O destino de Polanski

Por dois meses, o puritanismo americano e a indulgência francesa se digladiaram sobre o futuro do gênio do cinema cuja vida foi pintada em cores de pesadelo

Gilles Lapouge

17 de julho de 2010 | 16h00

Sombra. O cineasta Roman Polanski em seu chalé suíço, enquanto cumpria penitência da Justiça

 

 

 

Roman Polanski deixou seu chalé em Gstaad, na Suíça, e a pulseira eletrônica que o impedia de fugir, depois de ficar preso em casa de dezembro de 2009 a julho de 2010. A penitência lhe foi imposta pela Justiça suíça a pedido dos Estados Unidos, que pediam a extradição do cineasta para responder perante um juiz americano por fatos ocorridos há mais de 30 anos, em 10 de março de 1977, em Los Angeles. Naquele dia, Polanski manteve relações sexuais com uma menina de 13 anos, Samantha Geimer. Uma relação densa pela qual acabou sendo acusado de seis crimes, entre eles estupro e sodomia. Ele se declarou inocente.

 

Polanski é um dos maiores cineastas de todos os tempos. Suas atribulações inflamaram os espíritos: uns queriam sua caveira, porque violar uma criança de 13 anos é algo que não tem perdão; outros o defenderam, afirmando que esses horrores sexuais eram coisa antiga e os americanos não respeitaram um acordo extrajudicial de 1977. Por dois meses, ambos os lados, o da virtude e o do perdão, se insultaram. O que se pôde constatar foi que um profundo fosso cultural separa os americanos e a França. Puritanismo americano contra a tolerância ou indulgência francesa (quem sabe europeia)?

 

Nos EUA, jornais perseguiram Polanski. O Los Angeles Times e o Washington Post rejeitaram o argumento da antiguidade dos fatos: "Estuprar uma menina de 13 anos é imperdoável, mesmo depois de 30 anos". O New York Times lembrou que um "gênio não está acima da lei". Escritores americanos se calaram. Cineastas e atores condenaram Polanski. O governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, pediu a extradição. Kirk Douglas recusou apoio ao diretor.Por outro lado, Woody Allen, Martin Scorsese e David Lynch condenaram a sanha dos americanos.

 

Na França, foi o contrário: escritores, cineastas e alguns políticos uniram-se na defesa de Polanski, Jean-Luc Godard à frente. Bernard-Henry Lévy declarou sua enorme alegria por Polanski ter sido libertado, bem como dois ministros de Nicolas Sarkozy, o da Cultura e o das Relações Exteriores.

 

Os suíços estão divididos. Uns assumiram uma atitude severa em relação a Polanski, por reflexo moral e respeito à questão "jurídica". Mas muitas vozes deploram que a Suíça se tenha rebaixado a aceitar o princípio da extradição do cineasta. Eles se contrapõem ao "servilismo" das autoridades suíças no contexto de uma queda de braço que opunha, havia um ano, Berna a Washington, quando os EUA lançaram forte ofensiva contra a Suíça, o país da "lavagem de dinheiro".

 

Será possível deixar os dois lados se digladiando com seus argumentos morais, jurídicos, políticos e filosóficos para esclarecer a dimensão romanesca do caso e do destino de Roman Polanski? O destino dele foi marcado desde o começo pelo bizarro, o excessivo, o absurdo, e foi pintado com cores de pesadelo. Nascido na França, dois anos depois seus pais decidiram voltar para a Polônia, atravessando a Alemanha de Hitler. Com a guerra, em 1939, o pai e a mãe foram enviados para campos de concentração. Roman ficou no gueto, mas conseguiu fugir e se salvou hospedando-se em casas de famílias católicas.

 

Formado em cinema na Polônia, e já atraído pelas situações bizarras e pelo humor negro, realizou Uma Faca na Água, primeira obra-prima que mereceu a capa da Times. Optou por trabalhar na França, onde seguiram-se dois filmes cult, Armadilha do Destino e Repulsa, duas obras repletas de angústia com o mesmo domínio da forma dos filmes de Hitchcock. O espectador é "encarcerado" em um labirinto. Hollywood não poderia perder esse gênio e Polanski correu para a América, onde fez A Dança dos Vampiros e O Bebê de Rosemary. Filmes soberbos, mas assustadores, repletos de sangue, misticismo, bruxaria.

 

Obcecado pelas mulheres, casou-se aos 35 anos com a magnífica Sharon Tate. Dezoito meses depois, ela foi assassinada por um bando liderado pelo sórdido guru Charles Manson. De volta a Hollywood depois de cinco anos terríveis, fez com Jack Nicholson um fantástico filme policial, Chinatown. Foi aí que se entregou a um comportamento criminoso com a menina Samantha. Deixou os EUA e foi viver na França. Casou-se com uma atriz francesa, linda e jovem, Emmanuelle Seigner, com quem teve dois filhos. Parecia mais calmo, mas, com Emmanuelle como protagonista, realizou um filme mais obcecado do que nunca pelos temas sadomasoquistas, Lua de Fel. Aos 72 anos, voltou às amargas alegrias da infância com a adaptação da obra-prima de Dickens, Oliver Twist.

 

Universalmente admirado, feliz com a família, estaria enfim caminhando para uma velhice ativa e fecunda? Mas a cena do estupro não fora esquecida. A lembrança, que ainda se move de modo subterrâneo de um tribunal para outro abateu-se sobre ele quando a Suíça o condenou a prisão domiciliar.

 

Libertado, prepara-se agora para retomar a câmera, com um roteiro no qual trabalhou durante a solidão do chalé. Trata-se de um romance da grande escritora francesa Yasmina Reza: numa briga entre amigos, um desfigura o outro. Os pais das crianças decidem conversar "como pessoas civilizadas". Mas o encontro fracassa e se transforma em um ato burlesco, um pesadelo.

 

Por que Yasmina Reza quis que esse belo romance fosse levado ao cinema por Roman Polanski? "Porque", ela explicou, "Roman Polanski é um gênio dos temas huis-clos (tabu)." O título do filme? Le Dieu du Carnage (O deus da matança).

 

* Tradução Anna Capovilla

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