Wikimedia Commons
Wikimedia Commons

O dia em que Petrarca escalou a montanha em busca de si mesmo

Inventor do soneto, o poeta renascentista também foi um exímio alpinista

Everardo Norões*, Especial para o Estado

17 Fevereiro 2018 | 16h00

Petrarca, inventor do soneto, homem do Renascimento, é menos conhecido por sua proeza de alpinista. Num 26 de abril de 1336, ele teria sido o primeiro a galgar o Ventor. O monte Ventoux, em francês, nos Alpes, tem 1.912 metros de altura. Foi batizado pelos ventos que ali chegam a atingir 300 km por hora. Mesmo hoje em dia, o lugar é uma das mais temíveis etapas para quem participa do famoso Tour de France de ciclismo. 

+++Epopeia de Gilgámesh ganha nova edição no Brasil

O relato da ascensão do poeta, peça literária de um Petrarca então com 32 anos, é feito em carta dirigida ao monge Dionigio da Borgo San Sepolcro, seu confessor enquanto o poeta viveu na Avignon dos antipapas, detestada e chamada por ele de nova Babilônia, “inferno dos vivos, esgoto da terra, a mais fedorenta das cidades”. 

Antes de galgar a montanha Petrarca procura alguém para acompanhá-lo na façanha. Logo se desilude. Entre os amigos nenhum deles parece lhe convir. Avalia as qualidades de cada um. Constata que se um é agitado, outro é extremamente moroso; se um terceiro peca por ser taciturno, outro lhe parece tão alegre que lhe traria transtornos durante a jornada. Em casa e com caridade, conclui, inconvenientes assim são toleráveis, mas numa marcha como aquela não seria suportável. Então, convida Gherardo, irmão mais novo, e partem acompanhados de dois domésticos que os ajudam na subida árdua da montanha talhada a pique.

No caminho íngreme, próximo ao cume, as pedras rolam, maltratando os pés dos andarilhos, com risco de acidentar os que vão atrás. Encontra um pastor que o desencoraja a continuar, mas o poeta não desiste e deixa à guarda do homem roupas e objetos para tornar menos pesada a última etapa do percurso. Petrarca conta que num determinado trecho enganou-se e enveredou por um caminho distinto do seguido pelo irmão. Após algum tempo se dá conta que estava descendo em direção ao vale, em vez de prosseguir na subida. Aproveita o incidente para comentar, na carta, que o gênio do homem “não suprime a natureza das coisas e é impossível que um corpo consiga chegar ao alto descendo”. 

Petrarca alcança o topo. O ineditismo da expedição não reside apenas no fato de ele ter sido supostamente o primeiro a chegar ao Ventoux e, de lá, descobrir uma vista nunca contemplada. Jean-Louis Hue, no livro L’Apprentissage de la Marche, registra que, na época, caminhar não tinha o mesmo sentido de agora. Não se andava por desporte ou para a contemplação, mas por necessidade ou peregrinação a algum lugar santo. Os deslocamentos eram coisa corriqueira, não mereciam comentários. A carta de Petrarca é diferente. Trata da marcha com todos os detalhes ‘técnicos’, como se o motivo fosse somente o desejo de contemplação, o ‘cupiditas vivendi’, a cupidez do ver. Ou a vontade de reinventar a paisagem, enquanto lugar da diferença e da distância. 

Mas o poeta não esclarece o motivo que o leva à escalada. Qual a razão de sua busca das alturas? Apenas para contemplar do alto coisas terrenas? Ou para remediar o mal que no seu tempo se chamava de acédia, a accidia latina, que tudo torna ácido, “doença do diabo”, algo que hoje tem a ver com a depressão, a melancolia profunda, enfraquecimento da vontade? 

Chegado ao auge do Ventor, o poeta abre o livro Confissões, de Santo Agostinho. O acaso liberta uma página com o tema de confissões e do milagre da memória. O irmão de Petrarca, que depois se tornará monge, está de pé diante dele para ouvir a leitura em voz alta: “Os homens se deixam admirar pelos cumes das montanhas, as ondas do mar, os circuitos do oceano, as revoluções dos astros e se esquecem deles mesmos...” O poeta escreve que, irritado por ainda admirar as coisas da terra e já tendo visto bastante a montanha, dirigiu para si mesmo seus “olhares interiores”. 

E a carta se encerra sem nada falar sobre a descida. Nesse “encontro” com Agostinho, no cume do monte Ventoux, Petrarca antecipa o ‘diálogo’ que os dois irão travar, anos depois, no livro Meu Segredo. O poeta Denys Montebello, seu tradutor, comenta que Petrarca tenta, nesse texto, fazer do estado de acédia uma graça, levando-nos a pensar sobre o artista melancólico, “pecando pelo excesso de consciência e, ao mesmo tempo, dotado de um sublime poder de invenção”. 

A carta narrativa de Petrarca foi posta em dúvida e mereceu análise minuciosa pelo medievalista Nicholas Mann, para quem a descrição da ascensão ao Ventoux é plena de contradições e um exercício de alegoria. Pouco importa se o transporte de Petrarca a um outro plano foi uma elevação mística ou confissão sublimada ao seu guia espiritual. Deixou-nos uma das mais belas cartas da literatura, a moderna descrição da paisagem, a ideia de que o caminhar vai além do que antes se fazia. E talvez tenha sido a inspiração para uma outra peça essencial da literatura italiana, o poema O Infinito, da autoria de um Leopardi enfermiço que mal saía de seu gabinete de leitura.

*É poeta, autor dos livros 'Melhores Mangas' (2016) e 'Entre Moscas' (2013)

Mais conteúdo sobre:
Poesia literatura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.