O diabo nos detalhes

Uma vez, o escritor Marcelino Freire divulgou o manifesto Vamos Todos Processar Roberto Carlos. Foi em 2007, na época que o cantor acusava o biógrafo Paulo César Araújo de invasão de privacidade com o livro Roberto Carlos em Detalhes. O manifesto dizia assim: "Ele sim, Roberto, sempre invadiu nossa privacidade, nossa casa no Natal, invadiu nosso carro, nosso motel, nossa estrada de Santos".

JOTABÊ MEDEIROS, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h06

O senso de humor anárquico de Marcelino Freire parecia puro escracho, mas tinha dupla função: reafirmava sua crença na importância de Roberto Carlos para a cultura popular brasileira, mas também lembrava que a obsessão do cantor em proteger os detalhes de sua vida pessoal convertera-se numa espécie de ingratidão com os fãs, que não são poucos. A intimidade de gente comum com sua vida era a essência de sua obra. Roberto ajudou a dissolver barreiras de classe social, idade, sexo. Mas detalhes de copyright, para Roberto, nunca são tão pequenos a ponto de passarem despercebidos.

Foi com esse zelo que ele soube que o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, tinha usado trecho da versão em espanhol de Detalhes na campanha. Não deu outra: mandou processar Maduro. Vai pedir indenização por uso indevido de sua obra.

O leitor que não é fã de Roberto nem simpático ao bolivarianismo venezuelano poderia pensar: o que aproxima esses personagens? Não é algo tão misterioso. O então candidato Maduro, como Roberto, ao ver-se órfão político, buscou impregnar seu discurso de referências místicas e religiosas para reforçar o elo com o finado Chávez. Chamou a si mesmo de "apóstolo" e disse que conversou com o presidente morto, ressurgido na forma de pássaro. "Grandes forças internas nos movem no âmbito espiritual. Acreditamos cada vez mais nos valores de Cristo, em seu legado", declarou Maduro, improvisando uma espécie de socialismo messiânico (que acabou surtindo efeito).

Como Maduro, Roberto é um extremista do misticismo. Contam que quando da morte de sua mulher, Maria Rita, em 1999, por vezes encontraram-no conversando com plantas em casa. Por suas crenças particulares, mudou letras de diversas composições. Além do Horizonte, por exemplo, perdeu o verso "se você não vem comigo/ nada disso tem valor/ de que vale o paraíso sem amor" - agora só canta "porque você vem comigo/ tudo isso tem valor/ pois só vale o paraíso com amor". Fez isso para extirpar alguma "negatividade" que o verso carregava.

Como se vê, personagens peculiares. Habitam um território de crenças difusas e de origens sincréticas. Mas, além do além, Roberto demonstra um zelo ainda mais extraordinário sobre duas coisas: sua fase bad boy na Jovem Guarda e sua fortaleza apolítica. Detesta ser associado a movimentos políticos. Uma vez, em 1965, fizeram-lhe várias perguntas. A qual partido se filiaria? "PBL, Partido Barra Limpa, bicho!". Em quem votou? "Erasmo e Wanderléa". O que acha da política? "Um negócio complicado".

O debate nas redes sociais, como sempre, é um pouco destemperado no caso Maduro. "Roberto processaria Obama pelo mesmo motivo?", indagou um rapaz no Facebook. Boa questão. Mas Roberto, embora um artista de perfil conservador, parece manter seus melindres para além das academias políticas. Em 1968, já era execrado pela esquerda nacionalista brasileira, que o desprezava pelo que considerava alienação.

Roberto tem escopo político definido. Disse que gosta do jeito de Dilma governar, mas talvez não a pouparia em caso semelhante. Ademais, políticos americanos que enfrentaram problemas idênticos foram resolver isso num tribunal (caso de Mitt Romney, que usou música da banda The National sem autorização e levou um processo).

A eleição de Maduro foi limpa, segundo observadores internacionais. Mas a questão de Detalhes vai exigir recontagem de escrúpulos, pois foi, de fato, apropriação indébita. Sibá Machado, do PT, tuitou o seguinte: "Roberto Carlos deveria estar alegre com seu fã Nicolás Maduro". Ora, senador, direito autoral é uma questão crucial nos dias de hoje. Essa posição pode ser politicamente alinhada, mas não é assim tão simples. A obra pertence ao artista e só ele pode flexibilizar ou autorizar seu uso - ao contrário das biografias que Roberto tem tirado de circulação, aí sim um claro caso de ignorância quanto ao direito de imagem.

Ainda assim, compreende-se o deslize de Maduro perfeitamente: não há um só ser vivente aqui na América Latina que não tenha a impressão de que as músicas de Roberto sejam todas de domínio público. É como quando passava o caminhão de gás tocando Pour Elise, de Beethoven - ninguém tinha a menor dúvida de que a música pertencia ao caminhão de gás. Impossível não pensar que um standard como Um Milhão de Amigos, em qualquer idioma, não nos pertença por direito. "Yo quiero tener un millón de amigos/ Y así más fuerte poder cantar".

E, para os brasileiros, esse repertório sempre nos pareceu de posse exclusiva: Roberto é nosso! O que estava fazendo na campanha venezuelana? E na boliviana, de Evo Morales? Não há como não sentir a tentação de pegar e levar para casa - muito embora, as versões para espanhol das músicas de Roberto e Erasmo fiquem léguas aquém das originais em português. Não nos parece natural que o lendário verso "se um outro cabeludo aparecer na sua rua/ e isso lhe trouxer saudades minhas a culpa é sua" se torne "si otro hombre apareciera por tu ruta/ y esto te trajese recuerdos mios la culpa es tuya". O verso de Detalhes em português, divertido, carrega um espírito de época (a hegemonia patropi dos "cabeludos"), que se perde em espanhol. Muita poesia descarrilou nessa transposição. Como em Amigo, na qual os versos em espanhol parecem um memorando: "Tú eres mi hermano del alma realmente el amigo/que en todo camino y jornada estás siempre conmigo/aunque eres un hombre aún tienes alma de niño/ aquel que me dá su amistad su respeto y cariño."

Mas a verdade é que, malgrado as versões, Roberto Carlos é um monumento latino-americano, e faz muito tempo. Suas canções estão tão impregnadas nas culturas dos vizinhos quanto nas nossas. Em maio de 2008, durante um show no Carnival Center de Miami, que marcava um retorno do músico aos EUA, após quase dez anos sem desembarcar lá, o que se viu foi um artista capaz de aproximar cânions culturais. A plateia era hegemonicamente hispânica: colombianos, chilenos, argentinos, mexicanos, cubanos. Roberto contrabandeia emoções de um mundo para outro sem sentir peso nas costas, impõe suas versões com a mesma fleuma com que faz shows num estádio em Cachoeiro do Itapemirim ou numa casa de shows de subúrbio no Rio.

Na segunda-feira, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, ironizou o músico Roberto Carlos, que pretende pedir indenização pelo "uso indevido" da música Detalhes em uma propaganda chavista. "Temos de pedir direitos autorais para poder cantar", disse Maduro.

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