Sara Krulwich/The New York Times
Sara Krulwich/The New York Times

'O Conto do Inverno' mostra faceta desconhecida de Shakespeare

Uma das últimas peças do Bardo é conhecida por ser uma das mais diferentes

Jesse Green, The New York Times

31 Março 2018 | 16h00

Os estudiosos de Shakespeare classificam O Conto do Inverno (The Winter’s Tale) como um “romance tardio”, como se a imprecisão ou a liberdade da velhice explicassem suas esquisitices. Mas Shakespeare estava com apenas 40 anos, quando a peça teve estreou, por volta de 1611. Não foi a senilidade que fundiu os limites da forma e deixou os palhaços e os dramáticos adotarem uma polinização cruzada; a experiência e a maestria estavam fazendo isso. Como Beethoven nos seus últimos quartetos de cordas ou sonatas para piano, Shakespeare em O Conto do Inverno – sua peça de número 36 em 39, mais ou menos – não se prende entre as linhas que dividem as pistas. Seu tom é meio demoníaco, como se dissesse “não dou a mínima”.

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Também está devastado pela dor. A morte é mostrada, como a vida, uma corrente. Quando Hermione, a rainha da Sicília, fica sabendo que sua filha morreu, a “notícia é mortal”. 

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“Olhe para baixo e veja o que a morte está fazendo”, chora Paulina, sua dama de companhia.

Talvez fosse o próprio Bardo chorando. Nas notas do programa para a tocante produção que estreou no Theater for a New Audience, a diretora Arin Arbus ressalta que enquanto escrevia O Conto do Inverno, Shakespeare quase certamente estava pensando em seu filho, Hamnet, que morreu aos 11 anos. Essa tristeza está no coração da interpretação de Arbus, e é quase o que basta para tornar unidas as partes díspares dessa estranha peça.

Shakespeare não facilita nada. Os três primeiros atos, aqui combinados em um, são uma ligeira tragédia psicológica. Leontes, o rei da Sicília, fica paranoico por causa do relacionamento entre Hermione e seu irmão, o rei Polixenes da Boêmia. (Leontes condena severamente a grávida Hermione como uma “parceira infiel”.) Em alguns poucos instantes e sem nenhuma evidência a não ser suspiros, seu medo de estar sendo traído transforma-se em algo muito pior: a ira incontrolável de um homem impetuoso e poderoso.

Apesar da intervenção furiosa de Paulina, sua distorcida determinação não pode ser desviada: Hermione deve ser julgada por traição. Isso é o que mata o príncipe – e logo, depois de entregar uma filha, que é banida, Hermione também morre. Quando Leontes percebe seu erro, é tarde demais.

Uma tragédia normal terminaria ali, mas depois do intervalo O Conto do Inverno salta 16 anos, milhares de quilômetros e vários gêneros, tornando-se uma comédia pastoral ambientada na Boêmia. A famosa cena de “saída sob perseguição de um urso” (recurso cênico para livrar-se do vilão) serve como uma articulação entre os dois mundos teatrais, e agora passamos uma hora ou mais com os necessários broncos, habilidosos patifes, amantes desonestos e mulheres ousadas.

Mas antes que possamos identificar completamente o que aconteceu com a trama, que envolve o bebê banido e sua família adotiva, estamos novamente desenraizados. De volta à Sicília lá vamos, para um desfecho que é todo melodrama e magia. Hermione, aparentemente preservada todos esses anos como uma estátua e agora trazida de volta à vida por Paulina, está reunida com sua filha perdida e o humilde marido. Se isso conta como um final feliz, pode depender de quanto tempo você levar para parar de tentar compreendê-lo.

Arbus, que já dirigiu seis peças de Shakespeare, não tenta amalgamar esses elementos; em vez disso, ela enfatiza as irregularidades. Ela começa com um cenário rigorosamente branco (de Riccardo Hernandez), mas também com o urso boêmio, dançando na neve e demonstrando que o que se segue será tanto medonho quanto frívolo.

Daí até a imagem final, que nos lembra fortemente que nem toda perda pode ser desfeita, a produção insiste em enfatizar os contrastes tonais em vez de diluí-los. As diferentes estações do ano e as diversas experiências de contenção e liberação dentro delas são habilmente esboçadas pela iluminação de Marcus Doshi, na música de Justin Ellington e nos figurinos de Emily Rebholz (que vão de fraques e vestidos a macacões de trabalhadores rurais).

Mas Arbus depende principalmente do excelente elenco para retirar da linguagem madura de Shakespeare tudo o que vale a pena. Os atores nos papéis da Sicília são especialmente ágeis e sarcásticos, o que é uma das razões pelas quais a produção, de 2h50, é muito mais curta do que muitas outras. (Também foi levemente reduzida). Anatol Yusef, recentemente um excelente Laertes no Hamlet interpretado por Oscar Isaac, faz um Leontes extraordinariamente convincente, flagelando-se em um estado tal de ciúmes que parece perversamente sexual em si. E você pode jamais ouvir uma Paulina tão destemida quanto Mahira Kakkar, que na sua defesa de Hermione quase destrói o castelo.

Se Kakkar inevitavelmente traz uma lembrança do momento #MeToo, Arbus não fica remoendo isso. Ela nem precisa; as mulheres já são as personagens mais poderosas e, embora esse poder seja em grande parte moral, elas acabam encontrando maneiras de transformá-lo em armas. Na cena de ressuscitação de Hermione, regiamente interpretada por Kelley Curran, a vergonha contrastante de Leontes é palpável. Compreendemos que o que Shakespeare valoriza não é a emotividade anárquica dos homens, mas o atento autocontrole das mulheres.

A produção de Arbus endossa essa preferência, sugerindo uma maneira de enfrentar todos os desafios – não apenas os bizarros e catastróficos – de forma honrosa. Nossas vidas serão tanto sicilianas quanto da Boêmia, trágicas e cômicas, constrangidas e livres, nos diz O Conto do Inverno. Algumas tristezas serão aliviadas; outras não. Devemos praticar a paciência para arcar com tudo isso.

Além disso, o máximo que talvez possamos pedir seja que, ao sairmos, não sejamos perseguidos por um urso. / Tradução de Claudia Bozzo 

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