O efeito Raúl, para peles sensíveis

No fim do expediente da última segunda-feira, o economista cubano Mauricio Font, diretor do Bildner Center, instituição de estudos sobre as Américas, deixou seu escritório em Nova York, digamos, meio intrigado. Não conseguia acessar os jornais Granma e Juventud Rebelde pela internet. Foi para casa com aquilo na cabeça. Dormiu, mas às 5 da manhã levantou-se para conectar as páginas eletrônicas dos dois mais importantes jornais de Cuba. Conseguiu. E lá estava a notícia: após 49 anos de comando, Fidel Castro Ruz, de 81, anunciava que não disputaria os cargos de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas. Font admite que ficou cismado com o sumiço dos sites horas antes, mas jura não ter se surpreendido com a notícia-bomba. No Cuba Project, um dos departamentos do Bildner, ele realiza um trabalho curioso, entre pesquisas e seminários que promove sobre sua terra de origem. Auxiliado por universitários americanos, vem analisando o conteúdo dos pronunciamentos de Fidel desde seu afastamento do poder, em 2006, para tratamento de saúde. "Sim, ele preparou a saída, quer assistir à transição e assumiu para si o papel crepuscular de gladiador contra os Estados Unidos", explica Font, também PhD em Sociologia pela Universidade de Michigan. Nascido na Província do Oriente, filho de ex-funcionário de uma empresa americana na ilha e emigrado para a América em 1961, é um cubano-americano pró-diálogo. Ou seja, representa uma minoria dentro da minoria, mas acha que um dia seu "time" vencerá: a lei Helms-Burton, que endurece o embargo ao país caribenho, vai caducar, Guantánamo não terá base militar americana, Cuba contará com outros líderes e as pessoas poderão dizer o que pensam. Nesta entrevista ao Aliás, o "cubanólogo" faz revelações importantes. Como a de que Raúl Castro não é um mero apêndice do irmão. À frente de generais e coronéis que chefiou no Exército, Raúl lidera a ala pragmática, que se contrapõe à ala dura, liderada por Fidel. "Eu não me preocupo com Cuba depois de Fidel, mas com Cuba entre dois Castros." Tensões entre reformistas e ortodoxos existem, garante Font, e as eleições deste domingo na ilha podem já evidenciar os primeiros sinais do embate.O afastamento de Fidel dos seus mais importantes cargos tem a ver com mudança de poder ou manobra do poder?Mudança. Estamos diante de um novo capítulo da história cubana, não tenho dúvidas. Fidel tem jogado um papel fundamental no país, por mais de meio século, portanto, seu anúncio não foi uma coisa banal. Agora, há sinais de continuidade do processo também. Fidel continuará a influenciar o aparelho de Estado e permanecerá muito vivo no nível simbólico, favorecido por sua capacidade de articulação e sua projeção mundial, que se mantém fantástica.Ele se afastou em 2006, por questões de saúde. Como é que o senhor avalia a interinidade de Raúl? Fidel foi sempre uma presença forte e permanente, que rendeu a Raúl certa timidez de comando. Ou melhor: timidez para todo um grupo de reformistas. Quem são os reformistas? Falo de um grupo com idéias já maduras sobre as mudanças. Como não tinham poder, essas pessoas tentaram encaminhar o debate, acumular idéias, fazer propostas, e isso aconteceu. Hoje há um interessante debate sobre reformas na ilha. Mas daí veio a interinidade de Raúl, com algumas mudanças em postos-chave, muito discretas, uma sutil preparação para uma outra estrutura de poder. Tudo à sombra do protagonismo do líder máximo. Eis que, depois de alguns meses tratando da saúde, Fidel voltou a se manifestar em março de 2007, com reflexões escritas e artigos para jornais. Reafirmava sua centralidade. Mas havia o dado imponderável, a saúde do comandante. Concordo, ninguém sabe exatamente o que se passou com ele. Só Fidel e as pessoas que lhe são próximas. Sobre seu estado de saúde existem comentários vindos de fontes estrangeiras, serviços de inteligência, jornalistas, mas, de fato, não se sabe o que terá acontecido. Acho que houve um momento crítico, em que Fidel pensou que iria morrer. Depois teve uma melhora relativa e pôs-se a escrever. Agora, com a renúncia, deduz-se que exista uma doença séria, que o impede de voltar.Fidel sinalizou que pretende ver a transição cubana enquanto está lúcido e relativamente ativo? De certa maneira. Para as lideranças cubanas é importante fazer a transição contando com a lucidez e o carisma do líder. Portanto, fiquemos atentos ao que vai se passar domingo em