O encrenqueiro da grande família

O patriarca Mohamed bin Laden fundou um império da construção. Seu filho Osama fundou a Al-Qaeda

Chuck Leddy*, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2008 | 21h44

Da pobreza à riqueza, a história da família Bin Laden começa com Mohamed bin Laden, que trabalhou como pedreiro para uma companhia de petróleo americana na década de 30 e, posteriormente, abriu o próprio negócio no segmento de construção. Com relação à política, Mohamed bin Laden parece não ter se interessado pelo assunto.Teve, porém, numerosas esposas que lhe deram 54 filhos. Entre estes, Osama, nascido em fins dos anos 50 de uma jovem de 15 anos. Osama foi um dos sete filhos que, segundo se acredita, Mohamed teria gerado naquele ano. Osama ainda era pequeno quando o pai morreu num acidente aéreo com um avião particular pilotado por um americano. (Os aviões e os Bin Ladens têm uma estranha ligação. Pelo menos oito filhos de Mohamed, e algumas filhas, tiveram aulas de pilotagem. O irmão mais velho de Osama, Salem, morreu quando pilotava um avião de sua propriedade no Texas, em 1988.)Steve Coll, duas vezes ganhador do Prêmio Pulitzer, baseou-se em mais de 150 entrevistas e compulsou milhares de documentos para escrever The Bin Ladens: an Arabian Family in the American Century (Os Bin Ladens: uma Família Árabe no Século Americano), uma narrativa impressionante sobre a história da família Bin Laden, cujo membro mais célebre planejou os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. O livro de Coll é a biografia de uma família, não um retrato de Osama; entretanto, ao longo da narrativa, muita coisa vem à tona sobre o jovem que cresceu em uma família ao mesmo tempo tão mundana quanto piedosa, "a um grau de distância de Meca e dois de Las Vegas".Coll descreve como os Bin Ladens construíram o império da família, fazendo de sua empresa a construtora oficial da família real saudita. Os Bin Ladens enriqueceram nos últimos 50 anos graças a contratos lucrativos com o governo celebrados com a casa de Saud - como a construção de rodovias, palácios e reformas de locais sagrados dos muçulmanos.Depois de Mohamed, o patriarca seguinte dos Bin Ladens foi o carismático e ocidentalizado Salem bin Laden. Salem confiava em seu humor provocador e sua vasta fortuna para se insinuar junto ao rei Fahd. Coll conta uma história sobre Salem segundo a qual ele aposta com o rei Fahd que conseguiria fazer com que quatro mulheres ocidentais se casassem com ele ao mesmo tempo. Coll narra o momento em que Salem reúne suas quatro namoradas em um cômodo e promete a elas casas e segurança financeira para a vida toda se elas se casarem com ele. (Salem perdeu a aposta porque uma das mulheres, chocada, repeliu a proposta.)Salem bin Laden era figura conhecida no jet set internacional, amava a música americana e as mulheres ocidentais, mas nem por isso abria mão de crenças islâmicas conservadoras. Quando uma de suas irmãs se apaixonou por um italiano mais velho que ela, Salem "ficou exasperado e possuído pelo ódio", diz Coll. Os Bin Ladens tinham opiniões tão diversas e brigavam tanto quanto qualquer família numerosa, observa Coll. Salem, contudo, parecia ter sido seduzido pelo fascínio da permissividade ocidental, por um lado, e pelas exigências da piedade islâmica, por outro. Osama bin Laden tornou-se o membro mais religioso da família.Coll mostra como o jovem Osama, ainda no ensino médio, se deixou seduzir pela Irmandade Muçulmana e por seu propósito de "substituir os líderes seculares e nacionalistas por governantes islâmicos". Pouco depois dos 20 anos, Osama tornou-se o principal angariador de fundos para os combatentes islâmicos que lutavam contra a ocupação soviética no Afeganistão. Tanto o governo saudita quando a família Bin Laden apoiavam Osama nessa empreitada. Em 1986, Osama bin Laden recorreu a sua habilidade de organizador e angariador de fundos, talentos aperfeiçoados no negócio da família, para criar a própria brigada no Afeganistão e, mais tarde, a Al-Qaeda. Conforme explica Coll: "Osama faria três contribuições indispensáveis à Al-Qaeda, todas elas frutos de suas experiências como um Bin Laden: ênfase na diversidade e na inclusão; o modo tranqüilo com que lidava com dinheiro e com a parte administrativa; e sua atração pela tecnologia de integração global".No Sudão, o exilado Osama reuniu-se com vários de seus irmãos que tentavam convencê-lo a voltar para os negócios da família, ao mesmo tempo que procuravam atenuar a linguagem bombástica com que ele se dirigia à família real saudita. Pressionada pelo governo saudita, a família acabou por romper publicamente com Osama, destituindo-o dos negócios familiares. Coll deixa claro que Osama bin Laden vê os EUA de forma muito parecida com a que via os soviéticos no Afeganistão: imperialistas corruptos prontos para serem derrotados. O autor explora a possibilidade de que a família Bin Laden tenha continuado a ajudar Osama depois de rejeitá-lo oficialmente, mas não encontra prova concreta alguma disso. A fortuna pessoal de Osama continua a ser um mistério que Coll - a despeito de seus esforços - jamais conseguiu quantificar.Desde o 11 de Setembro, o radicalismo de Osama pôs a família Bin Laden em uma situação difícil, diz Coll. "Para satisfazer a opinião pública americana, os Bin Ladens teriam de pedir perdão e denunciar Osama", enquanto seria preciso que adotassem simultaneamente uma atitude mais difusa em relação a Osama "no mundo árabe, onde estão os interesses financeiros da família". A construtora da família continua a prosperar, diz Coll, e a influência de Osama segue muito forte no mundo do Islã radical. A exaustiva pesquisa do autor e seu relato, vazado numa escrita elegante, mostram que os Bin Ladens sabem, como ninguém, sobreviver. *Chuck Leddy é escritor free lancer e membro do National Books Critics Circle

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