Não consegue ver o menino de sorte que é.Dono do CearáO Ceará não chega a ser a casa da sogra porque tem lá dois deputados de oposição ao governo Cid Gomes. Muito mais surpreendente do que o hotel de Edimburgo, onde a mãe da primeira-dama chegou em aviãozinho alugado com dinheiro dos paus-de-arara, foi descobrir através dessa notícia que a situação no Ceará é dona de 46 das 48 cadeiras da Assembléia Legislativa. Assim é mole fazer agrado até à sogra.Q-QI-sso?A discussão acadêmica no Brasil mudou de foco. Em vez das latas de lixo eletrônicas do reitor da UnB só se fala agora no torpedo politicamente incorreto detonado em plena Salvador pelo coordenador do curso de Medicina da Universidade Federal da Bahia. Antônio Dantas mirou no baixo rendimento de seus alunos nas provas do Enade e disparou à queima-roupa: "O baiano toca berimbau porque só tem uma corda. Se tivesse mais, não conseguiria". Só não precisou correr porque na Bahia é ruim de arrumar alguém para correr atrás.Pior que o nossoO engenheiro aposentado austríaco Josef Fritzl assumiu esta semana a ponta isolada no ranking mundial de crueldade doméstica, modalidade de violência que vinha sendo liderada com folga pelo Brasil desde a noite de 29 de março. Fritzl foi, ao mesmo tempo, pai, madrasta e terceira pessoa no terrível caso de cárcere privado a que submeteu a própria filha seviciada por mais de 20 anos no porão da casa da família. A barbárie chocou o mundo, inclusive o Brasil, mas aqui deixou uma certa sensação de alívio: tem, sim, coisa pior lá fora.Todos por umO deputado Paulinho da Força já faz por merecer um leito cativo no "Ambulatório da Notícia". Nem tanto pelas denúncias contra ele - já se viu coisa pior emergir do sindicalismo. Preocupante foi sua reação ao flagrante. Diz ele que "Paulinho", assim como consta do documento que a Polícia Federal enviou à Justiça sobre o escândalo no BNDES, "pode ser eu, como milhares de outros". Isso não tem cura!

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.