O colecionador

Com um passaporte alheio nos dentes, Boghici chegou ao Brasil para virar referência em arte brasileira

Cynthia Garcia, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2012 | 03h12

"Sou marchand de tableaux. Não sou galerista, detesto escritório de arte e e-mail", costuma repetir Jean Boghici. Conversar com esse romeno da Moldávia naturalizado brasileiro, de 84 anos, culto e debochado, é ouvir um testemunho vivo de histórias da arte moderna. Russo, romeno, alemão, francês, português, italiano e espanhol são os idiomas que domina um dos responsáveis pela criação do mercado de arte nacional que desembarcou no porto do Rio de Janeiro sem documento, em 1949, e viu o trabalho de sua vida em chamas na segunda feira, quando um incêndio em sua cobertura em Copacabana pôs em perigo obras inestimáveis. Entre as que não se salvaram estava uma das telas introdutoras do modernismo brasileiro, Samba, de 1925, óleo de seu amigo Di Cavalcanti que seria o epicentro da expografia criada por Daniela Thomas e Felipe Tassara para a mostra O Colecionador: Arte Brasileira e Internacional na Coleção Boghici. A mostra ocupará um andar no Museu de Arte do Rio (MAR), instituição carioca com inauguração marcada para 15 de novembro.

Outra grande perda do acervo é Floresta Tropical, de 1938, de Guignard, primeiro artista que o romeno conheceu no Brasil, quando não poderia prever que a arte daria uma guinada na sua vida de imigrante pobre.

Os relatos a seguir se baseiam em duas entrevistas que Jean Boghici me concedeu, uma em julho de 2009, outra em dezembro de 2011. Contou ele que fugiu de Ismail, seu vilarejo natal às margens do Danúbio, próximo ao Mar Negro, assim que a região foi anexada à URSS, em 1946. "Eu não queria ser cidadão soviético. A gente vivia com medo, caí fora." Na fuga, o rapaz de 20 anos atravessou a Hungria, Áustria, Alemanha e França. Em Paris, um general romeno dissidente, ex-primeiro ministro da Ucrânia, ajudava seus compatriotas e deu-lhe uma bolsa de estudos na França, da qual pouco usufruiu - ainda havia um ano de guerra pela frente.

Na época, um de seus amigos, Henri Stahl, namorava uma americana. Na turma também havia um negro americano, que depois da guerra ficou em Paris e se tornou um grande escritor, James Baldwin. "Ele queria ir para a Bahia com a americana para fazerem um estudo sobre a negritude. Decidimos que viajaríamos juntos, mas James desistiu." No consulado brasileiro, ainda sem ter 21 anos, o visto lhe foi negado. Precisava da autorização dos pais, que nunca mais vira "O cônsul-geral era Jayme de Barros, que depois foi embaixador. Hoje, é um grande colecionador, amigo meu, mas não me concedeu o visto."

Semanalmente, o rapaz se apresentava à policia francesa com a esperança de receber um documento, mas nada. Resolveu arriscar: "Henri e eu conseguimos entrar num navio". Os dois se escondiam num barco salva-vidas, dormiam no convés e os amigos levavam comida. Na parada em Dacar, Senegal, as autoridades portuárias lhe deram um passe de visita que lhe permitiu voltar ao navio. "Virou minha 'identidade'. Lá vendi minha roupa de inverno para ter algum dinheiro, fiquei só com a do corpo. Lamento não ter comprado um quadro do Modesto Brocos, pintor espanhol radicado no Brasil no século 19. Era um convés de navio, dois homens jogando carta, exatamente como nós."

A chegada ao Rio também foi coisa de filme. "Foi à noite, uma beleza. No dia seguinte, o navio atracou. Um amigo, que havia desembarcado, voltou, me entregou seu passaporte, segurei-o firme com os dentes, enfiei um chapéu e saí com duas crianças, uma em cada mão. Na Praça Mauá, comemoramos com uma cerveja."

Ainda sem documento, foi tentar a sorte em Belo Horizonte. "Durante a guerra, eu montava um rádio para ouvir a BBC - tinha duas válvulas, que escondia debaixo do colchão. Peguei um emprego numa loja de eletrônicos." Foi lá que conheceu Alberto da Veiga Guignard. "Na porta da pensão onde ele morava, Guignard punha a foto de uma criança e, no cavalete, o quadrinho que tinha pintado dela. As pessoas viam, faziam a encomenda."

Numa das idas ao Rio de trem, ficou de papo com um rapaz que o convidou para pernoitar no rancho. "O rancho era uma fazendinha, e o rapaz, o Eliezer Batista, futuro presidente da Vale do Rio Doce, pai do Eike. Anos depois, numa reunião na Vale, quando nos vimos... Ah, era você!". Se Eliezer foi ou Eike é seu cliente, Boghici não revela. A discrição profissional é uma de suas marcas.