Cuba (hoje, com a eleição do Conselho de Estado) e ao que virá logo depois. Não há dúvida de que há grupos influentes pressionando por uma redefinição na estrutura de poder.Que forças políticas operam? Os reformistas estão aí: são economistas, gerentes de estatais, muitos deles saídos do Exército cubano. Estão no setor de hotéis, serviços, aviação, logística, enfim, trata-se de um grupo com cabeça renovada, operando no esquema de moeda forte.Um representante desse grupo?O maior é Raúl Castro. Como chefe das Forças Armadas, posto que ocupa há muito tempo, foi transferindo militares para os setores de maior pujança na economia. São generais, coronéis, pessoas ainda não acostumadas a se promover individualmente, mas como grupo, dentro de uma hierarquia.Então Raúl manda um bocado. Raúl conta muito. Não penso uma Cuba sem Fidel. Penso uma Cuba entre dois Castros. Um operando pelo sistema ortodoxo, em defesa do socialismo tradicional, do estatismo, da luta ideológica, que é Fidel. E outro operando pela via do pragmatismo, da liberalização econômica, da busca de resultados, que é Raúl. Eles têm estilos diferentes. Fidel dedicou a vida à revolução. Já Raúl tem vida familiar. De modo geral, podemos mapear duas grandes correntes: os duros e os reformistas. É isso. Há outras forças menores, representadas por intelectuais como o ministro da Cultura, Abel Prieto, que pedem liberdade, respeito às minorias, melhor tratamento aos gays. Mas têm pouca influência. Como explicar que o grupo defensor da abertura econômica seja liderado por militares formados numa visão monolítica de poder?Isso se explica pela natureza do regime. O socialismo cubano foi um dos mais centralizadores do mundo. Num momento dado o nível de estatização da economia era superior a 90%. Em 1985, com a perestroika e a glasnost de Gorbachev, houve tímidas reformas na ilha, mas imediatamente Fidel conteve o processo, inaugurando o período de retificación. Que reformas foram aquelas? Raúl tinha posto em prática medidas que davam mais liberdade ao pequeno produtor rural, para estimular a geração de alimentos. Por que fez isso? Porque o Exército estava não só preocupado com a alimentação de suas fileiras, mas com a tranqüilidade do povo. Mais tarde, em 1990, quando a URSS desmoronou, encerrando a era de subsídios a Cuba, não havia uma classe empresarial na ilha para tocar o barco. Foi preciso buscá-la no Exército. Essa é a explicação principal. Secundariamente, consideremos que muitas empresas já atuavam próximas das Forças Armadas, como a Sherritt, do Canadá, que extrai níquel na Província do Oriente. Hoje temos a Petrobrás e outras companhias lidando com esses militares convertidos em executivos. É gente treinada para operar setores estratégicos. Raúl é visto como o mais intransigente dos Castros, o mais soviético. Combina com o perfil reformista?Nos anos 70, houve um período de institucionalização da revolução russa, opondo-se ao stalinismo anterior, tocado por forças reformistas. Na Hungria, houve pelo menos dois momentos de reformas. A China de hoje pouco tem a ver com a China de Mao. Raúl acompanhou e estudou esses processos. Carlos Lage, ministro da Economia de Cuba e seu aliado, já visitou a China algumas vezes. Dizem que Lage tem chance de subir mais na hierarquia cubana, a partir das eleições deste domingo. Eu ficaria surpreso se o novo esquema de poder não se apoiar nas figuras de Raúl e Lage. Raúl vai fazer 77 anos, Lage tem 56, portanto, podem constituir um eixo duradouro de poder. Faço essa análise apostando que Cuba vá entrar num período de reformas. O ministro de Relações Exteriores, Pérez Roque, é ligado a Fidel e está bem cotado. Assim, se o grupo reformista subir, terá de fazer concessões aos ortodoxos. Contudo é possível que se abra um período de tensão política interna.O senhor prevê confrontos entre os pró-Raúl e os pró-Fidel? Sim. Fidel não vai desaparecer do cenário e seus aliados são fortes. Os partidários de um esquema mais liberalizante contarão de início com um clima de consenso, a partir de um acordo político feito em família. Mas a tensão existe. Os problemas econômicos da ilha, as pressões sociais, especialmente dos jovens, as mudanças do mundo, enfim, tudo isso indica que Cuba precisa de rumo. Pode-se concordar ou não com elas, mas existem propostas de mudança em vários setores da economia.Militares viram executivos no processo de flexibilização da economia. Não foi assim que as máfias russas se formaram?O