Werther | ESTADÃO CONTEÚDO
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O caseiro da mesquita: uma história de tolerância religiosa

Nascido em Alagoas, filho de mãe católica e casado com uma evangélica, ele se converteu ao Islã e foi à cidade de Meca

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2016 | 16h00

“Lá vem o homem-bomba”. Não é difícil que Cícero Soares da Cruz, 68 anos, ouça esse tipo de comentário quando vai estacionar o carro da mesquita em algum ponto da cidade. Normalmente, ele finge que não ouve e segue em paz com as obrigações do seu ofício e religião.

Há 17 anos, Cícero trabalha como caseiro da Mesquita Brasil, a maior da América Latina, localizada no bairro do Cambuci, em São Paulo. Como tal, transformou-se no faz-tudo do lugar. Ele é o responsável pelas compras do mês, por pequenos consertos elétricos, pela equalização do som durante as cerimônias religiosas e por resolver todo e qualquer imprevisto ao longo do dia. Desde 2008, Cícero converteu-se ao islamismo e, no ano passado, realizou o sonho de fazer a peregrinação à cidade de Meca, na Arábia Saudita – dando, assim, as sete voltas ao redor da Grande Mesquita.

Mas antes de Cícero cumprir sua obrigação como muçulmano, vamos encontrá-lo ainda criança, na pequena cidade de Palmeira dos Índios, em Alagoas. O pai era um homem da roça, trabalhador braçal, sem tempo para “gastar” com religião. A mãe também era da lida, feirante, mas temente a Deus e Católica. Foi da mãe que Cícero herdou sua primeira religião.

Na adolescência, Cícero foi achando que Palmeira dos Índios ia ficando cada vez mais árida. O irmão mais velho já estava em São Paulo e havia passado da hora de tomar o mesmo ônibus em direção ao futuro. Ao desembarcar na velha rodoviária, no final dos anos 60, tomou um susto com o tamanho da cidade – mas também sentiu o prazer de estar solto no mundo.

Cícero foi morar com o irmão que já estava estabelecido por aqui. Por influência dele, começou a trabalhar como metalúrgico e frequentar a Igreja Presbiteriana. Foi do irmão que herdou, portanto, sua segunda religião.

Para conseguir uma melhor condição de sobrevivência em São Paulo, matriculou-se em um curso supletivo (na época, sabia apenas escrever o próprio nome). Nas aulas, aprendendo o básico do português, conheceu Filomena, a Filó – que também fazia o mesmo curso supletivo. Os dois se apaixonaram e não esperaram tempo demais para juntarem os trapos. Como casal, frequentaram a Congregação Cristã do Brasil e abriram uma pequena loja de roupas.

Quando tudo parecia bem encaminhado na vida de Cícero e Filó, a loja de roupas foi invadida e todas as peças foram levadas. O prejuízo foi enorme. Todas as economias do casal estavam naquele comércio. Cícero sentiu o baque de morar em uma cidade grande e insegura: estava quebrado.

A luz veio de um irmão de fé da Filó, um frequentador da Congregação Cristã. “Parece que na mesquita estão contratando, estão precisando de cozinheira”, disse o colega. Mesmo sem saber direito o que era uma mesquita, o que era um muçulmano ou o Islã, Filó foi ver se ali havia uma oportunidade. Cozinheira talentosa, não demorou para conquistar a vaga na cozinha da mesquita. A vida financeira do casal estava salva.

Enquanto a mulher trabalhava como cozinheira, Cícero defendia um troco como manobrista no centro. Mas um dia Filó chegou em casa dizendo que tinha uma vaga no trabalho dela, uma vaga de caseiro, uma vaga boa porque além do salário ainda trazia a possibilidade de o casal morar no próprio trabalho. Ou seja, na mesquita.

Cícero foi conversar, não sabia nada do islamismo, teve receio de não se acostumar. Afinal, ainda era evangélico. “Mas minha mulher também era e estava muito feliz no trabalho. Então, tentei a sorte e me apresentei para o trabalho.”

No começo, além das funções corriqueiras de caseiro, Cícero começou a prestar atenção nas cerimônias, nas palavras do sheik e nas festas de encerramento do Ramadan. “Me senti tocado por Alá. Me senti pertencendo àqueles rituais e entendendo o que aquilo queria dizer”, conta.

Em 2008, começou a jejuar durante o período do Ramadan. “Os frequentadores da mesquita admiraram minha atitude, me apoiaram. Como eu não estava acostumado, tinha muita fraqueza durante o dia, mas Alá me tocou, me manteve firme.” Filó acompanhou o jejum do marido de perto, tentando demovê-lo da ideia no início, mas depois respeitando a opção dele. “Filó continua evangélica. Não tem problema nenhum nisso. Somos a prova de que não existe isso de conflitos entre religiões na nossa vida”, fala Cícero.

Depois do jejum, o próximo passo era realizar aquilo que todo muçulmano precisa fazer pelo menos uma vez na vida: ir a Meca.

Puro sonho, Cícero que nunca havia embarcado em um avião, que nunca havia saído do País e que era um recém-convertido, não tinha nenhuma perspectiva de fazer a peregrinação. Mas...

A direção da mesquita reconheceu em seu caseiro a vontade e a dedicação de vivenciar o islamismo, reconheceu que ali estava um homem realmente tocado pela palavra de Alá. Em 2015, Cícero ganhou uma passagem para a Arábia Saudita e, com um grupo de muçulmanos, foi para Meca. “Me disseram que o único risco do avião era a decolagem e o pouso”.

As elevadas temperaturas da Arábia Saudita fizeram com que Cícero tivesse febre nos primeiros dias. Apesar da provação, ele seguiu em peregrinação. Naquele ano, a aglomeração (3 milhões de muçulmanos) terminou em confusão e mais de 700 pessoas morreram pisoteadas. Em São Paulo, Filó acompanhou tudo pela televisão e chegou a pensar no pior. “Eu não estava próximo de onde aconteceu a tragédia. Minha peregrinação foi dura, mas realizada em paz”, comenta Cícero.

Assim, quando ouve alguém chamá-lo de homem-bomba, Cícero lamenta a ignorância e a intolerância. “Se alguém faz alguma coisa errada, se alguém mata ou se explode, não está fazendo isso em nome de Alá ou do Islã. Nossa religião não tem nada a ver com essas atrocidades”, fala. Ao ouvir esse tipo de acusação sem sentido, Cícero finge que não entendeu e segue seu caminho em paz.

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