O cão sem plumas

Como todo labrador, ela é cordial e muito meiga. Ainda assim, a Dara é um outro tipo de gente

Fred Melo Paiva, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h49

Dara é uma pessoa de alma velha. Diz-se isso sobre aquele sujeito que parece já ter nascido pleno de sapiências variadas. Esse tipo aí, curtido e calejado nas vidas passadas, está desprovido de angústias e ansiedades. Ainda que porventura o mal do espírito o acometa, o possuidor de uma dessas almas de brechó jamais expõe no varejo suas agruras interiores. O sujeito de alma velha é um resignado e mudo, um elegante e discreto, firme, mas ponderado. Parece ter escrito, muito outroramente, todos os ditados do mundo: do recorrente e infalível ''Quem fala demais dá bom-dia a cavalo'' (Dara nunca fala, quer dizer, nunca late, nem mesmo para os eqüinos, alvos comuns da blasfêmia canina) até o moroso ''Devagar com o andor, que o santo é de barro'' (este Dara tem seguido ao pé da letra, levando a passo de tartaruga sua milionésima vida de cachorro). Abstendo-se sempre de ir com muita sede ao pote, o sujeito de alma velha está livre, ao menos no campo da metáfora, de ejacular precocemente. Nesse ponto (G), o caso de Dara é literal: no seu dicionário fuleiro não existe a palavra ejaculação, visto que Dara jamais deu uma trepadinha. Agora não adianta reclamar: Dara está caidaça, incapaz até mesmo de uma bolinada tântrica. Veterana do Corpo de Bombeiros de São Paulo, acaba de se aposentar por tempo de serviço. Poderia ser também por invalidez, já que se encontra crônica e gravemente doente. Dara tem somente 8 anos. Mas não apenas sua alma é velha - Dara, coitadinha, está velha por completo, da pata dianteira à base do rabo.Apesar da decrepitude de sua pessoa física, Dara é uma heroína recente das tragédias acontecidas em São Paulo. Especializada em localizar seres humanos soterrados sob lama, terra ou escombros, ela foi decisiva no resgate dos corpos das sete vítimas do desabamento na obra da Linha 4 do Metrô, em janeiro do ano passado. Por causa desse feito, Dara recebeu do governo estadual uma coleira de couro grafada com seu nome e um brasão do Estado. Seis meses depois, em julho, foi convocada para a tarefa de vasculhar a área onde caíra o avião da TAM, matando 199 pessoas. A bem da verdade, não foi somente a Dara. Sua irmã Anny também participou dos trabalhos no buraco do Metrô. Durante o resgate das vítimas do desastre aéreo (que completa um ano no dia 17), Dora, Chip e Safira juntaram-se às duas. Anny também foi condecorada no Palácio dos Bandeirantes. Também está se aposentando. Anny é uma heroína tanto quanto a Dara. Mas concentremo-nos na última, porque a vida já foi por demais generosa com a primeira, propiciando-lhe aposentadoria saudável e na casa de seu treinador, o cabo Maximiliano Panagassi. Com a Dara não: apesar de suas muitas vidas supostamente já vividas, esta tem sido, do começo ao fim, uma grande provação, o que a torna muito mais interessante. Além disso, tem a questão das almas - Anny possui uma novinha em folha, e no caso particular do cão isso significa um sujeito que baba em excesso, abana o rabo para qualquer um e se oferece insistentemente ao afago alheio, como se fosse uma cachorra no baile funk. Dara também é cordial e carinhosa, doce e muito meiga. Mas é um outro tipo de gente.Filhas de um labrador com uma golden retriever (ou uma labradora com um golden retriever, esses pormenores não interessam aos cachorros), Dara e Anny são produtos da doação de um criador particular de Cotia, na região metropolitana de São Paulo, para o canil do Corpo de Bombeiros, localizado no bairro do Ipiranga, bem ao lado do museu. Os problemas de Dara começaram quando seu treinador, um cabo que convivia com ela diariamente, foi promovido a sargento e transferido para outra região. Dara acabou ficando como aluno de escola pública, quer dizer, sem professor. Do seu ponto de vista de cachorro, no entanto, o cabo era tão somente o fiel companheiro que saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou. Dara ficou profundamente sentida (embora hoje, alma velha, conviva muito elegantemente com o ex). Desmotivada, ela passou a desprezar os comandos que já havia aprendido. Se alguém a mandava localizar alguma coisa escondida de propósito sob os escombros, ela saía solenemente para um rolê no terreno, sem jamais meter o nariz onde de fato era chamada. Por esta sua atitude de quem viu chifre em cabeça de cachorro, Dara esteve para ser ''descarregada'' - o termo usado pelos bombeiros para indicar o cão que deve ser doado, abrindo vaga para outro mais eficiente. Mas foi aí que apareceu o Clóvis, o cabo que deu cabo da dor de cotovelo da Dara.Cabo Clóvis Benedito de Souza, hoje com 