O charme da 'serpente'

Saddam a comparou aos ofídios. Pois ela usou a ofensa para compor o insuperável 'estilo Madeleine Albright', que marcou a virada do século 21

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

16 de outubro de 2011 | 03h10

Madeleine Albright estava de bom humor na manhã da última sexta-feira. E não apenas porque abraçara o primo que vive em São Paulo e ela não conhecia, como contou cheia de entusiasmo, ecoando incredulidade: "Cousin Pedro, my cousin Pedro...". Não fosse esse motivo suficiente para uma dose matinal de alegria, o bom humor poderia ser traduzido num detalhe vistoso espetado no vestido marinho, na altura do ombro esquerdo: um broche em formato circular, de ouro e salpicado de pedras, representando uma guirlanda de flores. Para quem transformou em código diplomático sua formidável coleção de broches, ou "pins", para os americanos, coleção que foi até alvo de uma exposição no Museu de Artes e Design de Nova York, pode-se concluir que o estado de espírito da primeira mulher secretária de Estado dos Estados Unidos, na sexta chuvosa em São Paulo, chegava a ser primaveril.

Para Saddam Husseim, ela reservava o broche em forma de serpente. Com Arafat usou outro em forma de abelha. Putin assustou-se ao vê-la com um adereço que lembrava um míssil na lapela do tailleur, e assim, de broche em broche, a ex-representante dos EUA na ONU e ex-chefe do Departamento de Estado, cargos que ocupou na era Clinton, firmou seu estilo pessoal. De passagem pelo Brasil nessa semana, quando visitou o chanceler Antonio Patriota, jantou com Fernando Henrique e palestrou para homens de negócios, Madeleine Albright também concedeu esta entrevista exclusiva ao caderno Aliás, repassando páginas da diplomacia americana, a relação com chefes de Estado, sua visão de um mundo "mais complicado hoje, nos dias do presidente Obama, do que nos dias do presidente Clinton" e ainda opinou sobre acontecimentos recentes, como os levantes em países árabes e as manifestações populares que agitam cidades americanas. Prevê que o bordão "it's the economy, stupid", usado em campanha por Clinton, voltará contundente na próxima corrida presidencial americana - convertendo-se numa espada sobre a cabeça de Obama e num argumento de ocasião para os republicanos.

A secretária Albright, como ainda hoje é chamada, uma das personalidades decisivas do mundo que se seguiu ao desmoronamento soviético, conta a seguir histórias de sua vida, de família e de carreira, ressaltando que "ser mulher é bom e divertido" - e que o diga a boa forma de seus 74 anos. Prega que as companheiras no poder ainda se ajudem mutuamente. De Hillary Clinton, uma de suas melhores amigas, não arrisca predizer o futuro. "Num fórum sobre democracia na Polônia, no ano passado, ela nos impactou ao revelar como ficou tocada com o gesto de Obama ao convidá-la para seu governo, e como está comprometida com suas funções no Departamento de Estado. E olhe que ambos competiram pesado pela indicação democrata...", pondera. Sobre outro vulto feminino na política americana, Sarah Palin, o falsete mais estridente do Tea Party, Madeleine prefere nem comentar. Não é fatia de bolo que acompanhe seu chazinho...

Soy loca por ti, America...

"Não creio que a América Latina perdeu importância na agenda americana. As relações entre Estados Unidos e América Latina sempre foram complicadas, com vizinhos nossos reclamando da falta de atenção americana, enquanto outros reclamavam de excesso. Com o presidente George W. Bush houve de fato uma inflexão da política externa e o combate ao terrorismo, embora não fosse o único, tornou-se tema prioritário. Mas, ainda assim, não posso dizer que a América Latina ficou irrelevante. Inclusive porque as relações têm se pautado por crescente respeito mútuo. O presidente Bush, o presidente Obama, a secretária Clinton, todos fizeram visitas oficiais. Embaixadores americanos no continente formam um time forte da nossa diplomacia, a exemplo de Thomas Shannon, servindo hoje no Brasil. Shannon foi inclusive chamado de volta para ocupar o posto de subsecretário de Estado, porém a própria secretária Clinton reconheceu que seria mais importante ele ficar no Brasil.

Brics, falando sério

"Como sabemos, essa é uma sigla criada por Jim O'Neill, do Goldman Sachs, levando em conta basicamente aspectos econômicos. O grupo de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China logo ganhou ressonância, mas, falando aqui francamente, esses países são muito diferentes entre si. O Brasil é uma democracia com população do porte da americana e bem diferente da Rússia, país que, a meu ver, tem tido alguns retrocessos. E bem diferente da Índia, a maior democracia do mundo, que hoje joga um papel relevante na cena global. E por fim há a China, diferente de todos. Como é que vão funcionar juntos? Não sei, hoje nos deparamos com esse tipo de dúvida no sistema internacional. Durante quase meio século lidamos com um sistema rígido, dominado pela Guerra Fria, mas no qual ficava claro quem era quem, quem estava com quem, quem trabalhava para quem. Agora não mais. Os Brics estão aí, ao mesmo tempo em que surge o G-20 denunciando a obsolescência do G-7 e do G-8.

