MARIA MAZZILLO/FLIP
MARIA MAZZILLO/FLIP

O brilho tardio de um inventor literário, Gustavo Pacheco

É raro que uma estreia aos 46 anos alie a esperada maestria técnica a tanto frescor, mas é o caso de seu livro 'Alguns Humanos'

Ronaldo Bressane *, Especial para o Estado

11 Agosto 2018 | 16h00

O que é melhor, estrear cedo como Rimbaud, inventar a poesia moderna e aos 21 anos trocar a literatura para negociar escravas brancas, ou começar só aos 50, como Raymond Chandler, que virou escritor depois que perdeu o emprego numa refinaria, mas acabou consolidando o romance policial como gênero? A literatura está cheia de garotos prodígios que não vingaram ou que foram fenecendo, e de escritores que começaram tarde mas mantiveram uma linha ascendente até o fim. Também há os que se mantiveram numa linha implacavelmente ótima a vida toda, como Verissimo. Literatura não é corrida de cavalos, então esta parece ser uma falsa questão: tanto faz quem larga no pelotão da frente como quem começa na retaguarda. De todo modo, é raro que uma estreia tardia alie a esperada alta maestria técnica a tanto frescor inventivo. É o caso de Alguns Humanos, do carioca Gustavo Pacheco, 46 anos, talvez o melhor livro de contos lançado em 2018. 

 Diplomata de carreira desde 2006, Pacheco foi responsável pelo estande nacional na Feira do Livro de Buenos Aires e mediou o programa Destinação Brasil, da Feira de Guadalajara. Cientista social de formação, realizou trabalho de campo sobre cultos afro-brasileiros e cultura popular no Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais. Sambista por vocação, integrou o movimento que revitalizou a música da Lapa carioca nos fins dos anos 1990 e fundou o super muvucado Cordão do Boitatá. Tradutor bissexto desde 2013, ao organizar e verter para o português as crônicas Aguasfuertes Cariocas, de Roberto Arlt, traduziu ainda Julio Ramón Ribeyro e Patricio Pron. Portanto, mesmo que seu livro tenha chegado quase aos 50 anos, a biografia de Pacheco converge para a arte e a literatura – caminho coroado por sua participação na última Flip. Flertes com narrativas hispânicas, samba e antropologia estão presentes nas ficções saborosas de Alguns Humanos, cujo sopro de novidade sobre a literatura contemporânea se dá na sutil aproximação com o fantástico e a literatura de imaginação – o que é uma felicidade, em tempos saturados por autoficção e narrativas baseadas no documento e no testemunho. Por e-mail, o Aliás conversou com o autor.

Um certo personagem seu diz: “Eu escrevo para ser amado”. E você, para que escreve?

Respondo com uma frase do escritor argentino Fogwill: “Escribir me parece más fácil que evitar la sensación de sinsentido de no hacerlo.”

A sua literatura puxa muito para a imaginação, em contraponto à atual onda de literatura realista de testemunho. A ficção brasileira anda sufocada pelo apego à realidade objetiva?

Fico feliz de ouvir que a minha literatura puxa muito para a imaginação. Um dos personagens do Rubem Fonseca uma vez disse que “o sujeito só pode ser considerado um bom escritor quando consegue, primeiro, escrever sem inspiração e, segundo, escrever só com a imaginação.” Eu atendo ao primeiro quesito, mas tenho sérias dúvidas se vou conseguir atender ao segundo algum dia, porque quase tudo o que escrevo é fortemente, pesadamente “baseado em fatos reais”. Na verdade, acho que imaginação e realismo não são exatamente antitéticos, você pode fazer literatura realista de testemunho com muita imaginação. Um exemplo é O Espírito dos Meus Pais Continua a Subir na Chuva, do escritor argentino Patricio Pron, que traduzi e foi publicado este ano pelo editora Todavia. Eu não tenho tanta certeza que a ficção brasileira ande sufocada pelo apego à realidade objetiva. Talvez a minha amostragem não seja representativa, mas os últimos livros que li não se encaixam muito nesse perfil, a pegada deles não é exatamente realista. Só para citar dois: Noite Dentro da Noite, do Joca Reiners Terron e Com Armas Sonolentas, da Carola Saavedra.

Uma coisa interessante em seu livro é o espelhamento nos comportamentos automáticos de qualquer espécie, seja animal, seja humana. A biologia parece ser uma determinante em sua ficção. Por que esse fascínio por nossa condição mais prosaica?

Em primeiro lugar, esse fascínio tem a ver com a experiência mais elementar, que qualquer criança tem, de descobrir a empatia com os animais, de perceber intuitivamente que, no fim das contas, estamos no mesmo barco. Essa experiência, por sua vez, me interessa muito como metáfora para a empatia (ou para a falta de) entre os seres humanos. Por que às vezes é mais fácil sentir empatia por um chimpanzé do que por outro ser humano, por exemplo? Na verdade, sou fascinado por metáforas, analogias e todas as formas de se dizer algo de forma oblíqua, indireta, e o comportamento dos outros seres vivos oferece possibilidades infinitas de falar de forma metafórica sobre o humano e os humanos.