31 anos, tinha servido como PM no violento bairro do Grajáu, zona sul de São Paulo. Em 1999, depois de ver três de seus colegas serem mortos em tiroteios e à paisana, pediu transferência para o Corpo de Bombeiros. Chegou ao Posto do Ipiranga em 2001, depois de fazer um curso de cinotecnia no canil central da Polícia Militar. Tinha vários cachorros para o Clóvis escolher. Mas ele gostou da Dara porque ela era ''a mais calma e a mais dócil''. Enquanto a Dara ensinava ao Clóvis como adestrar um cão, o Clóvis treinava a Dara para o trabalho pesado. Exercitavam-se em terrenos baldios e escombros de demolições. Clóvis levava consigo um brinquedo chamado Kong, que a Dara ama na mesma intensidade com que ama o próprio Clóvis. O brinquedo, em formato de cone, permite que se instale nele uma essência com cheiro de corpo humano. Tanto o Kong como o frasco com odor de gente são vendidos pelo Exército americano a forças policiais de outros países. O Clóvis escondia o Kong, a Dara ia atrás. Com o passar do tempo, ele substituiu o Kong por um ''figurante''. Por último, treinavam à noite, na chuva, os figurantes variando de sexo, cor e idade. A Dara foi se transformando num pequeno monstro farejador.Na primeira ocorrência para a qual Dara foi convocada, em fevereiro de 2003, um operário encontrava-se soterrado sob grande quantidade de terra, na divisa das cidades de Guarulhos e Arujá, na Grande São Paulo. O deslizamento fizera desaparecer uma cavidade que tinha cerca de 30 metros de profundidade, 100 de largura, 300 de comprimento. Só para remover toda a terra, seriam necessários 6 meses de trabalho. Com a ajuda de Dara e outros dos seus colegas com rabo, as buscas duraram 3 meses. Em janeiro de 2005, Dara, Anny e Samantha (por que elas têm nome de massagista de classificados?) foram levadas a um novo soterramento, desta vez em São Bernardo do Campo. As vítimas eram oito pessoas. Anny localizou os corpos de três crianças. Samantha encontrou mais duas. Dara, outras duas, além de uma mulher adulta. Todas estavam mortas. Dois meses depois, Dara e Anny resgataram o corpo de um homem no interior de um sobrado que desabara na zona sul da capital paulista. Em maio e julho do mesmo ano, dois outros corpos de trabalhadores foram localizados pelas duas irmãs em duas construções que vieram abaixo, também em São Paulo. No dia 27 de dezembro de 2006, Dara e Anny foram novamente à zona sul da cidade. No Grajaú, duas crianças estavam soterradas sob os escombros de uma casa. Em poucos minutos, elas apontaram a localização de ambas, uma ao lado da outra. Uma delas foi retirada com vida. (Anny já havia participado de outra operação em que o acidentado se salvou, em julho de 2001.) Ainda em dezembro de 2006, as duas irmãs voltaram a localizar um corpo no Jardim São Luiz, solucionando um caso de ocultação de cadáver. Em suas carreiras, Dara e Anny foram responsáveis, cada uma, por apontar o local exato onde se encontravam 13 vítimas de acidentes diversos. Jamais erraram. São os únicos cães farejadores do Brasil a salvar a vida de alguém.O último trabalho de Dara foi no acidente do vôo 3054 da TAM. Há seis meses, uma hérnia de disco cervical surgiu na região do seu pescoço. O problema afetou a estabilidade de sua pata direita. Ao tentar apoiá-la, Dara caía de boca no chão, como se tivesse perdido o passo. Além disso, uma displasia coxofemural, doença hereditária comum entre os cães labradores, fez com que o osso de sua bacia perdesse o encaixe correto com o fêmur. A postura de Dara se alterou: ela agora mantém a cabeça quase sempre baixa, movimentando apenas o olho se quer ver o Clóvis pela grade do canil. Envelheceu muito. Teria sido sacrificada, não fosse o esforço do Clóvis e do jovem veterinário Adriano Caquetti - que tem tratado Dara à base de acupuntura nas patas e injeções de gás ozônio nos pontos lesionados. Dara assiste a tudo com a resignação de sua alma velha. Aguarda o momento em que o Clóvis vai levá-la para morar com ele. ''Há espaço para o prazer e divertimento no meio de uma constelação de situações que requerem medidas duras e severas. É importante que sua atuação aconteça nestes dois mundos, que se encontram muito bem definidos.'' A Dara é de Virgem e isso aí estava no horóscopo dela na última sexta-feira. Vai ser difícil, meu velho Quiroga: a Dara está mesmo caidinha - e só resta a ela esperar, com toda a dignidade que for possível, a sua nova encarnação.HEROÍNAAjudou a localizar vítimas nas tragédias paulistanas. Ganhou até coleira do governadorIRMANDADEAnny se oferece insistentemente ao afago alheio, como se fosse cachorra em baile funkTREINAMENTOO brinquedo permite que se instale nele uma essência de corpo humano

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