Konstantin Chernichkin/Reuters
Konstantin Chernichkin/Reuters

O custo Dick Cheney

Como Bush tinha poucas ideias, sua agenda acabou dominada pelo astuto vice, que no final o arruinou

Chris Patten*, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2009 | 22h45

George W. Bush começou a trabalhar em suas memórias. Conte até dez antes de reagir.

Autobiografias de líderes políticos não costumam ser obras muito elevadas do ponto de vista literário. Em primeiro lugar, são poucos os que escrevem bem, embora haja exceções como Nehru, Churchill e De Gaulle. Não surpreende que muitos contratem um ghost writer, como o do excelente livro de Robert Harris, que leva precisamente o nome de O Fantasma (ghost) e é na verdade uma crítica devastadora ao ex-premiê da Grã-Bretanha Tony Blair.

Em segundo lugar, essas memórias em geral são pouco mais que frases autojustificativas intercaladas com listas de pessoas famosas que o autor encontrou durante sua passagem pelo alto escalão.

Terceiro, geralmente esses livros são escritos mediante grande remuneração. Mas o que me incomoda é como as editoras conseguem recuperar os muitos milhões de dólares de adiantamentos que pagam.

Quando o grande general George C. Marshall - cujas memórias da 2ª Guerra Mundial e do período em que ocupou o cargo de secretário de Estado dos Estados Unidos teriam valido cada centavo pago - recebeu uma oferta de US$ 1 milhão de uma editora, nos anos 50, pela autobiografia, ele perguntou: "Por que vou querer US$ 1 milhão?" Como é diferente o mundo em que vivemos hoje!

A boa notícia sobre o projeto Bush, até agora sem título, é que, aparentemente, será diferente do habitual polimento de reputação. Em vez de começar no início de sua presidência, abordando as famosas urnas suspeitas da Flórida, e ir se arrastando para um final de mandato amargamente impopular, Bush pretende concentrar-se nas 20 decisões mais coerentes que tomou na Casa Branca. Quer também enfocar alguns momentos que, segundo ele, foram cruciais em sua vida, como a decisão de abandonar a bebida e a de escolher Dick Cheney como seu vice-presidente.

O abandono do vício da bebida repercutiu de maneira muito positiva para Bush, mostrando sua força de caráter e o apoio da mulher e da família. Largar um vício nunca é fácil. Aqueles que o conseguem, auxiliados, como ocorreu com Bush, por uma grande fé religiosa, merecem simpatia e aprovação.

Sua determinação jamais foi posta em dúvida, nem sua cordialidade - apesar das insinuações incômodas de que era "filhinho de papai". Eu nunca acreditei que o ex-presidente fosse uma pessoa estúpida - crítica feita por muitos de seus pares europeus, eles próprios longe de ser expoentes da filosofia.

O problema de Bush não era falta de inteligência, mas ausência completa de curiosidade intelectual. Ele vivia feliz em harmonia com seus preconceitos superficiais, e o resto do mundo que se acomodasse nesse estreito espaço intelectual.

É aí que entra Cheney. Com certeza foi um momento crucial quando Bush o escolheu. Imagine, por exemplo, como o mundo seria diferente e como teriam sido as determinações do governo Bush se ele tivesse escolhido Colin Powell ou John McCain como seu vice!

O que Cheney fez foi alimentar os preconceitos de Bush e agir enérgica e implacavelmente para ocupar o campo das decisões políticas, deixado vago pela indolência do presidente e a falta de influência política da assessora de Segurança Nacional, Condoleezza Rice.

Em que Dick Cheney acreditava? Para ele, Ronald Reagan tinha mostrado que déficits fiscais não têm importância. Acreditava no capitalismo - ou pelo menos apoiava as grandes empresas e os ricos -, embora se questione se ele entendia que o livre mercado deve funcionar com base na lei. Lei nunca foi o forte de Cheney.

Cheney sempre foi apologista do poder americano, embora durante a Guerra do Vietnã tenha feito tudo para escapar da convocação. Ele achava que o presidente americano devia dirigir o país sem se submeter a restrições da Constituição - assim como os EUA não deveriam ser tolhidos por nenhuma lei internacional. Leis são para os outros e, no final da sua gestão, sua única divergência pública com Bush foi sobre a recusa do presidente em perdoar o ex-chefe de gabinete de Cheney, Scooter Libby, acusado de perjúrio.

A influência de Cheney resultou no desastre sangrento do Iraque, na humilhação moral de Guantánamo, nas torturas por simulação de afogamento e na transferência de presos para outros países, no desespero dos amigos e desdém dos críticos, num desfile de políticas de dois pesos e duas medidas por todo o globo. Mesquinho e partidário, Dick Cheney foi um dos mais poderosos vice-presidentes americanos. Não vejo nenhum outro que tenha causado mais danos aos EUA, internamente, e a sua reputação no exterior.

Não surpreende que Bush considere a escolha de Cheney uma decisão crucial. As ideias são importantes em política, e como Bush tinha somente algumas próprias, simplistas, ele viu sua agenda ser forjada e dominada pelo astuto vice. Que no final o arruinou.

A presidência de George W. Bush foi desacreditada e afundada pelo homem que fatalmente escolheu para trabalhar para ele. A maior tragédia foi que muitos pagaram por isso um preço bem mais alto que o pago pelo próprio Bush.

O Custo Dick Cheney - este, talvez, devesse ser o título do livro de memórias de Bush.

*Foi comissário de Relações Exteriores da União Europeia, chairman do Partido Conservador britânico e governador britânico de Hong Kong. É reitor da Universidade Oxford e membro da Câmara dos Lordes da Inglaterra

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