O carro ou a vida

A liberação pela Secretaria de Segurança dos novos números da criminalidade em São Paulo provocou vários artigos na imprensa. A maioria limitou a análise a fatos dispersos ou extravagantes, mas alguns conseguiram captar as novas tendências, que revelam um pouco do que nos aguarda. E o fato isolado mais significativo é que no último trimestre o roubo de veículos ultrapassou o furto na capital. Isso já havia ocorrido em 2012 e é consequência de algumas mudanças graduais no mundo do crime.

GUARACY MINGARDI, GUARACY MINGARDI É DOUTOR EM CIÊNCIA , POLÍTICA PELA USP, MEMBRO DO FÓRUM , BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2014 | 02h09

Uma delas é econômica, provocada pelas leis de mercado. O crédito fácil fez com que o cidadão comum partisse para a compra do carro novo. Os mais velhinhos foram aposentados e a frota, renovada. Portanto, os desmanches perderam espaço.

Houve época que o Fusca e a Brasília eram os carros mais furtados. Por causa disso seu seguro era caro demais, ninguém bancava. A maioria se contentava em pagar estacionamento, pôr alarme e trava na direção. Com o tempo isso ocorreu também com o Gol, o Fiat 147, etc. O motivo da preferência dos ladrões era que as peças dos carros velhos valiam muito no mercado paralelo. Eles eram furtados, desmanchados e as peças iam rapidamente para as prateleiras dos desmanches. O consumidor financiava o crime.

Agora que esse comércio já não dá tanto dinheiro o negócio é ir atrás do veículo novo, para esquentar a documentação, alterar o número do chassi e vender inteiro. A lei da oferta e da procura complicou a vida do ladrão. Se o carro é velho o dono pode deixar meio largado, mas um carro zero vai pra garagem ou estacionamento, não fica na rua. Portanto, os ladrões passaram a roubar mais e furtar menos. Começaram a agir nos semáforos, entradas das garagens, etc. Apelando cada vez menos para a sutileza do furto e mais para a força bruta ou a arma de fogo.

A outra mudança é mais antiga. Começou bem antes do crescimento econômico, e tem relação com uma alteração gradual no perfil da criminalidade. Sempre existiram ladrões que usam a violência, enquanto outros agem de forma sorrateira, preferem a manha. E a manha exige especialização e treinamento. O exemplo mais pitoresco das quadrilhas especializadas vem de François Vidocq, fundador da polícia investigativa francesa. Segundo ele, algumas quadrilhas aprimoraram uma técnica que consistia em pescar, com linha e anzol, as perucas das pessoas que passavam em carruagens abertas.

No Brasil o ladrão mais manhoso foi, sem dúvida nenhuma, o punguista, o batedor de carteira. Ele era habilidoso, treinava durante anos e se gabava de agir sem ser percebido. Outro tipo clássico foi o ventanista, o sujeito magrinho que entrava numa casa pelas menores frestas da janela e levava tudo que podia carregar. Nenhum deles andava armado.

Foram substituídos pelos grupos que cercam e espancam a vítima para roubar a carteira e o celular, ou por ladrões que invadem a residência e passam horas ameaçando os moradores. Quase sempre portadores das armas de fogo que circulam em grande escala no submundo. Quando não têm armas, utilizam a força bruta. São fruto de uma carreira rápida, que não exigiu longo aprendizado.

Os números mostravam essa tendência desde os anos 1990. Até os 80, a grande maioria dos carros era furtada. A vítima nem via o ladrão. Aos poucos, ano a ano, os números foram se aproximando, mostrando que o modus operandi dos criminosos estava se alterando, ficando mais brutal. Portanto, o aumento da violência não é nenhuma novidade, apesar de preocupante. Afinal, quanto maior o número de roubos, maior o risco de alguém ser morto ou ferido. O aumento do latrocínio comprova isso.

Um fato curioso, revelado por policiais civis entrevistados, é que muitas vezes o objetivo do roubo nem é o veículo em si. O ladrão age no semáforo, por exemplo, e está de olho apenas no celular ou no relógio da vítima. Fica com o carro para garantir a fuga. Inúmeras vezes o abandona a poucas quadras do local do crime. Mais uma prova de que não é qualquer carro que vale a pena roubar.

Nos outros crimes contra o patrimônio a tendência é a mesma, mas a mudança é mais difícil de mensurar. Nem todos os crimes entram para a estatística. Quando alguém leva o carro, a vítima normalmente presta queixa; afinal, precisa do boletim de ocorrência para o seguro. Se for um bem menos valioso muitos nem se dão ao trabalho. Afinal, sabem que a possibilidade de ver o ladrão preso ou recuperar suas coisas é remota.

Quanto ao ladrão, já que não tem um longo aprendizado para poder exercer seu métier, migra de um crime violento para outro rapidamente. Normalmente começa seu curto aprendizado assaltando transeuntes perto de casa. Depois segue carreira, rouba motoristas, veículos ou mesmo bancos.

Essa é a tendência atual. Tem a ver com o preço dos veículos, a impaciência dos ladrões e a facilidade com que conseguem armas de fogo, mas nada fica parado. Há cerca de 2.500 anos, Heráclito de Éfeso disse uma daquelas frases de efeito que costumamos atribuir aos filósofos gregos. Segundo ele "nada é permanente, exceto a mudança".

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