O desmanche de Hillary Clinton

Ser mulher de ex-presidente poderia ajudá-la. Atrapalhou. O ar falso também contribuiu para o declínio

Flavia Tavares,

16 de maio de 2008 | 17h59

Hillary Rodham Clinton tentou. Chorou na TV. Bateu pesado no adversário, Barack Obama, ao levantar suspeitas sobre o "radicalismo" do colega e competidor no partido. Assoprou, dizendo que ficaria a seu lado se Obama fosse o escolhido. Tirou milhões de dólares da bolsa para financiar a própria campanha. Exibiu o marido em certos comícios e o escondeu em outros. Argumentou que já era hora de os Estados Unidos terem uma mulher na presidência. E, apesar de ficar atrás na contagem dos delegados necessários para fazê-la candidata do Partido Democrata à Casa Branca, a senadora ainda assim não dá sinais de que pretende parar de tentar. Em seu discurso após a vitória apertada nas primárias de Indiana, na última terça, declarou: "Temos uma estrada longa pela frente, mas vamos continuar a lutar nesse caminho pela América." Hillary insiste.    Por quê, se seus correligionários já estão clamando para que ela desista? Para Anne Applebaum, colunista do Washington Post e ganhadora do Pulitzer de 2004 pelo livro Gulag: Uma História dos Campos de Prisioneiros Soviéticos, trata-se de um caso de ambição desmedida. "Talvez ela queira competir com o marido ou talvez seja feminismo", alfineta. "Mas a insistência pode prejudicar os democratas. Se quiser manter algum prestígio político, ela deve sair da disputa." Mas não se deduza que a potencial derrota de Hillary deve-se ao fato de ser mulher, argumenta Anne. Em entrevista ao Aliás, a colunista americana quase deixa escapar uma gotícula de veneno no canto do lábio ao explicar que o problema não é ser mulher, mas "que" mulher. Crava que Hillary perderá exatamente por ser esposa de ex-presidente e carregar um discurso antigo por trás de um sorriso falso, o que resultaria numa combinação fatal. A desconfiança de que ela não teria chegado aonde chegou não fosse pela aliança com Bill Clinton sempre desagradou as feministas. As idéias associadas à geração pós-1960 da política americana a afasta dos jovens. "Quem acredita ser hora de ter uma mulher na Casa Branca acha que não é esse o tipo de mulher ideal", decreta Anne, para quem Obama é, de longe, o melhor candidato. "Isso não quer dizer que outras candidatas não possam chegar lá. Talvez ainda precisemos de mais uma geração."  Há chances de Hillary Clinton se recuperar na corrida pela indicação do Partido Democrata depois das recentes derrotas nas primárias? Ela está muito atrás de Barack Obama no número de delegados. Não há mais como Hillary vencer a não ser que algo extraordinário aconteça com a campanha dele. Muitos querem sua desistência, porque ela está tirando a atenção do que deveria ser o principal foco no momento: o confronto entre Obama e John McCain.  Por que ela não desiste? Esta é uma pergunta mais para um psicólogo do que para analistas políticos. As especulações são de que talvez ela se sinta competindo com o marido, ou seja uma questão de feminismo, ou, ainda, que ela queira recuperar a aprovação do público americano. Já em fevereiro não se via como Hillary poderia virar o placar. Embora tenha se saído bem em algumas primárias, não será suficiente para derrotar Obama. Por que continua? É uma questão psicológica dela. Falaríamos em psicologia se estivéssemos tratando de um homem? Certamente. Na disputa republicana, os candidatos desistiram de concorrer bem cedo. Conforme a vitória de McCain foi se configurando, Fred Thompson, Mike Huckabee e Mitt Romney largaram o osso. Se qualquer um deles tivesse insistido, a conversa seria a mesma.  