Quase uma autocrítica

"Os tempos trazem diferentes desafios. O presidente Clinton, com quem trabalhei por anos, conduziu a primeira administração americana totalmente vivida após o final da Guerra Fria. Ali lidávamos com o desafio de ver qual configuração o mundo iria tomar. Trabalhamos duro na direção de consolidar a democracia em diferentes partes do mundo, eu diria até que esse era o escopo da era Clinton em termos de política externa. Eu me lembro que, ao chegar à ONU, em 1993, como a representante americana, acabei desenvolvendo uma teoria um tanto pessoal, sem rigor científico: havia 183 países-membros e então os dividi em quatro grupos. O primeiro grupo, maior deles, era constituído de países com regimes democráticos e assim funcionavam no sistema internacional. Até poderíamos não concordar com posições naquele bloco de países, mas eles acreditavam no sistema internacional. O segundo grupo seria formado por países independentes há pouco tempo, que ansiavam por participar do sistema internacional. O terceiro grupo, apelidados como 'the rogues' (os encrenqueiros), eram aqueles que não só não queriam participar do sistema, como pretendiam destruí-lo - Irã, Iraque, Coreia do Norte. E tinha um quarto grupo de países muito debilitados, sem infraestrutura, sem nada, como Somália ou Haiti. Evidentemente, o que eu queria era atrair o maior número possível de países para o primeiro grupo, isolando os que se dispunham a destruir o sistema. Onde foi que a estratégia se equivocou? Não levamos em consideração os 'non-state actors'. Ou seja, não me ocupei de organizações como a Al-Qaeda, nem procurei saber como funcionavam grupos terroristas. E há outros tipos de 'non-state actors', não só terroristas. Por exemplo, os empresários, as organizações não governamentais, os agentes de parcerias público-privadas, nas quais acredito muito, enfim, todos esses atores podem até complicar o jogo, mas nos ajudam a entender o funcionamento do sistema internacional. Atravessamos agora um tempo muito mais complexo, inclusive porque as pessoas não sabem ao certo como as instituições funcionam. Eis aí a União Europeia entrando numa tremenda confusão, as pessoas desconfiando das instituições financeiras, cidadãos americanos protestando contra o desemprego e aderindo ao movimento Ocupar Wall Street, enfim, tudo ficou mais confuso e difícil. O célebre bordão 'it's the economy, stupid', usado por Clinton em 1992, deve voltar com força total na próxima campanha.

As duas missões de Obama

"Tenho e não tenho laços formais com a administração Obama. Bem, somos amigos, e ele me pediu duas coisas diferentes desde que assumiu o governo. A primeira foi por ocasião do 60° aniversário da Otan. Chefes de Estado se reuniriam para discutir o papel da aliança no futuro, o que fazia todo sentido, afinal, a última vez que haviam sentado para tratar disso foi em 1999. Então o secretário-geral da organização pediu aos governantes que indicassem um representante para constituir um grupo de 12 experts, que por sua vez traçaria o novo desenho estratégico da Otan. Fui indicada pelo presidente Obama para ser a representante dos EUA e coordenadora do grupo. Assim se deu, entregamos o relatório no ano passado. A outra missão: a secretária Hillary Clinton pediu que eu coordenasse uma iniciativa chamada Partners for a New Beginning, cuja origem está no discurso que o presidente Obama fez no Cairo, em 2009. Diz respeito ao desafio americano de renovar vínculos com países de maioria muçulmana. Esse grupo, que também coordeno, vem incentivando a criação de parcerias público-privadas em alguns países. Você sabe, o mundo muçulmano não é inteiriço, nem modelar. Ele tem um formato na Turquia, outro na Indonésia, outro no Egito, outro em Gaza, outro no Norte da África. Lidamos com muitas nuances.

Nem primavera nem outono árabe

"Que confusão, fala-se em primavera quando a época dos eventos é outonal... Eu prefiro dizer que há um 'despertar árabe'. Aqui também vou falar de outra instituição a que pertenço. Lidero o board de uma instituição chamada National Democratic Institute (NDI), que vem de um endowment para o fortalecimento da democracia criado pelo presidente Reagan. Trabalhamos para dar apoio a democracias, e não para impor democracias. O NDI começou a operar no Chile, dando suporte à 'Campanha do Não' (que impôs em 1988 a derrota de Pinochet em referendo popular, quando o general pretendia estender sua permanência no poder), depois estivemos em outros países latino-americanos, no Leste Europeu e agora temos mugente acompanhando o despertar árabe. Tenho recebido muita informação de lá. Pois bem, o que há de comum entre aquele episódio inicial de imolação de um tunisiano e as erupções populares que se seguiram? O ponto em comum é que o povo está se levantando contra governos que lhes roubaram a dignidade. São mulheres e homens jovens sem trabalho, sem perspectiva, sem futuro, que hoje trocam informação pelas redes sociais, vivendo em países com processos de desenvolvimento distintos. A Tunísia tem uma infraestrutura até razoável, com a qual se pode trabalhar. No Egito, há que se lidar com a presença militar. Na Líbia, em compensação, não existe nada entre Kadafi e o povo, vazio total. Através do NDI levantamos muitas perguntas: como esses países se relacionam entre si? Por que o Egito, que é o mais estruturado entre eles, não assume uma posição de liderança e coordenação na área? Que papel vai jogar a Arábia Saudita? Algo que me incomodou foi a maneira como a imprensa americana cobriu o despertar árabe, na base do 'quem vence e quem perde'. Não se trata de partida de futebol com resultado e tempo para terminar. Será um longo processo.

