O dia em que a pira... pirou

Em meio a denúncias e crise política, governadora gaúcha consegue atrair até a fúria dos elementos

Charles Klefer,

21 de setembro de 2009 | 08h01

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A grande fotografia é aquela capaz de aprisionar um instante significativo e sintetizar num único quadro a história e suas contradições. E o grande fotógrafo, às vezes, é aquele que esteve com a câmera apontada exatamente para esse ponto único no espaço onde o símbolo de um momento se condensa.

 

Nessa semana, em que principiamos os festejos de uma guerra que perdemos, e da qual estranhamente nos orgulhamos, ao acender a pira da "chama crioula", esse fogo que representa aqui a Revolução Farroupilha, a governadora Yeda Crusius viu-se envolta em chamas, e livrou-se por pouco de um grave acidente. Um escapamento de gás quase transformou a comemoração de uma tragédia noutra tragédia, sob as lentes de Daniel Marenco, o fotógrafo.

 

Diante das tantas situações estranhas, exóticas e inusitadas que envolvem a figura de nossa mandatária nos quedamos "pasmados", como diria o Fernando Pessoa. Ou há, no Estado, um gigantesco complô contra ela, capitaneado por "forças ocultas", ou há nela uma gigantesca "força oculta" que faz com que atraia sobre si a fúria dos elementos (e nem só da oposição, pois os primeiros tiros vieram de trincheira amiga, do próprio vice-governador).

 

Mais que chamas, um mar de suspeitas nos assombra.

 

Nem bem nos recuperamos de outras fotos patéticas (ela carregada nos braços de um oficial da Brigada Militar, depois que um palanque desabou; ela aprisionada na própria mansão, fotografada como que detrás das grades de uma prisão) e somos surpreendidos com mais essa pérola, ela sendo imolada simbolicamente pelas chamas, como que vítima de um sacrifício ritual. Um de seus mais fiéis defensores, e deputado, num instante de perplexidade, exclamou que a governadora devia ter atirado pedra na cruz!

 

Já não temos palavras e as fotos valem por mil, como se dizia antigamente.

 

A foto dessa semana é, em si mesma, um retrato do clima incendiário que estamos vivendo já há vários meses, desde que surgiram suspeitas de envolvimento de altas lideranças políticas num esquema fraudulento que desviou R$ 44 milhões do Detran. Acossado pelas chamas, o presidente do Tribunal de Contas afastou-se do cargo, para tratar da saúde. Há mais tempo, um alto servidor perdeu toda a saúde no Lago Paranoá, e não sabemos ainda, conclusivamente, se foi por "morte morrida" ou por "morte matada", como se dizia nos idos de nossa "gloriosa" república dos farrapos.

 

As labaredas da Operação Rodin já chamuscaram e destruíram a reputação de dezenas de pessoas, queimaram secretários, assessores, servidores, e estão levando o Estado a uma situação patética, acirrando ainda mais o já natural clima de confronto que nos divide, raivosamente, em gremistas e colorados, governistas e oposicionistas, como já nos dividiu, no passado, em pica-paus e maragatos, borgistas e castilhistas, monarquistas e republicanos.

 

O atual governo esteve envolto em chamas desde seu começo. E, com o passar do tempo, muito combustível foi jogado na fogueira. Aqui, aliás, a política, desde sempre, é feita a ferro e fogo. Começamos com os bandeirantes, expulsando a fogo de bacamarte os religiosos espanhóis das reduções guaraníticas, passamos pelos incêndios das fazendas e das degolas (nas revoluções de 1893 e 1923), atravessamos o país com Getúlio Vargas armado até os dentes, nos entrincheiramos com Brizola no Palácio Piratini em 1961, tocamos as trombetas da guerra quando Olívio Dutra chegou ao poder e agora, diante das suspeitas de corrupção, não damos trégua à primeira mulher que nos governa. A começar por Paulo Feijó, que ainda na campanha eleitoral, desentendeu-se com a então candidata.

 

Se hoje as chamas chamuscam os cabelos da primeira dama, o primeiro incendiário foi o vice-governador. Sem buscar consenso, fazendo política com arrogância e mão de ferro, desprezando os próprios aliados, oxigenando os conflitos com confrontos, a governadora semeou ventos e hoje colhe tempestades, inclusive de fogo. Enquanto o gás explodia diante da governadora em grandes labaredas na pira simbólica de nossa guerra perdida, na Assembleia Legislativa outra guerra se declarava - a de seu impedimento por improbidade administrativa. Essa guerra que a oposição comanda repetirá os feitos de nossos guerreiros farrapos: serão energia e tempo perdidos, pois a base aliada já decidiu pela absolvição, por pragmatismo, independentemente dos indícios ou das provas, se surgirem. Se a governadora fosse afastada do cargo, assumiria Paulo Feijó, o terror dos pampas, o homem que gravou o subordinado que tentava explicar-lhe o funcionamento da realpolitik. De Bismarck Paulo Feijó não tem nada. Se é difícil com Yeda, com Paulo seria pior, ponderam os velhos sábios da política. E se esse não pudesse assumir, por este ou aquele motivo, o cargo cairia no colo de Ivar Pavan, o presidente da AL, que é petista, o que pavimentaria o caminho para Tarso Genro.

 

Se a governadora for, realmente, inocente de todas as acusações que lhe impingem, se o Ministério Público Federal se equivocou ao incluí-la no processo que encaminhou à Justiça Federal de Santa Maria, estamos realizando aqui a maior e mais vil injustiça de todos os tempos. Se assim for, o futuro nos acusará de termos feito seu linchamento pelo simples fato de ela ter sido uma mulher forte e determinada, capaz de mexer em feudos corporativos, e também por ter sido "estrangeira", mais precisamente, paulista.

 

Nesse dia, então, é bom que se apague, definitivamente, a tal de "chama crioula", e se acenda outra, a "chama da nossa vergonha", diante da qual deveremos nos persignar e orar à Santa Mártir que nos governou.

 

*Escritor e professor da PUC-RS, onde leciona escrita criativa, sociedade, literatura e cultura, é autor de O Pêndulo do Relógio (Amarilys)

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