O dilema da gripe suína

Melhor o vírus circular menos ou deixar que as pessoas criem anticorpos? Infectologista analisa a questão

David Uip*, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2009 | 23h42

O vírus influenza suíno frequentemente infecta porcos, mas em raras ocasiões pode atingir pessoas. A primeira descrição de isolamento desse organismo em humanos ocorreu em 1974. Dois anos mais tarde, o vírus em questão causou doença respiratória em 13 soldados, levando a uma morte no Forte Dix, em Nova Jersey. Estudos posteriores demonstraram que mais de 230 soldados foram infectados, embora o surto não tenha sido correlacionado à exposição a porcos.

No final de março e início de abril de 2009, surgiu uma doença respiratória, observada num primeiro momento em pacientes mexicanos, relacionada ao vírus influenza A H1N1, que rapidamente atingiu Estados Unidos, Canadá e vários países do mundo, por conta, principalmente, das viagens aéreas. Até 6 de julho, mais de 94.500 casos foram notificados em 122 países, com 429 óbitos e uma taxa de letalidade de 0,45%. As maiores taxas de letalidade encontram-se na América do Sul e Central: Argentina, com 2,41%; Uruguai, com 2,05%; República Dominicana, com1,85%; Colômbia, com 1,69%.

Análises iniciais da Organização Mundial da Saúde demonstraram que a transmissibilidade do vírus influenza A H1N1 parece ser maior que a do vírus influenza sazonal. O vírus A H1N1 é considerado contagioso a partir de um dia antes do desenvolvimento dos sinais e sintomas até o desaparecimento da febre. Em termos práticos, até 7 dias após o período da doença em adultos e, mais longo, até 14 dias em crianças.

Aproximadamente 2% a 5% dos casos confirmados nos Estados Unidos e Canadá necessitaram de hospitalização, comparados com 6% no México. As causas que mais motivaram a internação foram pneumonia e desidratação. Dos 553 adultos infectados na Califórnia, os fatores de riscos mais identificados como predisponentes para complicações foram doença crônica pulmonar (37%), condições imunodepressivas (17%), doenças cardíacas (17%); diabetes mellitus (13%) e obesidade (13%).

O impacto da pandemia na população depende, na verdade, de três determinantes: capacidade do vírus de causar doença e de ser tansmitido, vulnerabilidade da população e capacidade de resposta individual. A vulnerabilidade a um vírus pandêmico é relacionada em parte ao nível de imunidade pré-existente das pessoas e das suas condições, inclusive médicas, que, quando desfavoráveis, podem aumentar o risco de complicações da doença e evoluir para óbito. Portanto, quanto mais o vírus circular, maior o risco de os indivíduos adoecerem. Mas, de outra forma, um número expressivo da população deverá adquirir anticorpos protetores.

O Brasil se aproxima de mil casos confirmados da doença, a grande maioria já curada. É interessante conhecer a sua origem epidemiológica: 16,5% encontram-se em investigação, 23,4% são autóctones, ou seja, foram adquiridos no Brasil, a maioria após contato com brasileiros que viajaram para o exterior, e 60,1% foram importados dos seguintes locais: Argentina, 63,2%; Estados Unidos, 19,4%; Chile, 9,3%; e mais uma dezena de países com números inferiores a 2%.

No dia 23 de junho, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo e o Ministério da Saúde do Brasil recomendaram que as pessoas evitassem viajar para Argentina, Chile e outros países que registraram transmissão da doença. A indicação era dirigida especialmente a mulheres grávidas, pessoas imunodeprimidas, doentes crônicos, crianças com menos de 2 anos e adultos com mais de 60. A medida em nada contradiz as diretrizes da Organização Mundial da Saúde, mas recebeu duras críticas do governo chileno.

Como infectologista e diretor de um dos hospitais de referência do Estado de São Paulo, presenciei quintuplicar o número de atendimentos no Pronto Socorro após o feriado de Corpus Christi, seguramente motivado pelo binômio chegada do inverno e retorno das viagens. Por isso, não só aplaudi a medida como passei a adotá-la para quem perguntava a minha opinião.

E aí começaram as minhas maiores dificuldades. Se convencer os pais, que já haviam feito e pagado as reservas das passagens aéreas e dos hotéis, a desistir da viagem era complicado, fazer o mesmo com os filhos e os jovens em geral tornou-se missão quase impossível. Cobravam-me quanto à teoria de que, quanto mais circular o vírus, mais pessoas terão anticorpos protetores. E apresentavam-me extensas revisões da literatura, via internet, todas realizadas por leigos, mas nem por isso menos competentes, contradizendo a orientação do governo. No entanto, considerando os dados de morbiletalidade apresentados mais acima e na tentativa de se conter, na medida do possível, a disseminação do vírus no Brasil, foi indiscutível a adequação da decisão brasileira.

Nessa semana, a celeuma atingiu os campos de futebol, quando o Cruzeiro tentou cancelar o jogo em La Plata, capital da província de Buenos Aires, por causa do temor de contágio pelo vírus. Em vão. A CBF endossou a determinação da Conmebol e a data e o local do jogo foram mantidos. O representante brasileiro, conseguiu um bom resultado no placar, com o 0 a 0 fora de casa. Espero que no jogo de retorno, em Minas Gerais, o elenco esteja completo, sem desfalques, por conta da gripe importada.

* Médico infectologista, professor titular da Faculdade de Medicina do ABC e diretor do Instituto de Infectologia Emilio Ribas da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo

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