THE NEW YORK TIMES/KAYLA REEFER
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O cineasta Gus Van Sant vira pintor e faz exposição

A convite do filho do também pintor e diretor de cinema Julian Schnabel, o autor de 'Drugstore Cowboy' mostra suas aquarelas em Nova York

Jonathan Griffin , The New York Times

13 de setembro de 2019 | 14h00

Se você perguntar ao diretor de cinema Gus Van Sant há quanto tempo ele pinta, ele dirá que ganhou seu primeiro prêmio de pintura numa exposição anual de arte em sua cidade natal, Darien, Connecticut, aos 12 anos. Ele também pode falar da influência de Jackson Pollock sobre seu estilo, quando tinha oito anos (“não foi grande coisa: era só jogar tinta numa tela que saía um quadro”). Van Sant pode ainda explicar por quê, como estudante de pintura e de cinema, deixou a pintura: “Filmar era mais difícil e tudo que eu sabia era pintar”.

Nós nos encontramos em sua modesta casa numa colina de Los Angeles. Van Sant usava camiseta escura de skatista Diamond Supply Co., calças jeans folgadas e estava descalço. Tomava um desjejum de panquecas e ovos no balcão da cozinha.

Aos 67 anos, Van Sant sempre se mostrou indiferente ao sucesso e à badalação convencionais de Hollywood. Focando seus filmes na arte experimental avant-garde, ele projetou seu nome em fins dos anos 1980 com o filme Drugstore Cowboy, seguido de Garotos de Programa, de 1991. Ambos são considerados clássicos do gênero ‘art house’ (filmes de forte realismo social nos quais a visão artística pessoal do diretor importa menos).

Após seu filme otimista Gênio Indomável, de 1997, tornar-se um surpreendente sucesso comercial e ganhar mais de uma dezena de prêmios, incluindo dois Oscars, Van Sant, então com carta branca da Universal Studios, refilmou Psicose, de Alfred Hitchcock, que não foi tão bem.

Estou aqui para ver algumas das novas pinturas que Van Sant está exibindo na Vito Schnabel Gallery, em Greenwich Village, Nova York. A exposição, intitulada Recent Paintings, Hollywood Boulevard, vai até 1º de novembro. Van Sant é a estrela solo. É a primeira vez que essa nova série é exibida.

Cinco quadros pendurados em uma parede do estúdio da casa aguardam para serem embaladas. Feitos com aquarela diretamente sobre a tela de linho cru, essas telas grandes – todas têm mais de dois metros – são estética e materialmente delicadas.Todas as obras são nus masculinos, geralmente ambientados em cenas de ruas, com os personagens às vezes equilibrando-se no teto de carros ou caminhando sobre telhados, em proporções surrealisticamente aumentadas. Um dos prédios é o da gravadora Capitol, outro, o do Observatório Triffith, dos quais Van Sant tem uma magnífica visão do terraço onde geralmente pinta.

As telas evocam – embora não representem diretamente – tristes espetáculos públicos normalmente vistos em Los Angeles, onde uma crise de falta de moradia que se agrava associa-se a doentes mentais sem tratamento e a drogados. A indústria do entretenimento alimenta-se desses jovens esperançosos de todo o mundo numa explosiva mistura social.

Van Sant me fala de um jovem de boa aparência que às vezes fica nu em um movimentado cruzamento próximo a sua casa, em Los Angeles. Feliz, “olhando para o tráfico como se quisesse exterminá-lo”. Poucos dias após nosso encontro, vi na mídia social fotos de outro homem nu, aparentemente em uma espécie de crise psicótica, subindo no teto de um carro estacionado nas vizinhanças de Silver Lake. As fotos misteriosamente pareciam mostrar uma cena imaginada meses antes por Van Sant em seu quadro Untitled (Hollywood 7).

Em cores que vão de um pastel comportado a um ácido agressivo, as telas de Van Sant não têm nada do tom sombrio de documentários sociais. O artista Paul McCarthy, seu amigo, observa que o trabalho de Van Sant vem de uma posição de “aceitação e empatia”. Como em Drugstore Cowboy e Garotos de Programa – filmes sobre drogados e gays que circulam pelas ruas –, seus quadros não julgam os personagens, mas os cobrem de afeição, mesmo de desejo erótico.