Na capital, munido de jogo de cintura e idiomas estrangeiros, foi contratado pelo hotel Vogue como pau pra toda obra, inclusive cuidador da eletrônica do nightclub em que se apresentava Linda Batista. "O microfone era enorme, escondia o rosto dela. Li numa revista americana que os microfones modernos eram menores e fiz a encomenda para um amigo da Varig." Quando Juliette Greco foi ao Rio, Boghici a ajudou a comprar um vestido vermelho, não a queriam de preto no show. No Vogue conheceu a elite brasileira: Carmem Mayrink Veiga, Hugo Gouthier (futuro embaixador do Brasil na França), Ibrahim Sued (ainda um foca).

'Absolutamente certo!' O trabalho era compensado por noitadas com amigos pintores como Dacosta, Krajcberg, Pancetti e Ceschiatti, os atores Paulo César Pereio, Tônia Carrero e intelectuais como Carlinhos de Oliveira. "A gente caía na gandaia no Gôndola, um barzinho na Sá Ferreira. Todo mundo ia lá." Era 1957, o diretor americano Vincent Minelli lançara o filme Sede de Viver, sobre o pintor impressionista Vincent Van Gogh, com Kirk Douglas no papel. Na TV Tupi estreava O Céu É o Limite, programa de perguntas com prêmios em dinheiro apresentado por Jota Silvestre e Ilka Soares ("linda"). O produtor, amigo de Boghici, convenceu-o de que ele era a cara do ator hollywoodiano. "Pode ser, Kirk era russo." Boghici adorava Van Gogh, sabia tudo sobre o pintor, semanalmente marcava pontos no programa. "Virei vedete, aonde ia, diziam: 'Não desista!' Fiquei uns três meses." Com isso, ganhou a primeira bolada. Comprou um fusca, apartamento, pagou as dívidas e ficou famoso no mundo das artes: "Fui convidado para trabalhar numa fundação cultural de Brasília, ligada ao Darcy Ribeiro. Minha missão era ir à procura de arte popular em extinção. Fui, com um jipe e uma carta do Jânio Quadros: 'Recomendo às autoridades darem todo o apoio ao sr. Jean Boghici...'". Boghici viajou pelo Nordeste, conheceu Mestre Vitalino, mas a renúncia do presidente, em agosto de 1961, interrompeu a missão e as peças foram parar numa base militar.

No mesmo ano, na volta à antiga capital, ele fundaria a Galeria Relevo com Jonas Prochownik, inaugurada com uma exposição de Emeric Marcier e apresentação de Ferreira Gullar. A concorrente, a Petite Galerie, estava no mercado desde a década anterior, tinha contrato com Portinari, Di Cavalcanti, Guignard, sobravam poucos artistas. "Inventamos a moda de comprar obras antigas porque as galerias só investiam em obras recentes. Fomos à casa do Volpi, adquirimos as melhores obras antigas dele." Di havia sido nomeado adido cultural em Paris, mas fora demitido pelo regime militar. Boghici comprou várias telas do pintor das mulatas por 2 mil cruzeiros. Nesse lote, veio parar em sua mão a icônica Samba.

Um ano depois da ditadura, ele organizou com Ceres Franco a histórica mostra Opinião 65, no MAM do Rio, com apresentação do crítico Mário Pedrosa, evento considerado tão importante quanto a Semana de 22. Talentos da vanguarda brasileira como Oiticica, Antônio Dias, Gerchman, Vergara, Roberto Magalhães, Ivan Serpa, Waldemar Cordeiro, Ivan Freitas, Aguilar, Adriano de Aquino e artistas estrangeiros expressaram sua revolta política por meio do movimento batizado Nova Figuração.

Além de redescobrir Vicente do Rêgo Monteiro e Maria Martins, ele trouxe ao País obras de renome internacional como Calder, Fontana, Corneille e Torres García, este para uma mostra no MAM do Rio, realizada no museu carioca há 34 anos. Em 1979, transferiu a galeria para Ipanema, com seu nome, em sociedade com a mulher. É autor de monografias, membro do Projeto Portinari e do Comitê Cícero Dias, e querido por gente de todas as classes sociais.

Não à toa. Jean tem a alegria natural dos antigos nascidos no Leste Europeu e uma confiança de quem superou muitas. É carismático, direto, de memória enciclopédica. Adora um bom papo sobre o assunto que conhece como ninguém e no qual se expressa com charme carioca. Aonde vai, como na SPArte, onde tem um estande desde o evento inaugural, é um beija-mão. Não é ele quem corre atrás dos colecionadores, talvez porque nunca tenha sucumbido à egomania que acomete a maioria dos envolvidos nesse mercado. "Jean é vanguardista", define Geneviève, sua mulher e sócia, sempre enaltecendo o companheiro e organizando tudo no backstage. O casal adora bichos, tanto que Sabine, a filha que mora com eles e tem uma enorme coleção de brinquedos antigos, dirige uma ONG que salva cachorros e gatos abandonados.

O livro que está sendo escrito sobre sua trajetória, projeto que se estende há anos, agora terá de abrir um novo capítulo. Juntamente com a exposição no MAR, ele promete ser a vingança desse colecionador que no ano passado me disse pretender realizar uma exposição chamada Hommage aux Disparus, homenagem aos desaparecidos. 

CYNTHIA GARCIA, JORNALISTA E ESCRITORA, É FORMADA EM HISTÓRIA DA ARTE E ARTES PLÁSTICAS PELO FLEMMING COLLEGE FLORENCE

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