Orlando Barría/EFE
Orlando Barría/EFE

O crime do padre Lugo

Caso pode abalar a tolerância da Igreja com o uso partidário da religião não só no Paraguai, mas em todo o continente

José de Souza Martins*, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2009 | 20h36

O caso da autoria de paternidade envolvendo o ex-bispo católico Fernando Lugo, presidente do Paraguai, constitui um desses afloramentos, nas fraturas da sociedade, de problemas pessoais de largas implicações sociais, aqui, no plano da religião e da política. Não é de agora que Lugo está enredado numa teia de dificuldades próprias de quem se propõe a personificar conjunções sociais e políticas teoricamente impossíveis. Refiro-me, em particular, ao desencontro entre sua opção pela missão religiosa e sua opção pelo poder político. Não só a Igreja Católica no Paraguai se opôs às pretensões do bispo. O Vaticano também se opôs, suspendendo-o das funções sacerdotais. No ano passado, já em andamento o processo eleitoral, o Papa Bento XVI decretou a perda do estado clerical de Lugo, livrando-o dos votos religiosos. Na linha atual de restauração de uma religiosidade mais densa e mais católico-romana, que marca o pontificado de Ratzinger, a solução de Roma para o caso de Lugo pode indicar uma tendência. Esse ato desobrigou Lugo até mesmo em relação ao celibato. Além de divorciá-lo do casamento com a Igreja, deu-lhe a liberdade de um segundo matrimônio, a de casar-se com a política. Na verdade, o Vaticano livrou-se de Lugo.

Isso, porém, não livra a Igreja de um pesadelo. Lugo, ainda bispo, seduziu a adolescente que se tornaria mãe de seu filho, na época em que se hospedava na casa da madrinha da menina de 16 anos, com a qual ela vivia. Manteria com ela um relacionamento de dez anos. Se ele se confessou alguma vez nesse período, como exige de seus fiéis a Igreja, e se se confessou regularmente, como é de esperar, teve a conivência de seu confessor, que ao absolvê-lo, liberou-o para comungar e ministrar o sacramento da comunhão em estado de pecado. Se se confessou, mas omitiu o pecado, mentiu, e pecou de novo.

Um segundo aspecto da questão é o de que, conforme o noticiário, a moça engravidou de Lugo somente há cerca de dois anos. São vários os fatores de uma gravidez tardia num relacionamento duradouro, dentre eles ou ela usara anticoncepcional ou ele usara preservativo até então. Aí também deu-se ele uma liberdade que a Igreja tem insistentemente negado aos seus fiéis, no que se refere à proibição do uso da camisinha. A rapidez com que Lugo reconheceu a paternidade do menino e providenciou a inclusão de seu sobrenome no da criança foi medida louvável que, provavelmente, não conserta toda a extensão dos danos que o fato pode acarretar para sua vida política. Ele, aliás, não incluiu a moça nos reparos que ofereceu ao filho.

Já o pedido de perdão aos católicos, feito pela Igreja, dificilmente atenuará o estrago imenso que o fato acarreta à convicção religiosa dos católicos paraguaios, como se pode inferir de uma indignada declaração de dom Ignacio Gogorza, bispo de Encarnación. Até porque, neste nosso catolicismo ibero-americano, há um conjunto de crenças associadas à sacralidade do padre e à função litúrgica de seu corpo que é facilmente atingido por rupturas como essa. Há nesses casos o rompimento dos liames de sentido que asseguram ao entendimento da sociedade a razão de ser das instituições, como, neste caso, religião e Igreja. O padre Lugo reduziu o sagrado a uma função nominal e meramente simbólica. Coisa que, aliás, ocorre mais do que seria de esperar na tolerância dos leigos que, em nome de um certo vanguardismo social e político, minimizam a consistência do sagrado e, em decorrência, a da religião.

Para muitos a insistência da Igreja na questão do celibato é coisa de quem recusa as conquistas do mundo moderno relativas à liberdade da pessoa. Mas o sagrado tem conteúdo próprio, que se estende aos ritos e comportamentos. É verdade que o celibato não é dogma religioso e sua prática decorre de arraigada tradição que de certo modo é dogma popular para extensas populações de católicos praticantes. Por ser, justamente, da tradição, sob o pálio papal abriga-se orientação discrepante quanto ao celibato, como é o caso das igrejas de rito bizantino. Por outro lado, desde o concílio Vaticano II, a revalorização do diaconato amplia o número dos ministros que não estão sujeitos às limitações do celibato. É verdade que há amplo e significativo movimento de padres casados, presbíteros, que, embora sejam sacerdotes plenos, diversamente do que fez Lugo, renunciaram ao sacerdócio para contrair matrimônio e constituir família. Eles não têm tido a acolhida do Vaticano em sua reivindicação de que, tendo sido consagrados, poderiam exercer o sacerdócio, mesmo sendo pais de família. É uma decisão difícil, mas não impossível.

Mas o dano que não se pode desconsiderar numa análise deste caso é à democracia no Paraguai. A direita paraguaia é a maior beneficiária política do caso do padre Lugo. Num continente como o nosso, a ficção da democracia ficou confinada na teatralidade do processo político, sem efetiva e democrática participação da massa do povo, de muitos modos marginalizada na sua participação política meramente teatral. A rotina excludente do poder só começou a ser rompida com o advento de novos sujeitos políticos atuando a partir de marcos referenciais, valores e concepções extrapolíticos, especialmente a religião. Estamos vendo isso nas últimas décadas no Brasil, na Nicarágua, no Paraguai, em El Salvador. Sem uma base social de motivação religiosa, a nova esquerda latino-americana não teria alterado o cenário político regional e a própria concepção de povo, uma novidade que os partidos democráticos e mesmo os de esquerda tem tido imensa dificuldade para compreender. Se a Igreja nesses países tem sido tolerante com o uso partidário da religião católica, essa tolerância deve ficar abalada a partir do caso Lugo. Não só no Paraguai, mas nos outros países alcançados por essa inflexão política, o caso atinge diretamente a confiança da comunidade católica na catolização da política partidária, o que, no fundo mesmo, é ruim para a democracia praticada nessas circunstâncias anômalas e adversas.

*Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.