O crack e sua espiral compulsiva

Na mesma velocidade com que provoca dependência, a droga expõe o usuário à violência e às DSTs

Marcelo Santos Cruz*, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 23h43

Muitas pessoas vivem na rua em metrópoles do mundo inteiro, mesmo em países desenvolvidos. No entanto, em lugares como o Brasil, desde as últimas décadas do século passado importantes modificações sociais e econômicas determinaram tanto o crescimento dessa parcela da população quanto o agravamento de fenômenos como a violência e o consumo de drogas, que, é verdade, atingem não só os moradores de rua como outros segmentos da sociedade. Ocorre que, entre os moradores de rua, o uso abusivo de drogas como o álcool sempre fez parte do seu modo de viver, produzindo alívio imediato do sofrimento, mas sendo seguido progressivamente pelo intenso incremento dos mesmos problemas e pelo surgimento de outros, criando um círculo perverso que aprofunda as precariedades da vida dessas pessoas.

Em 2003, pesquisa realizada em 27 metrópoles brasileiras pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas já mostrava que, durante os 30 dias anteriores à pesquisa, 43 % das crianças e adolescentes de rua haviam ingerido bebidas alcoólicas. No mesmo período, o uso de solventes era feito por 28%, o de maconha por 25%, o de cocaína por 15 %, sendo que 5% dela sob a forma de crack. De lá para cá, o consumo de crack cresceu enormemente em todas as regiões do País, tornando-se um novo e grave problema de saúde em cidades até então poupadas, como o Rio de Janeiro. Em todo o Estado fluminense, nos serviços públicos especializados que atendem pessoas com problemas com drogas - como os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPSad) -, observou-se nos últimos anos um rápido aumento da demanda de atendimento a pessoas com quadros graves de consumo do crack.

O crack é uma forma muito barata de administração da cocaína. Seu processo de fabricação produz pequenas pedras que, quando queimadas, provocam o som que deu origem ao nome. O vapor produzido pela queima é aspirado e se difunde pelo pulmão, passando rapidamente para o sangue e chegando ao cérebro em segundos. Essa forma de administração faz com que grande quantidade de moléculas de cocaína atinja o cérebro quase imediatamente, produzindo um efeito explosivo, descrito pelos usuários como uma sensação de prazer intenso. A droga é, então, velozmente eliminada do organismo, o que leva a uma súbita interrupção da sensação de bem-estar, seguida, imediatamente, por imenso desprazer e enorme vontade de reutilizar a substância. Essa sequência é vivida pelos usuários como uma espiral compulsiva, em que os atos de usar a droga e procurar meios de consumi-la de novo se alternam cada vez mais rapidamente.

O comportamento compulsivo e a perda do controle também acontecem com o uso de outras drogas. O que chama a atenção no relato dos pacientes que nos procuram por causa do uso do crack é que o estabelecimento de dependência acontece de modo muito rápido. Em muitos casos que atendi, os primeiros episódios de consumo do crack foram seguidos de uso diário e ininterrupto da substância. Ou seja, pessoas que usavam outras drogas esporadicamente ou com regularidade, mas que conseguiam manter suas atividades, passaram a fumar crack diariamente, abandonando seus compromissos com os estudos ou com a profissão e seus cuidados com a saúde. A ansiedade, a irritabilidade e a impulsividade eram marcantes.

No Rio de Janeiro, o crescimento do consumo de crack tem sido observado principalmente entre crianças e adolescentes de baixa renda, um grupo muito vulnerável. Os relatos dos colegas que atendem nesses serviços são impressionantes, pois os graves problemas sociais desses jovens de comunidades carentes são ampliados pelo uso compulsivo, por atividades ilícitas para conseguir financiar o uso da droga e pelos problemas clínicos, que também são graves. Pessoas que usam crack negligenciam seus cuidados com a alimentação, emagrecem com rapidez, expõem-se a situações de violência e de risco de contaminação com doenças sexualmente transmissíveis. Uma pesquisa com mulheres profissionais do sexo, conduzida em São Paulo pela psicofarmacóloga Solange Nappo, professora da Unifesp, mostrou que as usuárias de crack perderam a capacidade de negociação com seus clientes: não negociavam mais valor, local ou o uso da camisinha. A avidez pelo crack as levava a aceitar qualquer condição para receber o dinheiro que seria usado na compra da droga.

O crescimento do consumo do crack, a necessidade de ações de prevenção e tratamento e a premência da articulação dos profissionais e instituições da saúde, educação e justiça são alguns dos focos que serão abordados no II Congresso da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (Abramd), de 6 a 8 de agosto, no Rio de Janeiro, reunindo pesquisadores e profissionais de todo o Brasil e do exterior. As estratégias de abordagem incluem o aperfeiçoamento da rede de serviços, numa iniciativa que está em construção pelo governo federal e por instâncias estaduais e municipais.

No âmbito do atendimento individual, o tratamento que considera os aspectos biológicos, psicológicos e sociais em uma visão multidisciplinar consegue sucesso. Muitas vezes é necessário conjugar o tratamento medicamentoso com a psicoterapia individual ou de grupo e o atendimento dos familiares. A frequência a grupos de mútua ajuda, como os Narcóticos Anônimos, beneficia muitos pacientes. Existem estudos de longo seguimento que mostram que boa parte dos pacientes consegue se recuperar. Um exemplo: nos Estados Unidos, o surto de consumo do crack na década de 90 cedeu depois de alguns anos e o consumo finalmente diminuiu. Para a população de rua, as ações de prevenção e acolhimento, com o oferecimento consistente de alternativas de reinserção social, são prioridades para revertermos a situação atual.

*Marcelo Santos Cruz é coordenador do Programa de Estudos e Assistência ao Uso Indevido de Drogas do Instituto de Psiquiatria da UFRJ e vice-presidente da Abramd

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