O drama de ser mulher de milionário no Brasil

Daniel Dantas, Naji Nahas e Celso Pitta podem até estar sabendo por que foram presos durante a semana, mas a verdade é que a sociedade brasileira não sabe muito bem por que os prendeu. A maioria aprovou a ação - rico algemado é tão divertido quanto pobre de limosine -, mas não há cidadão razoavelmente bem informado que de vez em quando não pare pra pensar que diabos os fundos de pensão têm a ver com as calças. E o Marcos Valério, meu Deus do céu, como é que surgiu o nome dele junto com o da irmã de Daniel Dantas, o do filho de Naji Nahas, o próprio Celso Pitta, mais o Mangabeira Unger, o Gushiken, a Brasil Telecom, a CPI dos Correios, um certo João candidato a presidente, a Amazônia Celular, o mensalão, o Gilberto Carvalho, o Eike Batista e o escambau?O José Dirceu a gente até entende. O ex-ministro virou personagem itinerante dos escândalos em cartaz. Um vilão de meia dúzia de novelas simultaneamente no ar em emissoras diferentes. Mas, fora ele, está cada vez mais complicado entender o noticiário desde que todas as falcatruas nacionais começaram a convergir para o mesmo golpe. Como se houvesse uma única quadrilha em atividade no País, controlando tudo: do mercado financeiro ao achaque a camelôs da região da Mooca, passando pela emissão fraudulenta de carteiras de motoristas e pela privatização das teles.O povão, coitado, sabe o que é roubo, furto, estelionato, latrocínio, estupro, seqüestro relâmpago, "saidinha" de banco, assassinato, 171, "boa noite, Cinderela!", bafômetro... De repente, só se fala em gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, informação privilegiada, sonegação fiscal, espionagem... Cá pra nós, chamar uma operação policial de Satiagraha já é meio caminho andado para não esclarecer coisa nenhuma. O povão não entende nada, mas está adorando a farra. Eu tenho pena é das mulheres dos milionários brasileiros que não fazem a menor idéia do que seus respectivos maridos fazem nos bancos, nos gabinetes palacianos, nas Ilhas Cayman... Senhoras finíssimas que leram nos jornais que o Ministério Público considera a mulher de Daniel Dantas "laranja" dele por ter uma empresa em seu nome e movimentar uma conta bancária da respectiva pessoa jurídica. Nove entre 10 madames brasileiras praticam este expediente sem nunca ter imaginado que isso pode dar cadeia.É especialmente para essas adoráveis peruas - até porque o povão não sabe nem o que é workshop - que eu sugiro a criação de um centro permanente de atualização básica em matéria de crimes financeiros. Ninguém merece ter seu jardim pisoteado por agentes da Polícia Federal sem fazer a mínima idéia do que está acontecendo.Indignado-morO Rio de Janeiro pode até não estar lá muito satisfeito com seu governador nesta trágica temporada da Segurança Pública no Estado, mas, como sempre, em situações de aparente falta de controle do poder constituído, o carioca ganhou apoio incondicional de Sérgio Cabral. Se alguém de Marte chegar ao Rio em dia de fúria assassina da Polícia Militar, vai pensar que aquele gordinho indignado na TV é o pai da vítima. Tio, talvez! Esta semana, aconteceu de novo. Se não foi o primeiro, o governador foi o segundo a chamar os policiais que mataram aquele garoto de 3 anos, fuzilado sem mais nem menos dentro do carro da mãe, de "animais", "assassinos", "incompetentes", "débeis mentais"... Se não é a turma do deixa-disso, ele teria dado uns tapas nos seus comandados. É bom ver gente como a gente no poder, mas quando o governador diz "basta!", já viu, né? Melhor o carioca se queixar ao bispo.Jackson RicuperoJesse Jackson virou uma espécie de Rubens Ricupero americano ao ser flagrado pelo microfone indiscreto de um estúdio de TV dizendo coisas que até Deus duvida. No intervalo de um programa na Fox News, o reverendo manifestou vontade de "cortar as bolas de Obama fora". Depois, pediu desculpas e ficou tudo bem. Em 1994, o então ministro Rubens Ricupero foi flagrado na TV Globo dizendo barbaridades sobre o governo e acerca de sua própria falta de escrúpulos. Pediu desculpas, mas caiu do cargo.

O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2008 | 00h50

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