Los Angeles County Museum of Art
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O dia em que a Grécia antiga temeu que uma doença arruinasse sua democracia

Confiança mútua e liberdade de informação protegeram o sistema político ateniense naquela época

Redação, The Economist

10 de abril de 2020 | 16h00

É uma das descrições mais explícitas de uma sociedade desabando sob o peso de uma doença virulenta encontradas na literatura. Em 430 a.C., segundo ano de sua guerra contra Esparta, a vibrante cidade de Atenas foi atingida por um mal que causava pânico, desespero e a perda da fé em instituições e valores sagrados. Os sintomas incluíam uma febre fora de controle, ânsia, convulsões e desfiguramento. De acordo com Tucídides, “a catástrofe foi tão terrível que os homens, sem saber o que lhes aconteceria em seguida, se tornaram indiferentes às regras da religião e da lei".

No seu relato, Tucídides situa imagens horripilantes da peste imediatamente após uma oração pelos mortos em guerra comandada por Péricles—discurso que celebra a abertura e o otimismo igualitário do estado ateniense. Talvez a ideia da justaposição seja enfatizar a destruição causada pelo flagelo. Mas há um consolo: pesquisas modernas indicam que o historiador da antiguidade estava enganado, e apesar da documentação ser incompleta, hoje acredita-se que a crise é na verdade uma prova da resistência da democracia ateniense, e não de sua fragilidade.

Foi sem dúvida um episódio que levou a cidade a reavaliar sua posição. Atenas, estrela entre as cidades-estado gregas, foi profundamente afetada pela doença. A epidemia foi o primeiro evento de uma sequência catastrófica que duraria três décadas: erros de cálculo militares, uma violenta guerra civil entre democratas e oligarcas, golpes de força, e a rendição à Esparta em 404 a.C. Os espartanos enviaram homens armados para fechar a assembleia da cidade e impor um regime autoritário. Aos que assistiam tudo em primeira mão, a impressão deve ter sido a do fim do primeiro experimento mundial de governo popular.

Mas tal conclusão seria prematura. A peste de Atenas e sua sequência não foram um evento sísmico se comparadas à peste posterior que teve início em 540, mantendo-se recorrente por mais de dois séculos e destruindo o mundo romano tardio, ou a Peste Negra, quer começou perto de 1350 e quebrou a sociedade feudal europeia. Em Atenas, a democracia foi mais forte que a doença; de acordo com Josiah Ober e Federica Carugati, da Universidade Stanford, em estudo a ser publicado, em vez de ruir, o sistema ateniense evoluiu.

É verdade que pelo menos um quarto dos cerca de 300 mil habitantes da cidade e seus arredores morreu—muitos, de acordo com livro recente de Ben Akrigg, da Universidade de Toronto, por causa do colapso no fornecimento de comida, e não por causa da doença em si. Mas há evidência da solidez das instituições atenienses. Pensemos no destino de Péricles, eleito como um dos dez comandantes militares da cidade em cada um dos 30 anos precedentes. Conforme a raiva se acumulou, ele foi deposto antes do fim do mandato—mas graças a um procedimento democrático, e não por uma multidão furiosa. No ano seguinte, foi reeleito, mas acabou sucumbindo à peste.

Ou pensemos na continuidade da vida artística na cidade, incluindo festivais anuais de teatro que exigiam uma vasta e cara organização. Como aponta Jennifer Roberts, da City College of New York, os atenienses foram presenteados em 429 a.C. com a peça “Édipo Rei”, marco da literatura mundial. Seu retrato de um rei que tenta aplacar a fúria de Apolo, que assumiu a forma de uma peste mortífera, encontrou um público que suspeitava que sua cidade tivesse ofendido ao deus. Em meio ao caos dos 30 anos seguintes, os dramaturgos seguiram produzindo tragédias pungentes e farsas hilárias.

Virtudes da democracia

Para Ober, a chave dessa resiliência estava na “vantagem democrática” desfrutada pelos atenienses, algo em comum com outras sociedades baseadas na liberdade de expressão e nos direitos universais. “Somos uma democracia", disse Angela Merkel aos alemãs na semana passada. “Não chegamos aos resultados pela força, e sim pela cooperação e compartilhamento do conhecimento.” Muito disso também valia para a antiga Atenas, que no seu auge defendia o discurso da verdade, acreditando que as boas informações expulsariam as ruins.

Aquilo que a cidade fazia melhor, como as montagens de teatro, a construção de navios e o treinamento de sua tripulação, eram atividades que exigiam recursos do governo e contribuições voluntárias dos ricos—algo que hoje chamaríamos de parcerias público-privadas. E, apesar do desgaste, essas atividades e a sensação de confiança mútua e serviço público que as sustentava perdurou durante a peste. Por exemplo, contrariando as expectativas, em 429-428 a.C. os atenienses venceram uma batalha naval contra uma frota do Peloponeso perto de Patras.

Essas virtudes democráticas perderam força nos anos posteriores à peste, às vezes dominados por demagogos cínicos, mas não desapareceram. Ajudou o fato de os oligarcas que tomaram o poder em 411 a.C. serem incompetentes, durando apenas alguns meses—e, após um breve período de guerra civil, os espartanos aparentemente perderam o interesse nos assuntos de seus adversários vencidos. Em seguida a democracia foi restaurada em Atenas. Para sobreviver, ela se adaptou.

Além dos méritos artísticos, o brilhante século quinto antes de Cristo teve o apogeu do “demos”, o corpo de cidadãos homens livres dotado do poder de conduzir a cidade. No século quarto, menos brilhante, o demos era equilibrado com um processo judicial prevendo multa e até execução de um cidadão que assumisse na assembleia conduta enganosa para o povo ou em desvio da constituição. Parece uma medida draconiana, mas, para Federica, há uma analogia com limites judiciais posteriores à autoridade, como a suprema corte dos Estados Unidos.

A julgar pelo caso ateniense, após uma terrível epidemia, a tolerância às decisões impensadas diminui. Enquanto isso, ainda que a hemorragia de mão de obra tornasse difícil a condução da guerra, táticas prudentes e uma diplomacia astuta permitiram que uma Atenas reformada recuperasse o poder de influência na interminável disputa entre cidades-estado gregas.

O impacto da peste, que teve surtos ao longo de muitos anos, não deve ser subestimado. Foi parte de uma reação em cadeia que levou ao fim do império de Atenas. Mas a vontade de viver da cidade era tal que ela resistiu, mais ou menos democraticamente, por mais oito décadas, até suas liberdades serem finalmente suprimidas pela Macedônia em 322 a.C. Hoje, essa resistência é um precedente que traz tanto alento quanto o glorioso auge ateniense. / Tradução de Augusto Calil

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