'O compromisso político mundial com o combate à aids ainda deixa muito a desejar'

Carta aberta às agências internacionais que atuam na luta contra a aids

Cristina Pimenta, O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2007 | 21h01

  Cristina Pimenta, Coordenadora Geral da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids e doutora em saúde coletivaA diminuição da estimativa de pessoas vivendo com HIV no mundo é bem recebida, mas não atenua a gravidade da epidemia. Estamos falando de 33 milhões de vidas. No caso do Brasil, as estimativas são de 620 mil pessoas (entre 15 e 49 anos) infectadas e 180 mil em tratamento. Mesmo considerando os avanços recentes, existem muitos desafios para a resposta global. O compromisso político mundial com o combate à epidemia ainda deixa muito a desejar. De acordo com o relatório global da Unaids, há registro de progresso no controle da aids em alguns países, mas, infelizmente, na maioria registraram-se números crescentes de infectados e os mais afetados são os mais pobres. Portanto, alcançar diferentes grupos com informação, educação sexual e proteção social adequadas torna-se prioritário. A grande maioria vive em condições de extrema pobreza, não tem acesso a educação e, conseqüentemente, pouco ou nenhum acesso a serviços de saúde. Tem sido possível mobilizar recursos para enfrentar a epidemia com a criação do Fundo Global para Aids e o engajamento de fundações importantes, chegando-se a investimentos em torno de US$ 10 bilhões. Porém, parecemos estar retrocedendo com respeito à prevenção do HIV, uma vez que os programas não estão alcançando as populações mais vulneráveis. O relatório da Unaids de 2006 já apontava para o fato de que apenas 9% de homossexuais e outros homens que fazem sexo com homens no mundo receberam algum tipo de serviço de prevenção; menos de 20% de usuários de drogas injetáveis no mundo obtiveram acesso a serviços de prevenção do HIV; apenas 9% de grávidas tiveram cobertura com serviços de prevenção da transmissão do HIV para seus bebês; e menos de 50% de pessoas jovens no mundo demonstram ter um nível significativo de conhecimento sobre a aids. Estes são níveis inaceitáveis de acesso e cobertura de serviços e programas e nos mostram que as barreiras para prevenção e tratamento são muitas. Dados do Fundo das Nações Unidas para População mostram que a disponibilidade global de preservativos no setor público é inferior a 50% do necessário e o nível de financiamento disponível para obtenção de preservativos teria que triplicar para atender às necessidades de prevenção primaria e secundária do HIV e da aids.

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