O desastre da comida barata

A era da fartura envenenou a terra, matou plantios seletivos e empobreceu pequenos agricultores

Felipe Fernández-Armesto*, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2008 | 21h46

O Estado existe para alimentar as pessoas. Políticos anunciam como suas prioridades a manutenção da lei e da ordem, a solução ou os problemas sociais, ou a geração de renda, ou a saúde. Mas sem comida, nada mais importa. Durante a maior parte da história, líderes foram aqueles que souberam como obtê-la - às vezes pela habilidade na caça ou em controlar rebanhos, outras vezes pelo poder puro, forçando os súditos a trabalhar nos campos e cavar valas, às vezes negociando com os deuses e espíritos da natureza.A comida garantia legitimidade aos líderes. Estes, por sua vez, duravam apenas enquanto fossem capazes de manter as pessoas alimentadas. Os líderes de hoje - muitos dos quais acabam de se reunir em Roma num encontro mundial pela segurança alimentar - falharam nessa que é de suas obrigações mais elementares.Quando o suprimento de comida entra em falência, seguem-se as revoluções. A fome ajudou a derrubar a dinastia Ming do poder na China. Os revolucionários franceses pediram pão a Maria Antonieta - em seguida, cobraram sua cabeça. Um dos motivos pelos quais os ingleses desistiram do Raj hindu foi a consciência de que não poderiam lidar com a escassez de comida. O colapso alimentar pode arruinar civilizações inteiras.A civilização natufi, da Síria - a primeira civilização sedentária do mundo, cujo povo certa vez gozou de tamanha abundância que foi capaz de construir povoados permanentes enquanto vivia de grãos silvestres e da caça, ficou sem comida há 14 mil anos. Os túmulos da Creta Minóica - onde os subterrâneos do grande palácio transbordavam de azeite e grãos - estavam cheios de ossadas de pessoas desnutridas. Excessos ambientais ajudaram a exaurir o solo e esvaziar as cidades das planícies maias perto do final do primeiro milênio.Dois séculos depois, a falta de alimentos varreria civilizações do sudoeste da América do Norte. O império asteca ruiu quando cortaram-lhe suprimentos. A fome segurou o crescimento populacional europeu até que novas variedades agrícolas resolveram o problema perene da falta de comida, no século 18.A atual incapacidade de levar comida às pessoas é um fenômeno mundial. No Ocidente, ela significa contas mais caras no supermercado. Na maior parte do resto do mundo, quer dizer fome. Em pelo menos 30 países, é a falta total de víveres. O preço dos grãos de primeira necessidade subiu em média 80% nos últimos dois anos. Alguns preços triplicaram.O trauma psicológico é agudo porque o mundo passou, em menos de uma geração, da relativa abundância à carestia que ameaça a vida. Entre as décadas de 1960 e 1980, a revolução verde - o desenvolvimento de gêneros de primeira necessidade e híbridos de alto rendimento - permitiu acumular reservas e salvou vidas. Paralelamente, agências de ajuda humanitária, governos e a ONU revolucionaram a distribuição e o tempo de resposta nas emergências. Agora conquistas desmoronaram. Parecemos incapazes de produzir comida bastante, ou de fazer chegar aos necessitados o que podemos ceder.As convulsões políticas já começaram. Vítimas da fome mundial estão sendo contidas a balas de borracha. No Haiti, os famintos se rebelaram. Eles também estão se revoltando na África Ocidental, Egito, Bangladesh, Indonésia e Madagáscar. No Ocidente, a aprovação dos governos cai conforme cresce a conta do supermercado. A receita dos entendidos - alimentos geneticamente modificados - vai piorar os problemas, aumentando desigualdades de renda, condenando agricultores pobres à dependência e multiplicando riscos ambientais.Enquanto isso, a maioria dos economistas espera, na melhor das hipóteses, a redução modesta nos preços.Alguns fatos animadores merecem ser considerados. A oferta vai se ajustar à demanda, especialmente na Índia e na China, onde houve o maior aumento recente na demanda. Há muitas fontes de alimento subexploradas no mundo, particularmente no mar, que constitui 90% da biosfera e ainda é seriamente subexplorado. A piscicultura parece um substituto pouco atraente para a boa e velha pescaria, mas aumenta em milhares de vezes a produtividade da espécie selecionada.Embora possa ser desastrosa se aplicada amplamente nos alimentos, a modificação genética poderia resolver o problema do biocombustível e economizar terras férteis para o plantio de espécies de alta produtividade. Se tudo o mais falhar, a tecnologia poderia transformar o plâncton, insetos e bactérias comestíveis em algo palatável. Há muita margem de manobra para a racionalização da distribuição de alimentos e para o reencaminhamento da comida desperdiçada pelo mundo rico. De qualquer forma, a demanda vai diminuir conforme a população mundial se estabilizar - o que deve acontecer, mas talvez tarde demais para nos salvar.Falta de alimento no mundo é normal. A breve era da comida barata foi um desastre. Habitantes do mundo rico comeram demais, engordaram até a obesidade e adoeceram. A maioria de nós estaria melhor usando o cinto mais apertado. Para tornar a comida barata, envenenamos a terra fértil com produtos químicos, desperdiçamos água, abusamos do pouco terreno disponível e arruinamos a biodiversidade.Os baixos preços empobreceram os agricultores do mundo em desenvolvimento. Os mais pobres estão num círculo vicioso - obrigados a produzir excedentes de grãos baratos e abandonar plantios tradicionais e mais seletivos que poderiam obter preços mais decentes num mercado mundial nervoso e exigente. A revolução verde suprimiu lavouras exóticas como a quinua, o cereal africano e as batatas criollas - que a burguesia ocidental está redescobrindo com avidez, agora que se tornaram produtos raros e caros.A demanda maciça por variedades padronizadas ajudou a tirar alimentos tradicionais - incluindo as melhores maçãs e morangos da Inglaterra - das prateleiras dos supermercados. Imensas extensões de terreno produtivo foram solapadas para prover espaço para a habitação, a indústria e a praga do "lazer" - na verdade, um eufemismo grosseiro para formas irracionais de ociosidade cara. Ironicamente, a comida barata foi a principal causa da presente escassez, porque tornou a produção de alimentos economicamente pouco estimulante.Assim, é hora de investir em vez de ficar só fazendo planos. Se valorizarmos a comida, teremos mais e de melhor qualidade. Comeremos mais comedidamente e com mais critério. Teremos mais produtos saborosos e raros, porque estaremos dispostos a pagar por eles. A escassez atual pode provocar revoluções sangrentas e fomes coletivas agudas. Mas se provocar uma revolução em nossas atitudes, seu efeito a longo prazo transformará o mundo num lugar melhor. Temos de nos acostumar a pagar mais pela comida - e aprender a gostar disso. *Felipe Fernández-Armesto, historiador, é autor, entre outros, de Comida: Uma História (Record)

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