Nos gêmeos metaficcionais Alguns Primatas e Alguns Humanos, vemos um diálogo entre dois casais tendo por vértice a mesma mulher (triângulo que se espelha na história contada pelo homem do primeiro casal). Os contos vão sendo escritos à medida em que são contados, e ao mesmo tempo comentados e criticados. Ambos os contos demonstram como as ideias 'originais' na verdade são incorporadas de terceiros. Isso já aconteceu com você, durante a escrita?

Não sei se os contos demonstram como as ideias 'originais' são incorporadas de terceiros, mas certamente demonstram de onde vêm as minhas ideias 'originais'. A minha invenção consiste essencialmente em encontrar maneiras de combinar elementos preexistentes. Alguns Primatas nasceu de uma situação parecida com a do conto. Eu estava fascinado com os muriquis e sentia que precisava escrever uma história sobre eles, mas não sabia para onde ir. Estava conversando com minha mulher sobre os macacos, achava que conversando com ela talvez encontrasse um fio narrativo, mas quanto mais eu conversava mais me perdia em um monte de dados científicos, e acabei percebendo que o conto era justamente essa conversa, alguém tentando contar uma história sobre os muriquis.

O colonialismo é outra faceta onipresente no livro – tanto pelos animais colonizados pelos humanos, quanto por índios ou negros colonizados por brancos, ou pobres pelos ricos. É uma preocupação presente?

Sim, é verdade. Mas essa preocupação convive e dialoga sempre com a preocupação de não ser forma alguma panfletário, nem direto demais, ao falar dessas formas de opressão.

O flerte com o ensaísmo e com o conhecimento acadêmico faz da sua uma 'prosa que ensina', por trazer saberes ao leitor. Nisso imagino que concorreu muito a leitura de sujeitos como Borges, não?

Admiro profundamente Borges, mas acho que fui mais influenciado de segunda mão do que de primeira, ou seja, só fui lê-lo de verdade depois de ter lido um monte de escritores influenciados por ele. Acho que esse flerte com o ensaísmo tem a ver com uma vontade de explorar temas que me interessam de uma forma que não seja linear nem acadêmica, e de explorar os gêneros híbridos entre a ficção e a não-ficção. Muitos escritores contemporâneos que eu admiro trabalham nessa direção. W. G. Sebald é um dos mais conhecidos, não por acaso ele é citado no livro, mas há muitos outros, como William T. Vollman e Laurent Binet.

Outra face interessante do colonialismo se dá por meio da literal invasão do corpo por outros espíritos. Podemos ser governados por eles?

Explorar a fronteira entre o humano e o não-humano quer dizer também explorar a fronteira entre a consciência e a não-consciência. Como antropólogo, fiz trabalho de campo para minha tese em terreiros e casas de curadores do Maranhão, onde baixava todo tipo de entidade, e esse é um tema que sempre me fascinou. Sim, podemos ser governados por espíritos, mas é claro que sempre haverá visões divergentes sobre o que são esses espíritos, e essa ambiguidade me interessa muito.

Pesquisa detalhada é um elemento fundador de seus textos. Como é seu processo de escrita? 

O meu processo de escrita não é nem um pouco prático. Meu maior esforço, hoje, é aprimorar o processo para torná-lo mais rápido e objetivo, pois não quero levar mais sete anos para publicar outro livro. Os contos de Alguns Humanos demoraram muito tempo para serem escritos, porque quase todos começaram com uma ideia que ficou hibernando na minha cabeça durante um bom tempo, às vezes por mais de vinte anos, antes de chegar ao papel. Em geral eu parto de alguma obsessão, que pode ser uma história verdadeira que li ou ouvi em algum lugar, ou um interesse por um tema específico, e leio compulsivamente sobre o assunto até que, por uma espécie de saturação, começa ficar mais claro como a história deve ser contada

Contam muitas coisas horripilantes? Você usa? Não costumo cutucar as pessoas em busca de histórias, mas quando elas caem de repente na minha frente e me impressionam, por qualquer razão, procuro guardá-las. Não anoto muito, pois acho que, se a história for realmente impressionante, ela acaba registrada de uma forma ou de outra na memória, mas às vezes anoto frases ou expressões que ouço por aí. Essas histórias podem ser horripilantes, mas também podem ser cômicas. Por exemplo, Deus Não vai Se Incomodar é inspirada numa história que ouvi de um amigo numa conversa de bar há 15 anos .

“Você acha que Alguns Humanos vai chamar a atenção de alguém?”, diz uma personagem. Como chegou a este título? 

Esse título surgiu como uma brincadeira, já que muitos dos contos que aparentemente falam de macacos, formigas e outros bichos, na verdade estão falando de humanos. Acabei gostando da ideia de que o título fosse algo despretensioso

 * Ronaldo Bressane é escritor e jornalista, autor do romance 'Escalpo', entre outros

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.