risco desses empresários do Estado gravitarem em círculos ilegais, como aconteceu na Rússia, é proporcional ao grau de colapso do sistema político e de câmbios na economia. Esse é um forte argumento em favor da transição suave e gradual. Cuba parece emitir sinais contraditórios. Os reformistas são gente saída das fileiras do Exército. Já Fidel, que o senhor perfila como ortodoxo, é o líder que os jovens preferem. Fidel foi e continuará sendo a figura maior da Revolução Cubana. No nível simbólico, ele é o pai do povo. É o pai do povo e o avô de toda criança cubana. Governou 49 anos com um sentido de missão. E desenvolveu um modelo paterno à moda antiga: centralizador, autoritário. Lembremos que aquela Cuba revolucionária lá dos anos 50 virou uma espécie de grande família. Então, não vejo contradições. No plano internacional, a grande marca de Fidel foi ter se oposto abertamente aos presidentes americanos. Ele se comportou como se estivesse apontando o dedo do meio da mão para os ocupantes da Casa Branca. Sem apontar, claro.Chávez é um imitador de Fidel? Chávez tenta ser o seu herdeiro. Só que tudo o que o Fidel disse, nestes anos todos, tem a marca da sua elegância pessoal. Ele atacou sempre com muita veemência. Mas também com muita elegância. Quer dizer que ele jamais diria que Bush é um diabo com cheiro de enxofre, como fez Chávez? É isso. Fidel foi muito criticado nesses anos todos, mas, se fizermos um balanço, logrou um sucesso tremendo, cativando platéias pelo mundo.Ficará mais popular ainda? Não é tão simples. A sociedade cubana passou por um processo interessante. Analisemos a mocidade, gente de 16 a 36 anos. Muitos foram educados antes do Período Especial. Freqüentaram escolas nos anos 80, quando Fidel tinha 70 e a revolução atravessava uma fase gloriosa quanto aos recursos de que dispunha. Falo do Período da Institucionalização, depois daquele tremendo fracasso da supersafra de cana-de-açúcar. Ali houve umas tantas reformas, tocadas sob o carisma de Fidel. Houve também uma espécie de normalização da vida e um sentido de melhorar as instituições. Nos anos 80, Cuba ainda contava com o enorme apoio soviético, algo como US$ 5 milhões a US$ 6 milhões por dia, enquanto o resto da América Latina, e o Brasil inclusive, amargava o peso da dívida externa, a inflação, a estagnação econômica, as ditaduras. Naquele momento Fidel exportou a imagem de que o modelo cubano dava certo. Pois bem, a geração socializada nesse período cresceu pensando que os cubanos eram os forjadores del futuro. Falava-se numa sociedade superior, na qual as escolas serviam merenda duas vezes ao dia. Tinha médico, dentista, verão subsidiado naquelas praias lindas. Mas o sonho ruiu no Período Especial e essa mesma geração ficou perplexa diante das carências que explodiram no país. Esses jovens perderam insumos calóricos, contraíram doenças, viram a economia encolher de 35% a 40%. Foi um baque, uma desilusão. Muitos da geração dos forjadores perceberam que era preciso encontrar meios de sobrevivência por si mesmos, e não esperar pela "ajuda paterna". Saíram atrás de contatos em outros países, emigraram.Mas não são os balseiros, certo? Não. Têm perfil diverso. Estou falando de uma geração bem formada, jovens diferenciados que conseguiram se recolocar em outros países. Os líderes políticos de Cuba sabem disso. Sabem que perderam gente da melhor qualidade. Portanto, ações do governo hoje tentam reintegrar essa geração. Não é à toa que Fidel está promovendo líderes novos. A disputa pela guarda daquele menino cubano Elián González foi um momento em que Fidel favoreceu a emergência de líderes jovens, no contexto da "batalha das idéias". O "caso Elián", em 1999, deu origem a uma onda de gestos de voluntarismo, mobilizações públicas, desfiles. Isso foi bem usado internamente. Mesmo aqui nos EUA, acompanhamos a disputa pela guarda da criança, vimos que o pai tinha direitos e Elián teria de voltar para Cuba, mas o grande efeito aconteceu na ilha.Quando Fidel começou a falar em "batalha das idéias"? Começou ali, em 1999. Formulou a tese de que existe não só uma solução econômica ao Período Especial, mas uma solução política. Fez isso falando aos moços. Então surgiram novos líderes, até mesmo aquela associação de estudantes secundaristas, líderes de 15, 16 anos, moças e rapazes que passaram a fazer discursos em cadeia nacional. Por isso estou curioso pelo resultado das eleições de domingo. Quero ver como se saem os novos