No início da carreira, Van Sant, que é gay, ganhou fama como um expoente do New Queer Cinema (movimento com temática homossexual de cineastas independentes do início dos anos 1990). Ele fala muito sobre fortes relacionamentos artísticos com seus atores, particularmente com River Phoenix, morto de overdose em 1993. As figuras de seus novos quadros, diz ele, saem principalmente de sua imaginação, mas duas são baseadas em um jovem amigo que Van Sant chama de seu atual ‘muso’. Outras, diz ele, são inspiradas no desenho da estatueta do Oscar, ou nas apresentações sem roupa dos Red Hot Chili Peppers. 

É preciso não confundir o pintor de fala suave com os personagens selvagens de seus filmes e quadros. “Artistas não são necessariamente suas criações”, diz. “Eles são dedicados, seguem regras e trabalham de verdade.” Como exemplo, Van Sant cita a relação de Jack Kerouac com seu ‘muso’, Neal Cassidy. “Kerouac era disciplinado e Neal Cassidy era porra-louca, arrastando Kerouac para curtições e festas”, diz ele. Segundo Van Sant, “artistas são atraídos por personagens mais livres que eles”.

Embora ele sempre tenha pintado intermitentemente, Van Sant começou a trabalhar mais no início de 2011, quando foi solicitado a contribuir para uma exposição estimulada pelo ator James Franco na Galeria Gagosian, em Beverly Hills (Franco apareceu na cinebiografia de Harvey Milk dirigida por Van Sant, Milk, a Voz da Igualdade, de 2008). A galeria, diz Van Sant, “queria alguma coisa para vender”.

Ele se recolheu a um estúdio que havia construído recentemente em sua propriedade de Sauvie Island, perto de Portland, Oregon, onde completou oito aquarelas em papel do modelo Ash Stymest (outro ‘muso’, embora no época os dois ainda não tivessem se encontrado), baseadas em fotos encontradas em revistas. Desde então, ele experimentou vários estilos, incluindo abstração geométrica, apropriação fotográfica e screen-printing (“oito anos fracassando, embora não de fracasso total”). Foram os retratos de Stymest que mais obviamente prefiguraram a série Hollywood Boulevard.

O galerista Vito Schnabel, filho de outro pintor que também é cineasta, Julian Schnabel, considerou as pinturas “um louco passeio psicodélico pela época de Gus na Califórnia”. As cores, diz ele, lembraram Chagall e Matisse. Quando topou com Van Sant numa festa do Oscar, em 2018, o diretor lhe mostrou algumas pinturas em seu iPhone. Schnabel acertou uma visita ao estúdio para o dia seguinte e prontamente ofereceu uma mostra a Van Sant.

Perguntei a Van Sant se seu novo enfoque artístico significava que ele havia parado de filmar. “Não sei”, respondeu. Então, um pouco mais tarde, ele me falou de uma “grande inspitação” que havia tido naquela mesma manhã para um roteiro” (ele hoje prefere dirigir filmes com base em roteiros que ele mesmo escreve).

Van Sant dirigiu 18 filmes, incluindo o bem-recebido Don’t Worry, He Won’t Get Far on Foot (A Pé Ele não Vai Longe, 2018), estrelando Joaquin Phoenix como o cartunista deficiente John Callahan, de Portland. “Há horas em que me sinto cansado”, diz Van Sant, “especialmente do modo como faço filmes.” 

Como fica a arte visual em relação ao cinema para ele? Uma forma é resultado da outra? “Sempre acho que filmar é um pouco menos perfeito”, responde, “enquanto os mundos da pintura e da literatura estão mais perto da perfeição.”

Embora Portland continue sendo a cidade à qual Van Sant é geralmente associado (e onde muitos de seus filmes foram ambientados), ele se mudou para Los Angeles há três anos. Relutantemente, começou a aceitar que gosta daqui. / Tradução de Roberto Muniz

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