O catequista da forma

José Mindlin assumiu a missão de convencer empresários de que design é mais que boa aparência

Júlio Moreno, O Estado de S.Paulo

07 de março de 2010 | 01h17

O muito que se falou do legado de José Mindlin, na semana de seu falecimento, ainda é insuficiente. Uma faceta pouco divulgada de sua múltipla biografia foi a de pioneiro - e por muito tempo, voz isolada - da defesa do desenvolvimento do design nacional.

Unindo seus conhecimentos de dono de indústria com a sensibilidade de intelectual, Mindlin se autoimpôs o papel de "catequizador" de empresários e governantes sobre a importância de o Brasil criar produtos com características próprias e, ao mesmo tempo, funcionais. "A cada nova exposição ou premiação eu prosseguia minha catequese. Sou um agnóstico que acredita na catequese. E esse tipo de pregação exige perseverança", me disse ele em entrevista no final dos anos 90.

O gosto pelo assunto veio da juventude. Criado num ambiente culturalmente requintado, em seus primeiros tempos de vida profissional, como jornalista e advogado, ele já admirava os objetos que se distinguiam por sua beleza. Mas foi quando fundou a Metal Leve, com pouco mais de 30 anos, que ampliou sua visão. Mindlin estava entrando no mundo industrial e, ao entender a importância da tecnologia num produto, percebeu que "o design era mais do que aparência, era um componente do planejamento do produto para lhe dar maior eficiência e menor custo. Portanto, parte da tecnologia".

Nos anos 50, ao assumir a diretoria de comércio exterior da Fiesp, ele começou a "catequização" entre os pares. Na época, o Brasil era fundamentalmente um país importador de produtos manufaturados e Mindlin se alinhava entre os que insistiam na necessidade de exportarmos mais, algo que só viria a começar a ser feito nos anos 60. "O design, de início, não era parte disso, mas logo se verificou que para o Brasil exportar de uma forma competitiva tínhamos mais barreiras a vencer que o preço. O design também conta, não só a aparência, mas o aspecto funcional do produto."

Em 1963 foi criada, no Rio de Janeiro, a primeira escola de design brasileiro, a Esdi (Escola Superior de Desenho Industrial), mas não havia muito campo de trabalho para seus formandos. As empresas interessadas no design, mas igualmente preocupadas com a rentabilidade, ou compravam no exterior ou copiavam. "Não havia a convicção de que o design é o custo para rentabilizar e fortalecer a marca."

Quando secretário da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, em meados dos anos 70 (governo Paulo Egydio Martins) , José Mindlin promoveu uma maior ligação entre Estado e indústria nesse campo. Criou o Prêmio da Boa Forma e promoveu vários estudos de prospecção do design no Brasil e no exterior. Também firmou um convênio com a Fiesp (então presidida por Theobaldo de Nigris) para a constituição do Núcleo de Desenho Industrial (NDI), que na gestão Luis Eduardo Bueno Vidigal Filho seria incorporado ao Departamento de Tecnologia da entidade, reforçando os laços entre o design, a inovação tecnológica e a modernização industrial. Nessa época, Mindlin já contava com aliados como Luis Villares e Dílson Funaro.

Em 1984, sob a presidência de Mindlin, a Fundação Bienal promoveu Tradição & Ruptura, a primeira exposição a dedicar um espaço ao design brasileiro, com curadoria de Joice Joppert Leal e Luiz Cruz, ambos do NDI. "Aquilo surpreendeu positivamente o público e nós mesmos. Constatou-se que os esforços isolados estavam dando resultado. Já estávamos produzindo objetos com funcionalidade, beleza e simplicidade." A partir daí, os resultados da "catequização" começaram a aparecer com os avanços obtidos em algumas áreas como a aviação, o mobiliário, a cerâmica, a arte gráfica e o cristal.

Do ponto de vista pessoal, as aplicações do design na madeira e no cristal eram as que mais lhe interessavam. A paixão pelos livros despertou também seu gosto pelo desenho gráfico e por tudo que é impressão. Mindlin dizia aos editores amigos que o livro bonito não é mais caro e vende mais. Bonito não só pelo aspecto estético da obra, mas também pela tipologia legível, a facilidade com que ele se abre e pode ser folheado, o papel utilizado e outros aspectos relacionados ao design. "Um livro que abre mal, ou que é difícil de ler, ou ainda tem uma cor que dificulta a leitura, não é bom. Assim como uma garrafa térmica que deixa o líquido escorrer para fora não é boa."

Uma das atrações da biblioteca que ele formou, com mais de 30 mil volumes, é o acervo de livros tidos como objetos de arte em si mesmos, independentemente do texto. Melhor ainda quando coincide que o texto igualmente tenha valor. Uma das obras excepcionais desse setor é um livro de 1499: O Sonho de Poliphilo, de Aldus Manutius. "Ele foi um grande impressor erudito que revolucionou a arte gráfica. Desenhou novos tipos, inovou nas ilustrações e até hoje o livro é um modelo de arte gráfica. É, reconhecidamente, um dos grandes livros de todos os tempos. Eu levei 30 anos para comprar um exemplar", dizia ele, orgulhoso.

Jornalista e secretário executivo da Fundação Padre Anchieta

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