líderes formados pelo fidelismo. Quem são, afinal? Vou dar um exemplo. Há um sujeito muito interessante, chamado Hassan Pérez. Como ele surgiu? Deram-lhe platéia para fazer discursos contra os EUA em 1999, 2000. Era um estudante universitário destacado e chamou atenção pela fala consistente, de uma retórica muito forte em torno dos temas mais caros da revolução. Fidel gostou muito dele, ficou mesmo impressionado com o rapaz. Então Hassan subiu rapidamente, chegou ao Parlamento e hoje é gerente de uma das empresas de turismo do país. Randy Allonso, que é citado na carta em que Fidel se afasta, não é dos mais jovens, mas também se encaixa no perfil. Esse grupo cresce e ganha poder por decisão no país.Fidel será o fiel da balança, conjugando ortodoxos e reformistas? Ele pode jogar dos dois lados. É um ditador que sempre soube gozar de muita mobilidade, colocando-se acima dos grupos e das facções. Maneja muito bem o contato direto entre líder e massa, lembrando Mao Tsé-tung. Também é capaz de quebrar, a qualquer momento, as regras que criou. Seus favoritos estão acima de tudo.O que o senhor pensa de uma Cuba sem Fidel Castro? Ele agora poderá ser um freio às reformas, pregando a volta ao socialismo "puro" e fazendo a crítica ao liberalismo econômico. É um articulador quase religioso disso tudo. Se ele desaparecer, tais teses perderão sentido nesse mundo globalizado em que vivemos, onde é preciso gerar novas dinâmicas, disputar mercados, atuar num sistema financeiro de alta complexidade. A China está comprando até empresas financeiras em Wall Street! Em Cuba ninguém mais acredita que o país possa se virar sozinho num mundo assim.Existe o medo de que, abrindo-se para o mundo, a ilha seja engolfada pelo vizinho poderoso, com os cubano-americanos de volta, numa espécie de reocupação? Esses temores existem. E lidar com eles é um grande desafio. Obviamente, a lei Helms-Burton, que em 1996 endureceu o embargo contra Cuba, tem medidas duras, que justificam tais sentimentos. A linguagem usada no texto da lei chega a ser ofensiva ao falar explicitamente na eliminação dos dois irmãos Castro. É algo que não se aplica em termos de boas práticas internacionais. Muitos de nós, aqui nos EUA, achamos que isso não tem cabimento.O próximo presidente americano terá condições de revogá-la? Essa é uma lei feita para a Flórida, que é chamado de swing state, ou seja, um Estado que pode mudar politicamente de forma muito rápida e radical. Isso é o que faz dos cubano-americanos uma força política importante. Eles mudam de um lado para outro conforme a conveniência e isso conta na corrida presidencial. Agora, mudar a lei, revogá-la, é missão do Congresso.O senhor é um cubano-americano pro-diálogo. Trata-se de uma minoria dentro de outra minoria? Somos minoria, mas estamos crescendo, principalmente entre as novas migrações. Existe mais espaço para o diálogo. Quem é mais favorável ao diálogo: Obama, Hillary ou McCain? Obama tem uma fala boa, mais objetiva do que a de Hillary. Ele tenta definir ações para flexibilizar contatos entre os dois países. E tenta inscrever o tema no mote de campanha dele - Change! (Mude!). McCain tem sido duro porque precisa conquistar de uma vez a ala conservadora da comunidade cubano-americana, que tradicionalmente volta com os republicanos. Do ponto de vista político-eleitoral, é compreensível. Mas, atenção: McCain é veterano da Guerra do Vietnã. Foi prisioneiro dos vietnamitas do Norte por cinco anos, saiu de lá com imagem de homem íntegro e liderou no Congresso americano o movimento pela normalização das relações com o Vietnã. Então, a tendência dele seria tratar Cuba dentro da mesma lógica: a Guerra Fria acabou, o mundo mudou, há reformas em curso, então, vamos normalizar.A desastrada decisão de invadir o Iraque semeou um sentimento antiamericano pelo mundo. Isso ajudou Cuba? Os oito anos de governo George W. Bush têm sido desastrados. Sua política externa ajudou Cuba e ajudou Fidel. Eu me lembro da simpatia que os EUA granjearam depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Até Fidel veio a público se solidarizar com a sociedade americana. Ora, Bush jogou tudo fora com a guerra do Iraque. Cedeu a pressões, ficou nas mãos dos neoconservadores, adotou um unilateralismo exacerbado. Isso abalou o prestígio mundial dos EUA.Existe aproximação possível diante do que os EUA fazem em Guantánamo? Como se sabe, há um antigo litígio entre os dois países, mas, na administração Bush, a