O conhecido risco de quem vive com a bola cheia

Ela pode estourar. Maré de boas notícias não livra o País da reflexão sobre o papel que joga no mundo

Mac Margolis,

03 de outubro de 2009 | 13h02

O falso Obama, com sua Michelle de papelão, em comemoração na praia de Copacabana  

 

O Brasil está bem. Desde a crise global, na qual conseguiu navegar com louvor, o País passou de derradeiro Bric a vedete dos emergentes. Acaba de ser alçado a grau de investimento pela Moodys, a terceira agência de ratings a lhe conferir mais um cobiçado diploma nos últimos 12 meses. Nem começou a bonança do pré-sal e já vem a consagração: a escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Pode-se dizer que a vitória do Rio não foi obra do governo do presidente Lula, mas na política vale a regra de ouro: loas a quem ocupa o trono. Agora Lula é rei em Copenhague, também.

 

Nada mais justo. Nos estádios, como nos mercados globais, a bola gira em direção aos países emergentes, e a escolha do Rio pelo comitê olímpico realça essa realidade. Sem dúvida, o Brasil está bem talhado para o papel. A economia cresce, enquanto outras mais poderosas patinam. Numa crise que relegou mais de 100 milhões para baixo da "linha da fome", os pobres brasileiros estão ficando menos pobres e a classe média, mais gorda. O real só faz subir, enquanto o dólar, "reles" moeda americana, derrete. Lula de certa forma é o emblema perfeito dessa ascensão, ele mesmo um emergente que se transportou de uma terra sem saída para os corredores do poder mundial. Hoje nenhuma cúpula de mandachuvas brancos de olhos azuis estaria completa sem seu perfil troncudo e um puxão de orelha ao estilo do ex-metalúrgico. No embalo, e com bons argumentos, Brasília reclama um lugar cativo à cabeceira da mesa decisória internacional, seja no G-20, seja no Conselho de Segurança da ONU.

 

Porém, desde o colapso global do ano passado, toda exuberância inspira igual cuidado. Não estou sugerindo que o Brasil esteja prestes a levar um tombo. A solidez da sua democracia e de seus mercados está mais do que comprovada. Mas o encanto internacional pode ser fugaz. Houve a bolha da internet no início da década e a bolha do mercado subprime ao seu final. Há países-bolha, também. Quem não se lembra da Argentina nos anos 90, o "país pôster" do Fundo Monetário Internacional, que se tornou o caloteiro mais espetacular do mundo? O Brasil não é a Argentina, mas a soberba não tem fronteiras. E ultimamente o Brasil parece estar em rota de colisão com a própria aura. Haverá uma "bolha Brasil"?

 

Pergunte aos hondurenhos. "Nações precisam tomar cuidado com o que almejam, pois podem consegui-lo", comentou Edward Schumacher-Matos, em coluna recente no Washington Post sobre o imbróglio em Tegucigalpa. Desde que o presidente deposto Manuel Zelaya pousou na embaixada brasileira na capital hondurenha, o Brasil e sua pauta internacional estão na lupa internacional. Não discuto se a diplomacia sabia ou não dos planos de Zelaya de "se materializar" às portas da missão brasileira, tampouco se o Brasil deveria tê-lo deixado entrar. Mas, ao permitir que o líder deposto tornasse o abrigo em palanque, o Brasil virou não somente refém, mas coadjuvante na ópera bufa hondurenha. "O pior é que o Brasil criou um posto de comando para Zelaya", diz Diego Arría, diplomata venezuelano que ajudou a negociar o acordo de paz na América Central nos anos 90. "O Brasil está perdendo sua capacidade de mediar."

 

Convenhamos, desarmar o contencioso entre Zelaya e o presidente de facto, Roberto Micheletti, seria um desafio até para o melhor estadista. E não há nenhum Lincoln em Tegucigalpa. Magnata madeireiro e aliado de Hugo Chávez, Zelaya foi flagrado armando um plebiscito à bolivariana para mudar a Constituição e deixá-lo concorrer à reeleição. Com a história recheada de caudilhos (Tegucigolpe, apelidaram a capital), os legisladores trataram de inocular o país na Constituição de 1982, que não só proíbe a reeleição como automaticamente destitui do poder qualquer um que tente mexer com a Carta para esticar sua estada no comando. Por isso a Igreja Católica, os empresários, o Congresso e tribunais se uniram contra a manobra chavista de Zelaya. A mando da Suprema Corte, o Exército arrancou-o da cama na mira de fuzil e mandou-o de pijama e chapéu stetson para a Costa Rica.

 

Golpe ou contragolpe? Com a palavra, os juristas constitucionais. O governo de Barack Obama de pronto condenou a remoção de Zelaya, acenou com duras sanções, mas depois recuou, sabiamente, deixando a querela em mãos dos latinos, aos cuidados do presidente costa-riquenho, o Nobel da Paz Oscar Arias. Brasília não pestanejou. Taxou a expulsão de Zelaya de "sequestro", chamou Micheletti de "golpista e mentiroso" e exigiu a restituição imediata do presidente deposto.

 

Foi a senha para deflagrar a operação retorno. No último dia 21, enquanto o presidente Lula se preparava para discursar na 64ª Assembleia-Geral da ONU, Zelaya embarcou no avião venezuelano, atravessou a América Central e acabou na porta brasileira em Tegucigalpa. A situação do Brasil não é fácil. A pequena embaixada virou panela de pressão, alvo da ira dos dois lados. Mas também parece ter caído na cilada da própria ambição.

 

O governo Lula abriu embaixadas em 35 países nos últimos seis anos, a maior parte na África e na América Latina. Entre eles há de tudo, de xeques a líderes supremos. Forjar alianças ecumênicas e até malcheirosas faz parte do jogo diplomático; cada novo país no mapa-múndi do Itamaraty representa um voto em potencial para a campanha brasileira de reformar as Nações Unidas. O Brasil é conhecido, e respeitado, pelo seu estilo discreto de fazer política externa. Mas acomodar tiranos pode ser uma estratégia arriscada. E Brasília flerta com o fogo quando minimiza, ou faz vista grossa, aos abusos e excessos de regimes mais autoritários, como Coreia do Norte, Cuba, República Democrática do Congo, Sri Lanka e Sudão.

 

Quando os aiatolás reprimiam com ferro e fogo os protestos contra as suspeitas eleições do Irã, o presidente Lula comparou os embates com uma briga de "flamenguistas e vascaínos" e, recentemente, reforçou convites para Mahmoud Ahmadinejad. Também rebate de pronto as críticas contra o regime de Chávez. "Me dê um exemplo de como a Venezuela não é uma democracia", disse-me ele.

 

Acostumada a louros, Brasília já começa a colher petardos. "O Brasil está tomando as dores daqueles que abusam dos direitos humanos em vez de defender as vítimas desses abusos", disse Julie de Rivero, da Human Rights Watch. Em recente entrevista nestas folhas para a jornalista Lúcia Guimarães, o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda sustentou que, ao se esquivar de importantes disputas internacionais, o Brasil se apequena. Já para Luiz Felipe Lampreia, chanceler brasileiro do governo Fernando Henrique, o País precisa adestrar seu apetite. "O Brasil aspira a ter um papel crescente na região. Mas o impasse em Honduras mostra que fomos além dos nossos limites. O País precisa calibrar sua política para conseguir resultados". Para o mais novo anfitrião da Olimpíada, eis uma boa meta. Melhor desinflar a bolha antes que ela estoure.

 

*O jornalista americano Mac Margolis é correspondente especial da revista Newsweek

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