Nick Wall/Wireimage/Getty Images
Nick Wall/Wireimage/Getty Images

O cinema libertário de Kenneth Anger

Cineasta completa 90 anos ainda relevante como autor de um grito de liberdade sexual

Donny Correia*, O Estado de S.Paulo

25 Novembro 2017 | 16h00

Em fevereiro de 2017, o cineasta americano Kenneth Anger completou 90 anos. Circunscrito a um viés muito específico dos estudos de cinema, Anger é o inaugurador daquilo que ficaria conhecido como queer cinema. Ainda que tenha escolhido, há muito, viver longe da mídia, não se pode discutir gênero e sociedade na arte sem evocar sua poética.

Anger pertence a uma geração de artistas que começaram sua produção logo após a 2.ª Guerra Mundial. Assim, trazem o ímpeto da juventude americana no auge da vanguarda geopolítica, mas usam esta força para criticar a máquina malévola na aurora da pós-modernidade.

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A mordacidade de um jovem de 20 anos, que esperou uma viagem dos pais para transformar o apartamento num set de filmagem, voluntariamente ou não, redefiniu a presença do corpo no filme e inaugurou uma estética que influenciou, entre outros, Derek Jarman, Jean Genet e, claro, Fassbinder. Fireworks (1947), estrelado pelo próprio Anger, segundo suas próprias memórias, foi baseado num sonho em que em que se via carregado nos braços de um marinheiro. O sonho erótico passa a ganhar tons misteriosos, acentuados por uma fotografia noir, quando o jovem se encontra num banheiro masculino cercado por outros tantos marinheiros que lhe dão uma surra. Surra esta que transita tenuamente pela lascívia e pela violência bruta. Seu corpo é abusado de todas as maneiras pelos marinheiros até o clímax inspirado pelo surrealismo dos primeiros filmes experimentais feitos na América por Maya Deren ou Robert Florey. Seu peito é aberto pelas mãos de um dos algozes. A carne é destrinchada à vista do espectador. Ao invés de um coração, vemos uma bússola descompassada. Enfim, o jovem devassado não é um humano, mas uma máquina, e uma máquina produzida pela América do pós-guerra, quando o indivíduo era avaliado pelo poder de produção, e não por quem é. Uma leitura pragmática do American Dream, que Hans Richter, cineasta alemão exilado nos Estados Unidos capturou em Dreams that Money Can Buy, realizado no mesmo ano de Fireworks, alegoria feita a várias mãos, com ajuda de Duchamp, John Cage, Alexander Calder e Max Ernst, em que um poeta vê-se obrigado a um empréstimo para abrir empreender com somente aquilo que lhe foi dado como dom: enxergar os devaneios de alguns consulentes, concretizando-os como se fossem fugas.

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De outro lado, Fireworks é um grito de libertação sexual em meio a esta nova ordem social e política que colocou a América no topo do mundo. A forma como bíceps, tríceps e trapézios masculinos são languidamente acariciados pela câmera de Anger nega a imagem heroica do oficial ianque a serviço da liberdade e oferece a possibilidade de uma sexualidade emancipadora para além das aparências de um mundo livre de nazistas, mas tão repressor o quanto. Aliás, é o campo de batalha que se torna o jogo sadomasoquista da sedução e do defloramento do peito, onde reside um compasso sem referências.

Se a geração pós-guerra estava devidamente representada nesta pequena gema que é Fireworks, em 1964, Anger repassou a geração imediatamente seguinte, os rockabillies rebeldes sem causa dos anos 1950. O musical Scorpio Rising é como uma jukebox satânica. Enquanto ouvimos alguns clássicos musicais como I Will Follow Him, conhecido hino gospel, aqui executado enquanto assistimos a cenas de suásticas portadas por jovens arruaceiros, assistimos a jovens com seus topetes empinados, camisetas regatas bem apertadas e calças de couro, enquanto preparam suas motos customizadas para uma noitada de perversão. Curiosa é a maneira como Anger mescla tais imagens com planos muito próximos de miniaturas de brinquedo que dão o tom lúdico da obra ao mesmo tempo que continua a dar closes nos predicados físicos dos protagonistas, ressaltando um diálogo com a beleza de um estatuário grego ou de telas renascentistas. O encontro entre esta estética do corpo, talhada no passado, com a ideologia de uma sociedade rebelde à margem do utilitarismo implícito no sonho americano fica pronunciado nas diversas referências amalgamadas numa metáfora só. Motoqueiros gays, sadomasoquistas e nazistas. Todos acelerando para bem longe do American Way of Life.

Nas décadas seguintes, Anger se dedicaria ao ocultismo e ao satanismo, o que resultou em obras como Lucifer Rising (1972), no qual Anger encarna uma espécie de Hermes Trismegisto para desvendar o sentido maior na queda do anjo favorito e como esta entidade nefasta abençoou o homem moderno. Transitando entre o hermetismo e o elogio da carne, Anger discutiu a possibilidade de um diálogo entre o corpo profano e o culto pagão. Do alto de seus 90 anos, o anjo revel do cinema de arte guarda um legado que repele a vida comezinha e enaltece o hedonismo dos instintos e o cinema libertário. 

*Donny Correia é poeta e ensaísta, mestre e doutorando em estética e história da arte pela USP. É autor, entre outros, de 'Corpocárcere' e 'Zero nas Veias' (Poesia), além de 'Cinematographos de Guilherme de Almeida' (Antologia) 

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