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O encontro de Reagan e Gorbachev que quase selou a paz

Em outubro de 1986 os dois líderes se reuniram em Reykjavik, mas não se entenderam sobre a eliminação de seus arsenais nucleares

Redação, The Economist

07 de setembro de 2019 | 16h00

Um mundo sem armas nucleares ainda parece improvável. Mas, em outubro de 1986, estava mais próximo do que muitos imaginavam. Em seu livro An Impossible Dream (of a World Without the Bomb), Guillaume Serina conta a irresistível história da cúpula de Reykjavik entre os líderes soviético e americano, Mikhail Gorbachev e Ronald Reagan, que por um triz quase fecharam um acordo de um prazo de dez anos para eliminar os arsenais dos dois países.

O acordo era desejável, mas impossível. Os dois lados estavam cientes de que tinham muito mais ogivas e mísseis nucleares do que precisavam. O lado soviético também sabia que o custo da manutenção de armas nucleares estava prejudicando a economia. Bem menos reconhecido era o equilíbrio da balança de terror, que corria menor risco de instigar o belicismo do que de sofrer com mal-entendidos, falhas ou acidentes. Em várias ocasiões durante a Guerra Fria, apenas delgados filetes de sorte e bom senso evitaram o apocalipse. Mas o acordo significava atravessar camadas de gelo de desconfiança. E do lado americano, a fixação de Reagan na Iniciativa de Defesa Estratégica, ou Star Wars – mísseis equipados com lasers – mostrou ser um obstáculo intransponível.

Os soviéticos ofereceram aos Estados Unidos uma grande concessão: continuar com os testes “laboratoriais” desse novo esquema. A definição dessa ressalva poderia ter sido ampliada para atender a todos os requisitos práticos (33 anos depois, a tecnologia Star Wars não está sequer próxima de qualquer utilidade). Mas Reagan havia colocado seu coração em um sistema futurista que tornaria seu país seguro para sempre e não queria voltar para casa dando a impressão de ter desistido dele.

Como afirma Roald Sagdeev, especialista nuclear soviético: “Os americanos exageraram nas possibilidades da Iniciativa de Defesa Estratégica e os russos acreditaram demais”.

O relato de Serina, publicado pela primeira vez em francês há três anos, baseia-se em arquivos liberados e entrevistas com testemunhas para fazer uma imagem vívida e valiosa da reunião de dois dias na capital da Islândia, apesar do ocasional floreado redundante e ocasional e algum desconhecimento da tecnologia que ele menciona. Ele é um dos principais correspondentes franceses que lidam com os Estados Unidos, não com a União Soviética, o que às vezes transparece. Além disso, ele despreocupadamente assume que o caso antinuclear é uma verdade evidente e é propenso a uma irrefletida equivalência moral entre o império comunista e o mundo livre. De fato, o diálogo ajuda a esclarecer divergências e a criar confiança. Mesmo assim, as opiniões de Reagan sobre um Kremlin malévolo foram bem fundamentadas.

Se, apenas se, a cúpula pudesse ter continuado mais um dia ... isso poderia ter dado aos dois líderes tempo para aumentar seu relacionamento crescente e prevalecer sobre os céticos em suas delegações. Gorbachev, acompanhado por sua esposa Raisa, estava disposto a continuar as conversações por mais 24 horas. Solitário e exausto, Reagan não estava. “Como poderia ter mudado o mundo se Nancy tivesse vindo junto?”, pergunta Serina.

Provavelmente não muito, na verdade. As duas grandes superpotências dificilmente descartariam seus arsenais nucleares sem que chineses, indianos, israelenses e outros fizessem o mesmo – e como isso seria conferido? Ainda assim, apesar do falso início em Reykjavik, as negociações continuaram, com a eliminação de armas nucleares de alcance intermediário na Europa e cortes conferidos e profundos nos arsenais estratégicos de ambos os lados. Dias felizes, para os padrões contemporâneos. /TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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