Secretárias de Estado, entrelaçadas

"Há dois anos, minha neta caçula tinha 7 anos e saiu-se com esta: 'Grande coisa vovó ter sido secretária de Estado... Só garotas são secretárias de Estado!' Claro, ela se referia a Condoleezza Rice e Hillary Clinton, manifestando uma visão diferente da que se tem sobre a avó, lembrada por ter sido a primeira mulher no cargo. Quando cheguei ao Departamento de Estado, eu mesma me fiz a pergunta se de fato uma mulher poderia assumir tal função. Posso lhe contar outra história: eu me graduei no na universidade em 1959 e me casei três dias depois da formatura, com um jornalista. Mas também queria ser jornalista. Nós nos mudamos do Missouri para Chicago e, num jantar com o chefe do meu marido, editor de um jornal local, ele se voltou para mim e perguntou: 'E você, honey? O que vai fazer em Chicago?' Respondi que pretendia ser jornalista. O sujeito foi categórico: eu não poderia trabalhar na mesma redação do meu marido e nem na concorrência. 'Você deve escolher outra coisa, honey', determinou. Foi o que fiz. Fui atrás do meu caminho, lentamente, até consegui um Ph.D. O primeiro emprego importante só veio quando eu tinha 39 anos, assessorando o senador Edmund Muskie, secretário de Estado de Jimmy Carter. Ou seja, fiquei longo tempo pelas beiradas. Devo muito a Hillary Clinton e aqui vai mais uma história. Eu já havia mostrado capacidade na ONU e, para o segundo mandato, o presidente Clinton precisava nomear um secretário de Estado. Foi Hillary quem lhe disse: 'Por que você não nomeia a Madeleine? Ela converge com suas visões, se apresenta bem e, além do mais, você fará sua mãe feliz'. O próprio presidente contou mais tarde isso para mim. Ou seja, Hillary me indicaria para o cargo que iria ocupar depois! Isso me enche de orgulho... E você conhece a história de Condoleezza com meu pai? Então, meu pai, diplomata de formação, ensinava na Universidade de Denver. Foi ele quem a convenceu Condoleezza, sua aluna, a fazer mestrado em relações internacionais, transformando-a numa expert em história soviética. Em 1988, quando eu estava engajada na campanha presidencial de Michael Dukakis (candidato democrata derrotado por George Bush, pai) organizando os caucus, convidei Condie para participar e ela me disse: 'Madeleine, é preciso que você saiba: sou republicana...'. Daí eu rebati: 'Mas Condie, como você foi fazer isso? Temos o mesmo pai!' Veja como as três secretárias estão ligadas em suas biografias.

O legado da pioneira

"Sim, é interessante ter sido a primeira. No Departamento de Estado há um salão imenso e solene com retratos de todos os secretários. Quando meu retrato chegou, foi um choque. Tive que ir tateando, até para descobrir que regras funcionavam ou não no meu caso. Me vem à cabeça um caso curioso: nunca uso calça comprida no trabalho, mas numa ocasião, em visita à Guatemala, fui convidada para um almoço no rancho do presidente. Piquenique de domingo, então decidi ir de calça comprida. Pois um jornal acabou comigo, dizendo que eu não tinha respeito pelo presidente. Confesso que ser mulher é algo que adoro e me diverte um bocado. Por acaso comecei a colecionar broches há anos, os mais diferentes, caros ou baratos, simplesmente porque gosto deles. Quando eu estava na ONU, enfrentando discussões árduas na época da Guerra do Golfo, Saddam Husseim disse horrores de mim nos jornais de Bagdá. Inclusive que eu era uma serpente. Então, numa sessões da ONU, justamente quando iríamos discutir a situação no Iraque, usei um broche em forma de serpente. E avisei que era para saudar a comparação que Saddam fizera a meu respeito. Passei a dar recados através dos broches, alguns até temerários. Num encontro com Putin, usei um broche em forma de flecha. Ele achou que tinha forma de míssil e perguntou por que eu usava uma arma como adorno. Respondi de bate-pronto: 'Porque detesto a sua política para a Chechênia!' Até hoje me surpreende aquela minha ousadia. Vocês hoje têm uma mulher na presidência, algo de que devem se orgulhar, então o que eu poderia dizer a não ser que o mundo precisa de mais mulheres em posições elevadas? Somos boas negociadores e buscamos consensos muito mais habilmente do que os homens."

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