base militar americana nessa península de Cuba virou um centro de tortura. É uma vergonha. Há um sentimento muito forte contra isso. Guantánamo, desde o início do século 20, foi o combustível do nacionalismo cubano. Estou falando da nossa velha república, de 1902 a 1959. Os americanos ocuparam aquela região com base na Emenda Platt, um contrato que não define prazo para a desocupação. Penso que com os Castros no poder, a situação não se resolverá. Mas, no futuro, é de se esperar que os cubanos recuperem sua baía. Isso tem a ver com soberania do país. É possível resolver? Sim. Jimmy Carter não resolveu a questão do Canal do Panamá? Cuba precisará de atores nessa mediação, então penso que o Brasil poderá ser fundamental, assim como México e Chile.Como estão as relações de Cuba com a América Latina? Quais são seus parceiros? Obviamente Chávez é o maior deles no momento. Até porque ele aspira a ser um novo Fidel. Chávez tem tomado medidas concretas para exercer essa influência, como a de construir uma refinaria em Cienfuegos, para processar o óleo cru venezuelano, que é muito grosso, ou ao vender para a ilha petróleo com preço subsidiado. Mas isso vai durar até quando? Tenho conversado com cubanos e venezuelanos e há sérias dúvidas sobre a sustentabilidade do apoio. Ainda que Chávez queira permanecer no poder até 2030. Por outro lado, vê-se o Brasil crescendo com dinamismo, recursos naturais, uma classe empresarial de peso, uma democracia que se consolida. O Brasil virou um país-chave para Cuba. Acrescente-se o fato de que Fidel e Lula têm afinidades históricas, nem sequer abaladas com a crítica do comandante ao etanol brasileiro. Fidel também se dava bem com Antônio Carlos Magalhães. Sim, adorava jantar com ele em Salvador. E teve uma relação razoável com Fernando Henrique. Talvez tivesse preferido uma relação mais profunda, mais declarada, mas tenho certeza de que sabia das dificuldades que o governo brasileiro enfrentava naquele momento, com reformas no aparelho do Estado, crises internacionais, etc. Recentemente o governo brasileiro firmou um acordo segundo o qual Cuba lhe dá permissão para prospectar petróleo nas águas do Golfo do México e o Brasil se compromete a cumprir um programa de investimentos da ordem de US$ 1 bilhão. Só por isso podemos concluir que o Brasil vá ter um papel diferenciado na transição. Há também o grande interesse chinês por Cuba.Como é esse interesse? A China tem laços antigos com a ilha. Há inúmeros contatos pessoais e políticos desde os anos 60. Li na semana passada que três canais chineses serão incorporados à rede televisiva oferecida aos turistas em Cuba. Os produtos made in China estão invadindo o país, como acontece aí no Brasil. De um lado isso é bom, porque as pessoas na ilha poderão comprar eletrodomésticos e carros a preços baratos, reequipando seus lares. Mas, até que ponto isso impulsiona o desenvolvimento? É um ponto preocupante. Cuba está em ruínas: não há dinheiro para recuperar imóveis, estradas, portos, sistemas de comunicação.Cuba fica vulnerável aos olhos da opinião pública mundial quando se trata da supressão das liberdades. Como é que o país deve se recompor em termos de direitos humanos? De fato ainda existe a cultura do paredão, algo muito identificado com Fidel. É uma visão maniqueísta do mundo: a revolução defende o povo e quem não está de acordo com ela deverá ser "legitimamente" eliminado. Eu conheço um cubano que gostava de uns tragos. Um dia, bebendo um pouco a mais, ele escreveu um poema contra Fidel. Pegou três anos de prisão. Sempre me lembro desse caso ao pensar quão peculiares são os pressupostos éticos desse regime. Como superá-los? O número de libertados vem aumentando nos últimos tempos, mas isso é insuficiente. Os cubanos terão de rever a Constituição de seu país, levando em consideração os direitos individuais. À medida em que o país liberaliza sua economia, o direito à propriedade individual também terá de ser reconhecido. Isso poderá acontecer? Creio que sim. No fundo, os cubanos sabem como mexer nas suas instituições gradualmente. Mas os jovens estão ansiosos. Querem ganhar mais, comprar, viajar, enfim, ter acesso ao mundo da modernidade. Isso pulsa nos blogs que pipocam na ilha. Como o Generación Y, de Yoane Sánchez, uma jovem universitária de Havana. Quem poderá calá-la?

Laura Greenhalgh, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2008 | 20h53

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