Sua insistência, então, seria uma ambição pessoal demasiada? Não a conheço pessoalmente. Mas me parece irracional que Hillary queira continuar. A campanha está sem dinheiro, figuras importantes do partido estão dizendo que ela deve desistir, e seu discurso se tornou mais agressivo nos últimos meses contra o oponente. Faz parte da ambição de ser presidente entender que, a uma certa altura, é preciso colocar os interesses do partido acima dos próprios. Quanto mais ela insiste, mais chances o Partido Republicano tem de vencer a eleição. Se Hillary realmente acredita que é importante que os democratas vençam, ela precisa parar. Até que ponto o fato de a senadora ser mulher foi determinante nessa potencial derrota? Sem dúvida, há machismo nos EUA, mas não foi isso que tirou Hillary da corrida. Não podemos nos esquecer que muitas pessoas votaram nela. Sua campanha foi bem-sucedida em vários aspectos. Transformar a derrota de Hillary numa questão de gênero é simplismo. Ela não soube usar a seu favor o fato de ser uma mulher na disputa? Ser mulher é seu aspecto menos interessante. As pessoas deixam de votar nela por ser a esposa de um ex-presidente. Hillary é possivelmente a figura política mais conhecida do público americano. A rejeição a ela, muitas vezes, tem mais de 20 anos e tem a ver com o legado político do Bill e as posições que ela assumiu como senadora. Então não se trata de escolher entre o homem negro e a mulher branca? Exato. Ela tentou levar a discussão para esse lado, mas não teve sucesso. Estou certa de que os americanos não escolheram Obama por ele ser homem ou negro. Como não rejeitaram Hillary por ela ser mulher. Mas ela quis usar a carta do gênero em sua campanha. Os assessores que a cercam tentaram usar esse argumento como atrativo. Ela própria tentou conquistar apoios alegando ser um bom momento para ter uma presidente na Casa Branca. Mas é uma argumentação de que a maioria do eleitorado feminino não gosta. Mulheres querem escolher uma presidente não pelo fato de ser mulher, mas por ser melhor. Afinal, por que as feministas americanas, tão articuladas e influentes, negaram apoio a Hillary? Simplesmente porque as feministas não vêem Hillary como um modelo a ser seguido. Ninguém questiona que ela conquistou muitas coisas em sua vida, mas uma das principais razões para essas conquistas é o fato de ser e se manter casada com Bill Clinton. As pessoas não a vêem como alguém que construiu uma carreira pelo próprio esforço, como Obama. Se era hora de ter a primeira presidente, esperava-se que fosse um tipo diferente de mulher. A forma como ela reagiu ao caso Monica Lewinsky serviu como um ponto positivo ou negativo na construção de sua imagem? Acho que até influenciou positivamente. Ela angariou muita solidariedade naquele episódio, no papel de vítima. Como não fez escândalo, o que acabou transparecendo foi que ela é uma mulher equilibrada e forte. Algumas pessoas especulam que Hillary tenha aceitado passar pela humilhação pública numa espécie de acordo: ela apoiaria Bill naquele momento e ele a ajudaria a ser presidente no futuro. Os americanos têm uma imaginação fértil quando se trata dos Clinton, porque é um casal peculiar. Todos tentam explicar o relacionamento dos dois - e não conseguem. De alguma forma, ela foi uma primeira-dama diferenciada? A não ser por esse escândalo sexual, não tanto. Ela tentou ser participativa, chegou a assumir o comando da reforma do sistema de saúde e fracassou retumbantemente. Alguns a consideraram intrometida ou abusada demais e muito da antipatia que se tem por ela vem daí. Na América do Sul, ser mulher de ex-presidente pode significar ter cacife eleitoral, como foi o caso de Cristina Kirchner. Por que nos EUA isso tem um efeito negativo? Não tem efeitos apenas negativos. Mas na América do Sul e em alguns países asiáticos, como Sri Lanka, Índia e Bangladesh, isso tem sido um fator favorável na campanha de mulheres, porque há uma tradição de famílias permanecerem no poder. Nos EUA, isso soa como nepotismo. Sempre soou, mesmo com os Kennedy, os Bush e com Al Gore, cujo pai era senador. Não seria diferente com os Clinton. A senadora foi se desumanizando ao longo da campanha? Dizem que ela perdeu a humanidade há muitos anos (risos). Hillary tem uma persona pública estranha, que freqüentemente soa falsa e artificial. Talvez sempre tenha sido assim. Mas, ultimamente, ela tem agido como se fosse uma péssima atriz. Adotou uma linguagem cheia de insultos contra Obama, enquanto dava sorrisos falsos. Isso definitivamente não a ajudou. E pode impossibilitar uma chapa conjunta para o Partido Democrata? Ah, sim. Uma união entre os dois seria complicada porque há muita animosidade entre eles, seus assessores e aliados. Acho que Obama se sairia melhor sozinho, mesmo porque ele é melhor candidato do que ela. Pesquisas apontam que as mulheres partidárias de Hillary são mais velhas e, em muitos casos, donas-de-casa. Por que ela não tem apelo entre as mais jovens? É verdade que as mulheres mais velhas apóiam Hillary. Mas é preciso levar em conta que Obama tem mais apelo com a maioria dos jovens, homens e mulheres. Ele próprio é mais jovem. Hillary tem posturas claramente associadas à geração pós-1960 da política americana. Obama, por outro lado, tem pontos de vista distintos, usa uma linguagem original, diferente de todos os outros candidatos. Por isso, americanos que têm 35 anos ou menos se identificam mais com ele. É uma questão geracional, não de gênero. Que legado político Hillary deixa se permanecer na disputa?  Se desistisse agora, pelo bem do partido, ela se sairia bem e poderia permanecer como uma das figuras mais importantes entre os democratas. Por outro lado, levando a disputa até agosto e, assim, prejudicando Obama... As pessoas vão ficar furiosas. Aliás, já estão. Muitos correligionários já declararam que ela deveria ter desistido em fevereiro. Desistindo agora, talvez consiga manter algum capital político. Os fundadores da Nação americana foram, todos, homens brancos. O que seria mais renovador para os americanos: uma mulher ou um negro na Casa Branca? Depende do candidato, de como eles se sairiam em seu mandato. Neste caso, qualquer um dos dois democratas seria pioneiro: ou a primeira mulher ou o primeiro negro a chegar à presidência. Ambos representariam uma virada histórica. Mas Obama lideraria uma mudança mais radical, porque toda sua postura é diferente do que tivemos até aqui. Além disso, o passado dele é peculiar. Obama era pobre, não conhecia o pai, que é africano, sua mãe era hippie, ele cresceu no Havaí, viveu na Indonésia. Jovens acham isso atraente, especialmente porque as gerações americanas mais novas normalmente são metade isso, metade aquilo, têm ascendências misturadas. Os Estados Unidos têm Condollezza Rice como secretária de Estado e já tiveram Madeleine Albright no mesmo cargo. Além disso, Nancy Pelosi é a atual presidente da Câmara (Speaker of the House). São posições de destaque, mas não são o cume da hierarquia. O que as impede de chegar ao topo ? Acredito que ser secretária de Estado é estar no topo. Tanto Condollezza Rice quanto Madeleine Albright não foram modeladas como políticas. Elas são especialistas em relações internacionais. Nesse campo de atuação, ambas chegaram ao topo possível. Nunca quiseram ser presidente. Nancy Pelosi está no ponto mais alto do Congresso, cargo que muitos homens não conquistam nem chegam perto. E, se um dia ela se candidatar à presidência, talvez não se eleja, mas não por ser mulher. Por ser extremamente liberal e ter pontos de vista que não têm apelo nacional. Bom, nunca se sabe, mas não me parece que ela tenha muita chance agora. Talvez em 10 anos. Será que precisaremos de mais uma geração para ver mulheres no topo do poder? Sim. Como eu disse, muitas mulheres já ocupam postos de poder. Mas, em se tratando de presidência, os fatores que levam um candidato a se eleger são muito mais complexos, não são previsíveis. O possível fracasso de Hillary Clinton nessa corrida não quer dizer que outras mulheres não possam chegar lá. Na próxima geração, certamente teremos mais mulheres presidente ao redor do mundo.

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